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	<title>Lisandro Gaertner</title>
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	<description>Nada a declarar, a não ser isso</description>
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		<title>Campus Party: há algo de diferente</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Feb 2012 16:03:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lisandro Gaertner</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Vida ou Algo Parecido]]></category>
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		<description><![CDATA[Mais vez estou na Campus Party. O sentimento à primeira vista parece o mesmo de sempre, mas há menos vigor. Talvez seja eu. Talvez seja o fato de que não precisei passar 9 horas numa fila para conseguir uma credencial. &#8230; <a href="http://lisandrogaertner.net/blog/?p=720">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Mais vez estou na Campus Party. O sentimento à primeira vista parece o mesmo de sempre, mas há menos vigor. Talvez seja eu. Talvez seja o fato de que não precisei passar 9 horas numa fila para conseguir uma credencial. Vai ver a diminuição do esforço para aqui estar diminuiu também a sensação de conquista. Sei lá, mas há algo diferente.</p>
<div id="attachment_724" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><a href="http://lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2012/02/fila.jpg"><img class="size-full wp-image-724" title="fila" src="http://lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2012/02/fila.jpg" alt="" width="500" height="375" /></a><p class="wp-caption-text">Fila. Menor, mas não inexistente.</p></div>
<p>A feira parece maior e melhor organizada; existem mais azulzinhos (o povo da &#8220;organização&#8221;) circulando por aí e as informações prévias foram melhor distribuídas e comunicadas; as palestras desse ano tem um foco mais em pessoas e sua relação com tecnologia do que no aspecto hard da Internet e afins. Enfim, tudo parece melhor. Fora o calor tremendo, eu poderia até dizer que está melhor que a do ano passado, mas não me sinto a vontade de fazê-lo. Há algo diferente.<span id="more-720"></span></p>
<p>Os papos em volta parecem menos voltados à tecnologia e mais às pessoas, é verdade, e mesmo em meio aos geeks a frase que mais se ouve é &#8220;eu tenho uma vida&#8221; precedido de &#8220;Não jogo WoW&#8221; &#8220;Não tenho Vlog&#8221; ou &#8220;Não quero montar uma start up&#8221;. A impressão é que há um sentimento de estafa generalizado no que tange à tecnologia. As palestras falam disso. Os participantes comentam sobre isso e o cansaço parece claro mesmo nesse segundo dia. Há algo diferente.</p>
<p>Não sei se esse cansaço é proveniente do período interregno estendido que vivemos. Afinal, desde 1995 convivemos com essa mudança não concretizada da era industrial para a era do conhecimento. Os poderes antigos ainda estão no poder; as relações sociais, políticas e de trabalho em quase nada se alteraram; e tudo que o ganhamos foi o &#8220;direito&#8221; de compartilhar mídia e encher o saco uns dos outros nas redes sociais. Coisas que, lembrem de SOPA e PIPA, ainda querem nos tirar. Ou seja, as promessas do passado apenas se tornaram os lamentos do presente.</p>
<p>Não tiro a razão de todo esse cansaço. 17 anos é tempo demais esperando uma mudança que não chega. Uma geração inteira nasceu sem Rei e sem rumo. Não admira estarmos entregando os pontos.</p>
<p>Aproveitando a brecha, aqueles que iriam ser destronados pelo poder da colaboração democrática da internet se tornaram os nossos financiadores. Viramos pretensos revolucionários vencidos pela contradição que nos tornamos. Desistimos  da mudança que esperávamos quando nos permitimos ser bancados pelo poder estabelecido. A mudança virou maquiagem. E, para selar o caixão, é nesse momento trágico que o cansaço se tornou perversão e corrupção.</p>
<div id="attachment_721" class="wp-caption aligncenter" style="width: 2058px"><a href="http://lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2012/02/patrocinios.jpg"><img class="size-full wp-image-721" title="patrocinios" src="http://lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2012/02/patrocinios.jpg" alt="" width="2048" height="1536" /></a><p class="wp-caption-text">Tudo tem seu preço...</p></div>
<p>Os sinais são claros. Já podemos notar que esse povo tão colaborativo e unido começa, ao molde das gangues do velho oeste, a marcar seus espaços, sejam físicos e virtuais. Ou seja, os pretensos revolucionários se tornam os protótipos dos ditadores que diziam combater. <a href="http://boingboing.net/2011/05/30/every-pirate-wants-t.html" target="_blank">Parafraseando Cory Doctorow: &#8220;Every Pirate wants to be an Admiral&#8221;</a>.</p>
