Estou assistindo com bastante surpresa às reações das pessoas a respeito do último Star Wars. Não sei se a minha relação emocional com a série está desgastada ou se ela nunca foi assim tão forte, mas acho que nada no mundo vale esse tipo de fanatismo. Mas quem sou eu pra julgar?

Tenho plena ciência que a manutenção do tecido social depende dessas relações fakes com coisas inventadas mas, apesar de ter tentado, nunca fui um team player. Sempre estive do lado dos solitários. Meu nível de distanciamento do meio social sempre foi tão grande que não tenho time de futebol, não sigo religião organizada, não me identifico com orientação política nenhuma e na época, confesso, não tinha uma Spice Girl preferida (mentira, era a Ginger). Logo, quem sou eu pra julgar?

Seja como for, isso tem me feito rever a minha relação com esses filmes. Quer dizer, tem me feito rever por que diabos alguém pode dizer que tem uma relação com algo inanimado. Lembro que, na faculdade de psicologia, diziam que um dos sinais de adicção (vício) era justamente quando o indivíduo estabelecia uma relação com um comportamento ou coisa como se aquilo fosse uma pessoa. E é isso que estou vendo acontecer agora. Paixões desenfreadas e mágoas irreparáveis a respeito de coisas ou ideias. Amor e ódio por algo que não é real. Mais uma vez, quem sou eu pra julgar?

Talvez, o problema seja comigo. Quando criança vi todos os filmes no cinema, curtia colecionar os bonecos de star wars, brincava de espada de luz e tal, mas não sentia que gostar de Star Wars fosse constitutivo da minha personalidade. Cá entre nós, até gostei muito mais de Krull do que de O Retorno de Jedi. Só pra vocês verem, meu desapego era tão grande que quando o Atari apareceu encontrei dois meninos bestas no meu prédio que trocavam meus bonecos velhos pelos seus cartuchos de Atari, só porque O Retorno de Jedi estava bombando. Foi um bom negócio do qual não me arrependo até hoje. Ou seja, quem sou eu pra julgar?

Com certeza o problema deve ser comigo. Talvez não ame Star Wars como as pessoas normais. Mesmo sofrendo desse defeito, queria poder assistir ao filme sem me sentir pressionado a tomar partido, só por diversão. Mas isso é impossível, pelo jeito. Parece que nos últimos tempos você não pode ser mais um espectador ocasional. Tem que fazer parte de um grupo ou de outro. Você gosta de Marvel ou DC? Acha que The Last Jedi é fiel à série? Prefere Star Trek ou Star Wars? Jesus, isso é realmente importante? Será que nessa situação o maluco sou eu? Como já disse, quem sou eu pra julgar?

Afinal, eu também sou um pecador e amo algumas obras de ficção, sim; mas, por outro lado, o faço de forma platônica, e sem encher o saco de ninguém. Esse ano me apaixonei por Paterson, um filme que ninguém viu e que, olha só, é estrelado pelo Kylo Ren, mas não tentei catequizar a humanidade. Acho que o máximo que fiz foi postar uma foto no Instagram e um tweet a respeito. Assisto a Bar Esperança do Hugo Carvana e a Separações do Domingos de Oliveira pelo menos uma vez por mês, mas não faço apologia do cinema nacional. Amo belas obras de arte, mas prefiro amar e estar com pessoas. Mas quem sou eu pra julgar?

Quem sou eu pra julgar? Eu te digo: sou uma pessoa como as outras. Uma pessoa que vive julgando os outros. Como todos nós. Portanto, a minha sentença é a seguinte: quando uma obra se torna um fator de ódio, por melhor que ela seja, há algo de errado. Seja com ela ou, muito provavelmente, com as pessoas envolvidas nesse conflito. E por mais que o problema seja com as pessoas, a obra que foi o pomo da discórdia, por mais doce que seja, ganha um sabor amargo.

Meu veredito: não vou conseguir assistir a esse filme até essa poeira baixar. Obrigado por estragarem Star Wars pra mim. Ou, vai ver, o problema é comigo  que não sei mais lidar com cinema, TV e outras mídias com a paixão que a participação em redes sociais demande. Talvez seja eu que esteja estragado pra Star Wars. Deve ser isso. Em suma, quem sou eu pra julgar?

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