Life Log

Toda pizza é um fundo de poço. Toda pizza é uma ressaca. Na maioria das vezes ela sobra, e você, no dia seguinte, é obrigado a lidar com as sobras. Alguns preferem come-las frias, como eu e Max Renn, outros tem receitas elaboradas de como melhor aproveita-las. Mas é tudo disfarce. A sobra de pizza é a comida que não deveria existir.

Primeiro porque você não deveria te-la pedido. Em geral foi por impulso, o resultado bizarro da confluência entre um pico de energia no meio da preguiça e uma fome difusa e sem propósito; ou mais raramente foi baseado num plano, o que é pior pois se trata de uma auto sabotagem de caso pensado. Quase uma tentativa de suicídio moral.

Segundo porque a sobra sempre vai estar lá, esperando você. Lembrando que não é hoje que a sua vida vai voltar aos (entrar nos?) eixos. A pizza que sobrou impossibilita que o seu dia seja finalmente saudável, afinal comida é uma coisa que não se joga no lixo. Assim, a sobra da pizza te dá mais um tempo, pelo menos mais um dia, pra repensar se você realmente vai novamente tentar empreender aquela mudança de vida, ou se vai desistir mais uma vez. Não decida logo. É melhor pensar com calma. Enquanto isso, coma uma fatia de pizza.

Mas tem gente que ultrapassou isso. Gente que não vive mais esse conflito. Gente como Max Renn. Gente que molha o resto da pizza no café com leite já pensando em qual pizza vai pedir de noite pra comer de café da manhã do dia seguinte. Gente que descobriu que a vida é manutenção de restos.

É imprecisa a linha que separa não se importar com nada e ser um sábio estoico.

Talvez pelo stress que meu pai tinha com horários, que nos forçava a chegar a compromissos com uma hora de antecedência e a aeroportos com pelo menos 3 horas de vantagem, “só pra garantir”, eu desenvolvi uma capacidade completamente inútil de adivinhar a hora. Dia ou noite, dentro ou fora, em quase qualquer situação, é só me perguntar que horas são que eu respondo com no máximo 7 minutos de diferença.

Na época da faculdade, junto com o meu daltonismo, essa habilidade me tornava um motivo de diversão e de chacota entre os colegas. No meio de uma chopada, sempre tinha um que vinha e perguntava como quem não quer nada:

– Aí, tem relógio aí? Sabe que horas são?
– Não tenho,- respondia na inocência- mas devem ser 2 e 33 da manhã.
– Caramba! – ele tirava o relógio que estava escondido no bolso.- Na mosca. Esse cara é bizarro.

Por conta dessa minha bizarrice nunca gostei de relógios de pulso, porém sempre tive uma estranha fascinação por despertadores. Mesmo sem precisar deles, até hoje, nos celulares, faço longas listas de horários e compromissos com alarmes dos mais variados tipos. Quase sempre, os desabilito antes de precisar.

Para acordar é a mesma coisa. Sempre antes das 6 da manhã estou de pé sem a menor necessidade de alguém vir me chamar e sem depender de horários. Acaba que todos os dias ouço, sem necessidade, a alvorada dos bombeiros chamando os lutadores do fogo para a sua missão diária. Enquanto os imagino perfilados saudando a bandeira e se preparando pra labuta, me pergunto pra que missão a minha mente está me acordando insistentemente no mesmo horário quase todos os dias.

Que horas são? 6 e 31 da manhã.

Ontem quebrei um terrível ciclo.

Desde que terminei de ler a biografia de Jô Soares peguei uma estranha fascinação pelo Ronald Golias. Comecei a procurar os LPs que ele gravou com o Carlos Alberto de Nobrega nos anos 60, assisti a Golias contra o Homem das Bolinhas, procurei pelo que sobrou dos episódios da Família Trapo e inclusive aguentei a ressurreição do programa como Bronco na Bandeirantes. No fim já estava como um mendigo catando guimbas no chão e ouvindo a Escolinha do Golias, onde ele reciclou todas as piadas que contou na vida,  como canção de ninar.

Ontem dei um basta e dormi sem ouvir nada. Sem Nair Bello, Carlos Alberto, Alemanha ou mesmo a Hebe. Não podia mais me dar ao luxo de me narcotizar com piadas de duplo sentido do século passado. Precisava ficar limpo.

Mas eu entendo por que caí nessa. O medo de não dormir, pra quem já teve insônias brabas como eu, é terrível. Quando achamos algo que nos apague como um nocaute do Mike Tyson, rapidamente ficamos viciados. Mas, como toda droga, ela começa a tomar conta da nossa vida e impedir que construamos coisas melhores e diferentes para nós. E Golias era isso: um sopro reconfortante de inocência num tempo louco em que nem humor político o povo sabe mais fazer.

Por isso precisei  me livrar do Golias. Assim, cold turkey. Sem despedidas, sem só mais uma vezinha, sem ouvir nem o lado A de Olympiaaaa (que por acaso é genial). Preciso voltar a ficar chateado, não conseguir dormir, me revoltar com a situação do país, escrever e publicar mais uns números de O Salvadorenho antes que o povo comece a votar. Preciso lidar com a raiva que o país me dá e tentar retornar pra ele alguma reflexão para evitarmos o buraco onde toda essa falta de noção pode nos levar. Pode não parecer muito, mas é o que posso fazer. E não fazer esse mínimo é uma falta de responsabilidade com a qual não posso arcar.

Obrigado, Golias, por todo o descanso que me proporcionou, mas esse piadista aqui precisa voltar a trabalhar.

“ô, Cride, fala pra mãe…”