<div id="attachment_722" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><a href="http://lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2012/02/reservado.jpg"><img class="size-full wp-image-722" title="VLUU L100, M100  / Samsung L100, M100" src="http://lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2012/02/reservado.jpg" alt="" width="500" height="375" /></a><p class="wp-caption-text">Evento democrático mas de lugar marcado na marra. É uma ameaça velada?</p></div>
<p>Some a isso o retorno do recalcado, bem exposto pelo Sebrae, patrocinador do tema Empreendorismo, que, na voz de um de seus representantes, vestido com uma camiseta ostentando o meme de &#8220;like a boss&#8221;, declara, sob aplausos,  que o espírito empreendedor surge do desejo de ser o &#8220;próprio&#8221; chefe ou, melhor, de ser chefe dos outros. Se não há como vencê-los, não apenas se una a eles: se torne um deles. Essa é a mensagem. <em>Copy that, Roger!</em></p>
<p>É bastante significativo que o evento aconteça próximo dos claros sinais do avanço da censura na Internet (SOPA, PIPA, condenação da galera do Pirate Bay, prisão do Dotcom do Megaupload) e do lançamento das ações do Facebook. A internet, que vinha pra liberar o conhecimento, nos tornou novamente escravos, produtos comercializados por aqueles a quem entregamos os dados de nossa vida. Seria interessante que o IPO do Facebook ocorresse no dia 13 de maio só para fecharmos o curto período em que a escravidão foi abolida na mesma data.</p>
<div id="attachment_723" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><a href="http://lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2012/02/robos.jpg"><img class="size-full wp-image-723" title="VLUU L100, M100  / Samsung L100, M100" src="http://lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2012/02/robos.jpg" alt="" width="500" height="226" /></a><p class="wp-caption-text">Vai guardando o Mantra, pois é o que nos tornaremos</p></div>
<p>Não sei se virei na próxima Campus Party. Não sei se haverá uma próxima Campus Party. Será que faria sentido realizá-la com o fim da Internet e de seu espírito tão próximo de se concretizar?</p>
<p>Como já disse, há algo de estranho. Não só na Campus Party, mas em todo o mundo em volta da Internet. Não concorda?</p>
<p>Bom, isso é o que eu acho, mas também pode ser o calor falando.  Já disse que tá quente pacas aqui? <img src='http://lisandrogaertner.net/blog/wp-includes/images/smilies/icon_wink.gif' alt=';-)' class='wp-smiley' /> </p>
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		<title>2 and a 1/2 men menos 1 and a 1/2 men mais 1 man, igual à&#8230;</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Sep 2011 16:53:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lisandro Gaertner</dc:creator>
				<category><![CDATA[Opinião é que nem...]]></category>
		<category><![CDATA[Resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[dramaturgia]]></category>
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		<description><![CDATA[Não sei quanto a vocês, mas fiquei com uma sensação esquisita no início da nova temporada do Two and Half Men. E, não, a causa disso não foi a &#8220;substituição&#8221; Charlie Sheen pelo Ashton Kutcher. Não houve substituição. A série &#8230; <a href="http://lisandrogaertner.net/blog/?p=700">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não sei quanto a vocês, mas fiquei com uma sensação esquisita no início da nova temporada do Two and Half Men. E, não, a causa disso não foi a &#8220;substituição&#8221; Charlie Sheen pelo Ashton Kutcher. Não houve substituição. A série só passou por uma grande mudança estrutural para manter seu público próximo de um cenário e personagens familiares. Nessa reestruturação o que realmente me incomodou foi a mudança ocorrida no Alan.<span id="more-700"></span></p>
<p>Estruturalmente, Two and a Half Men era uma série equilibrada por 3 personagens: o adorável perdedor neurótico, Alan; o garanhão, Charlie; e o bobo, Jake. Eles representavam toda uma gama de estereótipos negativos masculinos. E, como tal, eram sempre cercados por esterótipos negativos femininos: as materialistas, as amargas e as loucas.</p>
<div id="attachment_703" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2011/09/Two-And-a-Half-Men.jpg"><img class="size-medium wp-image-703" title="Two-And-a-Half-Men" src="http://lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2011/09/Two-And-a-Half-Men-300x246.jpg" alt="" width="300" height="246" /></a><p class="wp-caption-text">Os dois homens e meio e suas mulheres</p></div>
<p>Esse equilíbrio permitia que a série corresse macia, sem problemas típicos de continuidade, se tornando uma preferência na reprises. Não haviam, como em tantas séries questões específicas a serem resolvidas, como o romance de Ross e Rachel, bem &#8220;trabalhado&#8221; em Friends, e o, não tão bem escrito, enlace de Penny e Leonard em The Big Bang Theory. A toda semana estávamos simplesmente assistindo à guerra dos sexos vista do lado do atual perdedor, o homem. Não importava a mulher envolvida com Charlie, com Alan, ou mesmo com Jake. Podia ser a empregada, a mãe, a vizinha louca ou uma outra qualquer. Cada episódio era apenas mais um prego no mito masculino pré século XXI.</p>
