Diz a lenda que quando um general romano voltava pra capital do império coberto de glórias, durante a parada triunfal realizada em sua homenagem, um escravo ficava ao seu lado sussurrando em seu ouvido: “memento mori… memento mori…“.

Não consigo ver os políticos, pseudo intelectuais e celebridades, bazofiando seu poder e suas vitórias ilusórias na TV, na imprensa e nas redes sociais, sem me sentir como aquele escravo e sem pensar alto: “memento mori… memento mori...”.

Na época do império romano, a função desse escravo era lembrar ao general que, apesar de todas as suas vitórias, ele ainda era mortal e todas as suas conquistas seriam passageiras; e, por isso, não havia motivo para vaidade ou orgulho. Por essa razão eles eram obrigados a ouvir: “memento mori… memento mori…“.

Hoje, infelizmente, isso não funciona mais como naquela época. Não porque deixamos de ser mortais ou porque nossas obras permanecerão para sempre. Muito pelo contrário. Tudo o que criamos é ainda mais transitório e importa cada vez menos para a história da humanidade. Mesmo assim parece que ninguém mais entende quando dizemos: “memento mori… memento mori…“.

Ao contrário do que parece, a princípio essa não é uma questão de falta de entendimento; é uma questão filosófica. Enquanto no império romano, as pessoas seguiam preceitos estoicos ou relacionados ao cristianismo primitivo, hoje vivemos um hedonismo iluminado, em que o pragmatismo e as conquistas da razão são colocadas a serviço do prazer sem fim. Por isso, por mais que sejamos lembrados da nossa mortalidade a todo momento, a interpretação é diferente quando ouvimos: “memento mori… memento mori…“.

Hoje, quando somos lembrados da nossa transitoriedade, só pensamos em aproveitar ao máximo antes que a morte chegue. Pensamos que, se nada é permanente, porque deveríamos deixar algo em pé depois que nos formos? Pra que ser humildes? Pra que respeitar os outros? Vamos esgotar tudo e todos com o nosso poder pela nossa simples satisfação pessoal. Afinal de contas: “memento mori… memento mori…“.

Mas essa é uma interpretação errada. Isso não é memento mori; sequer é carpe diem. Isso está mais para clepto diem: uma busca desenfreada pela satisfação pessoal através do abuso de poder sobre o outro. Isso não é uma lembrança de que somos mortais, mas, ao contrário, é uma negação dessa verdade. Isso é o oposto de “memento mori… memento mori…“.

Isso é roubar sem parar mesmo quando não tem mais onde guardar ou como gastar. Isso é provocar polêmicas vazias só para estimular uma adoração sem propósito. Isso é maltratar pessoas em nome de uma liderança inexistente. Isso é colocar países em conflito para reafirmar uma masculinidade poente. Isso é tratar cônjuges como troféus, filhos como soldados, e vizinhos como gado. Isso é estender a altos custos uma vida sem significado só pelo prazer de exercer um poder que nada cria e só destrói. Isso é o que me faz gritar para esses ouvidos surdos de razão: “MEMENTO MORI! MEMENTO MORI!

Mas sou uma voz pequena; sem força; sem poder. Por isso, como escravo de mim mesmo, e ciente de que vou morrer, preciso encontrar energia para lutar pelo que acho certo e tornar esse mundo um lugar menos pior. Assim, mesmo desesperançoso, suspiro em meus próprios ouvidos, as palavras que todos devemos lembrar:

Memento mori…

Memento mori…

Memento…

Mori.

E sonho que essas palavras cheguem certeiras aos ouvidos que precisam ouvi-las.

Memento Mori.

One Reply to “Memento Mori

  1. Muito boa a reflexão Lisandro. Penso muito na República de Platão onde a sociedade, idealizada por ele, deveria ter como principal objetivo o bem estar da comunidade e não do indivíduo. O nosso individualismo e egoísmo de hoje nos leva diretamente para um desastre social.

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