<p>Quando Charlie Sheen saiu da série, os motivos e o que ele fez depois não importam para essa discussão, o equilíbrio foi quebrado. Pelo bem da suspensão de descrença, sim, isso não é só pra fantasia ou ficção científica, não faria sentido colocar outro no exato papel de Charlie. Um outro garanhão não poderia ficar naquele lugar.</p>
<div id="attachment_702" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2011/09/20100518.jpg"><img class="size-medium wp-image-702" title="20100518" src="http://lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2011/09/20100518-300x235.jpg" alt="" width="300" height="235" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;Eu não sou você amanhã, nem hoje&quot;</p></div>
<p>Imagino como o pessoal deve ter quebrado a cabeça para saber o que fazer com a série. Havia um público grande ansioso por sua continuação e se desfazer dele seria jogar dinheiro no lixo. Nem que por mais uma temporada, essa vaca deveria ser ordenhada.</p>
<p>Não temos como saber, só pelo primeiro episódio, o que ocorrerá na série, mas uma mudança ficou bastante clara: não teremos mais um equilíbrio triangular. Jake, um dia isso iria acontecer de qualquer maneira, deixaria de ser meio homem e não faria mais sentido como um bobão. A saída de Charlie antecipou a sua partida. Com isso temos uma dualidade, Alan de um lado, e mais alguém de outro.</p>
<p>No modelo tradicional de sitcom, excetuando as séries de ensemble, a escolha do ator sempre pesa no papel. Como ocorreu com Charlie Sheen, o próprio Charlie Harper, o ator colocado em seu lugar iria levar a sua personalidade à série. John Stamos, que fez uma participação no novo episódio, seria uma escolha mais estilosa, porém brega, e não funcionaria bem com o histriônico Alan. E o mais importante nesse momento seria salvar o personagem do Alan, o ponto de familiaridade dos espectadores com a série.</p>
<p>A solução aparentemente foi tirá-lo do papel de escada. Para isso, eles alteraram o seu tipo. Ao invés de ser o adorável e neurótico perdedor, ele, nesse primeiro episódio, está bem mais próximo do Bitch/Bastard, papel antigo de Bertha e da mãe dos Harpers. Para se contrapor a ele a escolha de Kutcher sugeriu um personagem num modelo próximo do Joey do Friends ou mesmo do seu próprio Kelso. Sem maldade, mas cheio de málicia e sabiamente tolo.</p>
<div id="attachment_701" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2011/09/677155-ashton-kutcher-editorial.jpg"><img class="size-medium wp-image-701" title="677155-ashton-kutcher-editorial" src="http://lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2011/09/677155-ashton-kutcher-editorial-300x185.jpg" alt="" width="300" height="185" /></a><p class="wp-caption-text">Kelso No. 2?</p></div>
<p>Tudo foi muito auto referencial nesse primeiro episódio, homenageando o que foi feito até agora, mas sem deixar claro o novo caminho da série. Ele inclusive terminou com o famoso &#8220;To be continued&#8230;&#8221;, o que me deixou curioso para ver como eles vão equilibrar essa relação e quais alterações serão feitas em Bertha, Jake e afins. Uma saída possível é virar o jogo e transformar os homens em materialistas, amargos e loucos, e as mulheres em ninfomaníacas, tolas e neuróticas. Uma inversão de valores faria bem à série, que, convenhamos, estava um pouco esgotada.</p>
<p>Mas é muito cedo para dizer que caminho será seguido. Essa, apesar do mesmo nome, é outra série. Um verdadeiro spin off no mesmo cenário.</p>
<p>E assim começou o fim da novela sobre a substituição do Charlie Sheen pelo Ashton Kutcher no Two and a Half Men: com uma nova série. Adeus, Two and a Half Men e bem vinda Two Men, ou, quem sabe, All Men.</p>
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		<title>A eterna crise de ouro do RPG</title>
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		<pubDate>Sun, 04 Sep 2011 19:01:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lisandro Gaertner</dc:creator>
				<category><![CDATA[Opinião é que nem...]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
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		<description><![CDATA[Cara, tem coisas que é até melhor não ficar sabendo. Mas como fiquei sabendo, não estou conseguindo ficar calado. O pior é que isso me pegou logo depois da minha volta da GENCON, onde entrei em paz com o meu &#8230; <a href="http://lisandrogaertner.net/blog/?p=675">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Cara, tem coisas que é até melhor não ficar sabendo. Mas como fiquei sabendo, não estou conseguindo ficar calado. O pior é que isso me pegou logo depois da minha volta da GENCON, onde entrei em paz com o meu lado gamer e mudei muito o que eu pensava sobre o hobby.</p>
<p>Do que estou falando? Bom, há pouco tempo atrás, <a href="http://www.rederpg.com.br/wp/2011/08/o-novo-paradigma-do-rpg-brasileiro/" target="_blank">a Rede RPG publicou um texto comentando sobre uma mudança de paradigma no RPG nacional</a>. Estranhamente o artigo se focou na comparação entre os tempos de hoje e uma suposta &#8220;Era de Ouro&#8221; do RPG Nacional. Pelo que entendi do artigo essa tal época dourada comercial ocorreu nos meados dos anos 90, quando eu era particularmente atuante no meio. Engraçado que eu não me lembro de época de ouro nenhuma. Foi uma época legal e tudo, mas não tinha nada de época de ouro. O que havia realmente era mais trabalho, mais gente disposta a trabalhar, um certo deslumbramento e muitos erros sendo cometidos.<span id="more-675"></span></p>
<p>Me lembro que para fazer as RPG RIO, com os poucos recursos disponibilizados pelo Osny e pela Esther, eu e outros costumávamos ficar dias inteiros na Gibiteria demonstrando jogos e correndo atrás de mestres e jogadores. Nas vésperas do evento, reuníamos uma galera legal, que é amiga até hoje, para &#8220;transferir&#8221; mesas entre os andares da UERJ e preparar salas e salas de jogo. Na 3a. RPG RIO, a pobre da Nicole inclusive serviu de modelo para a marca de giz no chão da sala de terror e perdemos a cabeça de um manequim usada para a decoração que nos foi emprestada por um dos jogadores. Apesar de todo esse trabalho, ninguém reclamava do esforço. Afinal os resultados compensavam e olha que eles não eram financeiros.</p>
<p>A RPG RIO chegou a reunir muita gente mesmo, quase 20 mil jogadores, segundo contas exageradas do Steve Jackson em 1993, mas não vivíamos uma &#8220;Era de Ouro&#8221;. Fomos ao primeiro Encontro Internacional para botar água nos planos da RPGA Brasil com nosso próprio dinheiro e ficamos hospedados num albergue na PQP. Coisa de espírito de porco e muito divertido, mas não era uma &#8220;Era de Ouro&#8221;. Tivemos eventos de jogos estranhos e campeonatos de RPG. Em todos os lugares pipocavam eventos e iniciativas. Haviam jogos amadores muito interessantes (alguém lembra do Abismo baseado no sistema FASERIP?). Mas não era uma &#8220;Era de Ouro&#8221;. Tivemos lives geniais, incluindo um memorável de DC, onde joguei com o duas caras. Foi incrível. Uma época sensacional. Mas não era uma &#8220;Era de Ouro&#8221;. Pelo menos, não como o artigo quer passar: uma &#8220;Era de Ouro&#8221; comercial.</p>
<p>Ao contrário do que o artigo tenta aparentar não tinha um bando de gente &#8220;vivendo&#8221; de RPG. A maioria dos envolvidos era estudante, alguns tiraram algum dinheiro com algumas coisas, mas não lembro de ninguém botando o boi na sombra. Tivemos algumas grandes editoras no mercado nesse período, mas todas acharam que o mercado de RPG seria algo que nem o mercado de livros não didáticos se tornou no Brasil: uma mina de ouro. Lembro como fiquei espantado ao ouvir o editor da Ediouro falando que ia ficar rico com o RPG e como o pessoal da Grow nos recebeu e deu a clara impressão que o D&amp;D iria se vender sozinho como um Banco Imobiliário da vida. Havia mais investimentos, é verdade, mas também havia muitos iludidos.</p>
<p>A impressão que o artigo me passou tem muito a ver com a concepção de &#8220;arte e artistas&#8221; no Brasil. Normalmente, algo só se justifica por aqui no Brasil apenas quando se torna atividade de tempo integral. Você pode ser um puta pintor, mas se você se sustenta de outra forma, você não é um artista. Artista é o Romero Brito que vende papel de parede pra Madonna ou a Carla Perez que faz axé infantil evangélico e aparece no TV Fama. A mesma lógica rola no RPG. Se aquilo não é sua atividade de tempo integral, sua obra será considerada menor. Ou, o RPG só é importante quando aparece no Fantástico. Uma puta babaquice, né?</p>
<p>Não existe era de ouro oficial do RPG, nem vai existir. Nem aqui, nem nos EUA, nem em qualquer lugar. No auge da TSR, o Ed Greenwood continuava trabalhando como bibliotecário. O santo Frank Mentzer trabalhou em padaria e tudo para sobreviver quando seu empreendimento pós TSR faliu. Quem lê o reporte anual da Steve Jackson Games vê como é necessário ter austeridade financeira para fazer o negócio sobreviver. Sempre fomos mercado de nicho. Tivemos um desenho animado baseado no AD&amp;D, dois filmes (ruins) com o nome do Dungeons &amp; Dragons, e uma cena no ET. Pronto. Você quer jogar ou quer que o RPG seja considerado um troço cool? Se escolheu a segunda opção, te aviso, escolhe outro hobby que você tá no lugar errado.</p>
<p>O que me dá mais ódio nisso tudo é que esse tipo de postura de &#8220;sabe tudo&#8221; só alimenta um bando de briga de egos ridículas que de nada nos serve. Quer ajudar o RPG? Mobiliza o pessoal e age sem orgulho pessoal ou ambição. Ou só um pouquinho. Como a gente fazia nessa tal &#8220;Época de Ouro&#8221;. Faz por que é de coração, não por remorso. É preciso fazer e fazer certo, pelas razões corretas, não por que vou ficar rico, bonito ou famoso. Afinal, não vamos ficar mesmo e se ficarmos não vai ser o RPG que nos dará isso.</p>
<p>Esse foi o grande aprendizado que tive esse ano na GENCON. Enquanto tínhamos os enormes stands da Wizards, Mayfair, Fantasy Flight e afins, tínhamos pequenos stands onde as pessoas vendiam seus jogos e idéias sem o menor pudor ou vergonha. Pelo contrário, tinham o maior orgulho. Num deles, após me demonstrar um jogo, por sinal, bem fraquinho, um garoto me diz com convicção e franqueza:</p>
<p>- Esse jogo foi desenvolvido pelo meu primo que tá alí atrás, e estamos eu, ele, meu avô e minha avó o demonstrando. Esperamos que tenha gostado e sinta-se a vontade de nos dizer o que achou e como podemos melhorar. Estamos sempre aprendendo e queremos disponibilizar sempre os melhores jogos para nossos clientes.</p>
<p>Fiquei sensibilizado, mas não a ponto de comprar o jogo. Você acha que para esse garoto importava se essa é uma &#8220;época de ouro&#8221; sancionada oficialmente ou não? Claro que não. Para quem faz as coisas com carinho e respeito aos seus, sempre é uma época de ouro. Espero que mais pessoas no Brasil estejam vivendo a SUA Era de Ouro pessoal do RPG. Eu sei que estou, desde 1986. E vocês?</p>
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		<title>Meia Noite em Paris</title>
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		<pubDate>Mon, 29 Aug 2011 23:51:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lisandro Gaertner</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[Depois de abandonar a sua fantasia nostálgica e abrir mão do seu presente e do seu provável futuro, Gil Pender, alter ego de Woody Allen em Meia Noite em Paris, caminha sozinho pela noite da capital francesa. Enquanto discute consigo &#8230; <a href="http://lisandrogaertner.net/blog/?p=662">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Depois de abandonar a sua fantasia nostálgica e abrir mão do seu presente e do seu provável futuro, Gil Pender, alter ego de Woody Allen em Meia Noite em Paris, caminha sozinho pela noite da capital francesa. Enquanto discute consigo mesmo a respeito do que fez com sua vida, esbarra com a vendedora de discos antigos que conheceu no mercado de pulgas. Após uma pequena troca de gentilezas, a atração entre os dois se mostra clara. Bate meia noite, a hora mágica em que ele voltava no tempo. Dessa vez ele não é tragado para a sua fantasia nostálgica. Ele está vivendo uma versão dela no seu próprio presente. Sem aviso, começa a chover e, para confirmar como certa a sua escolha, a vendedora concorda com ele: é ótimo andar sob a chuva. The End. Será?<span id="more-662"></span></p>
<dl id="attachment_664" class="wp-caption aligncenter" style="width: 491px;" caption="Final Feliz?"><a href="http://lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2011/08/mnip_01.jpg"><img class="size-full wp-image-664  " title="mnip_01" src="http://lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2011/08/mnip_01.jpg" alt="" width="481" height="385" /></a></dl>
<p>Claro que não. O corte final nos filmes de Woody Allen apenas fecha pequenos ciclos neuróticos. Como sempre,  adorei o filme e tudo, mas, dessa vez, quando saí do cinema fiquei com uma certa preocupação. Algo que não me acontecia há um bom tempo.  Por quê? Vamos ver se eu consigo explicar.</p>
<p>Nessa sua última obra, Woody Allen levanta, mais uma vez, aquele velho conflito entre a vida real e o &#8220;mundo ideal&#8221;. Ele mesmo já fez isso em um bando de filmes. Em a Rosa Púrpura do Cairo, em Bananas, em O Dorminhoco, e, em menor grau, em A Era do Radio, que era um filme mais memorialista. Frente a esse conflito comum, os filmes tendem a apresentar apenas 3 soluções para a trama:</p>
<p>1. A recusa do retorno, como em Algum Lugar do Passado, em que o &#8220;viajante&#8221; apaixonado pela fantasia resolve não retornar ou morre de saudades após ser expulso do seu mundo ideal, como no caso do exemplo.</p>
<p>2. A adequação à realidade, em que o sujeito percebe como era tola (era mesmo?) a sua fixação com o mundo ideal, que em alguns filmes é exatamente de onde ele saiu, e retorna para adequar a sua vida à &#8220;verdadeira&#8221; realidade que ele evitava ver. Coisa besta, né? O pior é que essa é a solução mais comum e só gera filmes moralistas, como o odioso O Homem de Família com o Nicolas Cage, o terror dos insones nas madrugadas.</p>
<p>3. E, finalmente, a volta ao presente com os instrumentos da mudança. Nesse caso, o herói aprende algo novo no mundo ideal e o utiliza para alterar o seu presente e o seu futuro. Woddy Allen escolheu a terceira opção, assim como toda a série De Volta para o Futuro. Esse é, em geral, o melhor desfecho, pois trata com respeito tanto o presente como o mundo ideal, apostando numa visão menos estática da vida e olha a fantasia como instrumento de libertação da mediocridade.</p>
<p>Além da escolha pelo viés da mudança, tão rara no cinema americano, o que achei de mais interessante no filme foi que a maioria dos personagens, seja de que época fossem, estava insatisfeita com o seu presente. A única exceção era a família e os amigos da noiva. Eles estavam satisfeitos com o que viviam. Apesar de muito reclamarem, eram homens e mulheres do seu tempo, viviam o presente e buscavam a confirmação do status que já possuíam. Não havia dúvidas em suas vidas. Todos os erros que encontravam no mundo eram externos a eles e seriam facilmente corrigidos se os &#8220;outros&#8221; agissem como eles. Lembrem da cena em que o &#8220;especialista em tudo&#8221; discute com a guia sobre a vida amorosa de Rodin. O real não importa. Ele estava certo pois essa é a sua realidade: estar sempre certo.</p>
<p>Do outro lado dessa balança, temos o pobre do personagem de Owen Wilson. Mais &#8220;errado&#8221; que ele, impossível. Bem &#8220;sucedido&#8221;, (sob os critérios de quem mesmo?), e permanentemente insatisfeito. Paralizado por esse conflito e pressionado a ser um homem do seu tempo, ao mesmo tempo que odeia o presente que lhe é apresentado. Sem saber o que fazer, ele é obrigado a buscar no passado a força que lhe falta para agir. Um verdadeiro herói clássico feito nos moldes do Monomito do Campbell.</p>
<div id="attachment_665" class="wp-caption aligncenter" style="width: 460px"><a href="http://lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2011/08/mnip_02.jpg"><img class="size-full wp-image-665" title="mnip_02" src="http://lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2011/08/mnip_02.jpg" alt="" width="450" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Somos obtusos, sem emoções, mas felizes</p></div>
<p>A estrutura pode parecer simples, e é, mas o filme é maravilhoso. Como uma verdadeira comédia de situação, cujo começo e o fim são sempre previsíveis, é a construção do seu recheio que o torna memorável. A representação dos heróis dos anos 20 é imaginativa, reverente e irreverente. Coisa de mestre. Mas, confesso que, quando saí do cinema fiquei bastante preocupado como as pessoas entenderiam a resolução do filme e a fixação do protagonista pelo passado. Daí a preocupação da qual falei antes.</p>
<p>Será que a veriam pelo lado positivo? Como instrumento de (r)evolução pessoal? Ou achariam que se ele vivesse no presente desde sempre tudo seria melhor? Afinal, evitar problemas antes que eles aconteçam é sempre a melhor opção, certo? &#8220;Coitadinho do moço, né?&#8221; as velhinhas comentam ao seu lado no cinema. &#8220;Perdeu uma noiva tão bonita. Ele é tão bobo&#8230;&#8221;.</p>
<p>A questão é complicada, afinal, os gurus das auto-ajudas da vida estão sempre martelando nas revistas de negócios e nos programas femininos da tarde que viver no presente é o meio certo de viver. Será que essa ideologia do aqui e agora contaminou a interpretação da maioria dos espectadores? Ou pior, traduziu o filme para um modelo tradicionalista de aceitação do presente?</p>
<p>Não sei, mas vou te dizer, até concordo que é importante viver no presente. Se olhamos para o passado como fuga ao invés de inspiração, corremos o risco de sermos tão retrógrados quanto os entusiastas de &#8220;o mundo de hoje é tão lindo&#8230;&#8221;. Mas, é preciso lembrar, viver no presente é diferente de gostar do presente. Gostar do presente é lutar pela manutenção do que existe e não pela mudança. Por mais que a nostalgia envolva o risco de nos tornar preguiçosos reclamões, é só a insatisfação com o que há hoje que nos impulsiona a mudar o mundo.</p>
<p>Contudo, para mudar o mundo é preciso pensar em como deve ser futuro. Revolta com o mundo sem rumo para a mudança não nos tornará revolucionários, somente terroristas, como o personagem de O Agente Secreto que explode as coisas pois é contra &#8220;o que aí está&#8221;. Nesse momento de escolher o que queremos para o futuro em contraposição ao odioso presente, nada mais natural que nos voltemos ao passado como fonte de inspiração.</p>
<p>O engraçado é que quando buscamos essa inspiração para a mudança e glorificamos o passado, glorificamos em geral os indivíduos marginalizados das épocas de &#8220;ouro&#8221;. Sejam os americanos em Paris dos anos 20, os Beats nos anos 50, os Hippies nos anos 60 ou os Nerds dos anos 80. Não concorda? então, me diz, conhece alguém que tem nostalgia dos Yuppies? Escrevo mais uma frase pra dar tempo para você pensar. Ninguém veio a mente? Nem a mim.</p>
<div id="attachment_663" class="wp-caption aligncenter" style="width: 410px"><a href="http://lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2011/08/American-Psycho-cast.jpg"><img class="size-full wp-image-663" title="American Psycho cast" src="http://lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2011/08/American-Psycho-cast.jpg" alt="" width="400" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Yuppie, nem pra vilão serve direito</p></div>
<p>O fato é que não temos nostalgia do poder. O poder não tem época e não sugere como mudar o mundo, só como mantê-lo como está. Portanto, toda nostalgia está ligada aos losers do passado. É claro que esses losers até podem se tornar os poderosos em algum ponto de sua história, mas quando isso acontece eles se tornam vítimas do seu próprio poder, alvos da nossa vergonha ou indivíduos dignos de pena. Não há revolucionário cuja reputação sobreviva ao poder. Certo, Dilma?</p>
<p>Bom, se sonhamos com os fracassados e os encaramos como os heróis cujo modelo devemos seguir quando pensamos em mudar o mundo, não podemos estar sonhando com a vitória de nossas revoluções, mas apenas com a intenção de fazê-las. Sério! Vê só: o povo ainda curte o Trotsky, mas não liga para Stalin e companhia que mataram tantos para manter o tal &#8220;sonho&#8221; vivo. Você sabe, não há nada mais bonito que lutar por um sonho que não iremos atingir.</p>
<p>Acho que é nesse ponto que o filme ganha a sua força e consegue nos emocionar. Como bom existencialista sob interminável terapia, Woody Allen simplesmente aceitou que o esforço pela mudança e o esmero quase artesanal com a identidade que críamos para nós mesmos são mais importantes do que quaisquer ambições ou destinos magníficos onde &#8220;queremos&#8221; chegar. O remédio para o absurdo da vida e para a falta de sentido, doenças crônicas da existência, é simplesmente a imaginação. E para a alimentar temos à nossa disposição toda uma gama de grandes obras e personalidades. Assim usamos o passado para nos inspirar e tomarmos as rédeas de nossas vidas, buscando sermos o mais felizes que pudermos ser. As nossas vidas se tornam, então, simples trajetos. Sem sentido, linhas de chegada ou mesmo pódiums. Apenas um caminho, sem propósito, sem certezas, mas muito divertido.</p>
<p>Pensando bem, não deveria me preocupar tanto. Frente a tantos filmes cheios de explosões, mortes e frases feitas, que só servem como máquinas de fazer dinheiro, Meia Noite em Paris, seja ele mal entendido pelo público ou não, é um sopro de vida num cinema cada vez menos imaginativo. Esperemos que não seja o último suspiro.</p>
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		<title>A rede antissocial</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Aug 2011 10:01:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lisandro Gaertner</dc:creator>
				<category><![CDATA[Opinião é que nem...]]></category>
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		<category><![CDATA[redes sociais]]></category>

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		<description><![CDATA[Acho que já deu. Eu já conheço os seus gostos musicais, os clipes que você gosta, e até aqueles que te dão vergonha de adorar; você já matou o seu e o meu tempo criando novelinhas com as pessoas que &#8230; <a href="http://lisandrogaertner.net/blog/?p=655">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_656" class="wp-caption aligncenter" style="width: 353px"><a href="http://lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2011/08/2009-01-15-thoreau_zitat.gif"><img class="size-full wp-image-656" title="Thoreau" src="http://lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2011/08/2009-01-15-thoreau_zitat.gif" alt="Anarquismo antisocial é possível?" width="343" height="336" /></a><p class="wp-caption-text">Como o Thoreau, hoje, eu só quero uma casa no campo</p></div>
<p>Acho que já deu. Eu já conheço os seus gostos musicais, os clipes que você gosta, e até aqueles que te dão vergonha de adorar; você já matou o seu e o meu tempo criando novelinhas com as pessoas que aparecem do lado esquerdo do seu Profile no Facebook, fez karaoke colaborativo nas mensagens do seu mural e ambos já caímos nas promoções fakes que rolam nos twitters da vida. Enfim, depois de tanta abertura e amizade 24 por 7, nossa relação esgotou.</p>
<p>E como podia ser diferente? Desde o Orkut, alguém ainda lembra dele?, nós já estávamos enchendo o saco uns dos outros. Primeiro com aqueles testimonais cheios de falsa emoção, e depois participando daquelas comunidades que não levavam a lugar algum, discutindo quem eu &#8220;Como ou Não Como&#8221; ou como (ôpa!) todos odiamos segunda feiras. O básico. Falando o óbvio e fútil sem fronteiras de espaço ou tempo. Coisa de amigos. Afinal, você sabe, a internet é pra isso: unir as pessoas.  Será?<span id="more-655"></span></p>
<p>Até é, mas vou te falar, a Internet me fez descobrir que não quero me unir às pessoas, ou a grande parte delas. Não quero saber de suas vidas, não quero participar de suas histórias, campanhas políticas ou apolíticas, conhecê-las a fundo ou opinar sobre o seu futuro. Quero conviver com elas. No mundo real. De maneira controlada, quando me der na telha, bem de vez em quando. E rede social, acredite, não é convivência. É como viver num sitcom. Daqueles bem ruins.</p>
<p>As redes sociais estão mais próximas da vida do Seinfeld do que da vida (pré-internet) de uma pessoa comum. Toda vez que se manifesta, você não se sente na obrigação de ser engraçado ou pelo menos espirituoso, seja em foto, texto, vídeo ou áudio? Você e seus amigos &#8220;convivem&#8221; num nível de intimidade tão extremo que a primeira pergunta que você se faz é: O que diabos estou fazendo com essas pessoas?  Além disso, você tem, não um, mas centenas de vizinhos como o Kramer? Gente que entra na sua casa, onde a porta se encontra permanentemente aberta, para fazer comentários doidos ou comer da sua geladeira, sem permissão ou pudor? E, o pior, se você fechar a porta, todos viram o clássico episódio, as coisas não melhoram.</p>
<div id="attachment_658" class="wp-caption aligncenter" style="width: 460px"><a href="http://lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2011/08/kramer-seinfeld-entrances.jpg"><img class="size-full wp-image-658" title="Kramer" src="http://lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2011/08/kramer-seinfeld-entrances.jpg" alt="O típico &quot;facebooker&quot;" width="450" height="334" /></a><p class="wp-caption-text">Kramer: cutuco, corrente, solicitação de jogos e marcação de foto em que você não aparece. Só pra começar</p></div>
<p>Eu, você, seu amigo no facebook, seu follower no twitter, e todo mundo que já recebeu um CD da American Online sabemos disso, mas a gente não aprende. Ao invés de fecharmos todas as nossas contas e arcamos com o silêncio digital, continuamos firmes e fortes nesse monólogo coletivo nonsense. Parece que somos forçados pela ansiedade gerada pelo sermo interruptus (papo interrompido) a falar sozinhos, esperar pela resposta alheia e comentar assuntos com os quais nada temos a ver, ansiando pela salvadora palavra do outro que nos livrará da solidão. Cá entre nós? Continuamos tão sozinhos como antes, só que mais barulhentos.</p>
<p>Se não conseguimos nos livrar desse vício cold turkey, de uma só vez, sugiro a criação de uma rede antissocial. Isso mesmo. Uma rede antissocial. Ao invés de adicionar amigos, você já entra nela sendo amigo de todas as pessoas. Seu trabalho, então, é bloquear as pessoas que te desagradam. Assim, bem zen, sem culpa ou constrangimento, buscando o silêncio e solidão necessárias a audição dos nossos próprios pensamentos. Os mais &#8220;bem-sucedidos&#8221; serão aqueles com amigos na casa das dezenas ou das unidades, e os mais discretos e pertinentes terão as melhores chances de permanecer nessas redes de relacionamentos. Ao invés de &#8220;me adiciona&#8221;, ouviremos &#8220;não me bloqueie&#8221;. O engraçado é que os que disserem isso serão os primeiros a serem bloqueados. Na rede antissocial, os carentes serão punidos com o silêncio. E, assim, o mundo voltará ao eixo.</p>
<p>Acha essa proposta elitista? Acertou. Claro que é. O meu afeto não é pra ser dado pra qualquer um, só por que eles me deixam constrangidos com seus pedidos de atenção. Nem pasteurizado em listas de localização ou graduação de amizade. Isso não existe. As relações humanas são orgânicas e não merecem ser divididas por redes sociais ou círculos arbitrários, nem limitadas por número de caracteres.</p>
<p>Mas a quem estou enganando? A rede antissocial nunca vai decolar. A maioria das pessoas precisa das redes sociais, por razões óbvias, e o resto de nós, entusiastas da solidão, somos agregados a elas pelas mesmas razões que vamos a festas de crianças com as quais não convivemos ou aos famigerados encontros de confraternização do trabalho. Por pura obrigação e falta de coragem de dizermos &#8220;Posso ficar sozinho?&#8221;.</p>
<p>Por outro lado, se você realmente é um entusiasta da rede antissocial, tenho uma sugestão: dê um unfollow ou unfriend um amigo por dia. Antes de começar, é óbvio, se livre todos os agregados mais afastados e menos importantes. Depois, elimine uma pessoa importante por dia, mas, para não partir o coração do pobre sujeito, lhe mande uma mensagem de &#8220;adeus&#8221; digital explicando por que a sua presença/contato virtual não é suficiente para suprir suas necessidades sociais e por que lhe agradaria muito mais aumentar o seu convívio com ele no mundo real. Cruel? Claro que não. Eu mesmo gostaria de receber mensagens com essas informações de várias pessoas. Você não tem essa curiosidade também?</p>
<p>Esse método para se livrar das redes &#8220;sociais&#8221; realmente é mais demorado que o modelo Cold Turkey, &#8220;I hate myself and I wanna die(virtualmente) &#8220;, mas, com certeza aumentará o seu vínculo com as pessoas que importam no mundo real. E é isso que importa, não?</p>
<div id="attachment_657" class="wp-caption aligncenter" style="width: 465px"><a href="http://lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2011/08/cobain_big1085432338.jpg"><img class="size-full wp-image-657" title="cobain" src="http://lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2011/08/cobain_big1085432338.jpg" alt="I hate myself and I wanna... You know." width="455" height="292" /></a><p class="wp-caption-text">Kurt, você não entendeu direito o que é esse lance de Orkuticídio</p></div>
<p>Se não concorda, pode ficar a vontade de me dar unfollow. A realidade penhorada agradece.</p>
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