A mulher chega.

– E aí, tá indo para Mauá?
– Tô – responde o homem.
– Pô, então, posso sentar do seu lado? Conversando a viagem passa mais rápido.

A mulher se senta e começa a falar. Conta que vai encontrar o namorado. Namorado? Não, marido. Ou quase. Conta que trabalha no Banco do Brasil. Gerente? Não, no atendimento. Que mais? Mora na Gávea, tem dois coelhinhos com nome de gente e não come nada há dois dias. Dieta? Não, sem apetite. Por quê? Muita tensão. O homem faz massagem na mão dela. Ela ri.

– Ai que bom. Faz de novo.

O homem tenta dizer que é vegetariano. Ela interrompe.

– Também sou.

Conta que já tirou uma parte do útero, desmaia sem motivos e gosta de comer Tofu. Gosta? Não, adora. Conta da avó doente. Conta dos ex-namorados. Uns brutos. Além de a abandonarem, até batiam nela. Fala do namorado, o novo, o atual. Um doce. Vão se casar.

– Vão morar no Rio ou em Mauá? – o homem pergunta.

Não sabe. Mas se amam. Ele trata ela muito bem. Ele tem uma pousada. Em Maromba? Não, em Maringá. O ônibus para numa rodoviária.

– Tá frio. Vamos tomar um vinho? – ela convida.

O homem aceita. Ela desce para buscar o vinho. O homem desce e fica na frente do ônibus. Tenso. Faltam apenas 2 horas para a viagem acabar e não aconteceu nada. Ela volta com o vinho. Sobem no ônibus. A viagem continua.

– Ué, num trouxe copo?- o homem se espanta.

Eles bebem no gargalo. Correção: ela bebe. Ele? Dá pequenos goles. A voz dela, já alta, aumenta de tom. Os outros passageiros, já atentos a conversa, desde o início, aproveitam para rir. Alto. O homem, impaciente, acha que ela já está bêbada o suficiente e faz o primeiro movimento.

– Não, posso, – ela o afasta- sou casada.
– E daí? Eu também- ele responde.

O celular dela toca. É o namorado. O homem se cala.

– Não, querido, eu não estou bêbada – nega.

O namorado desliga o telefone na cara dela. Ela começa a chorar. O ônibus chega em Mauá. O homem desce sem se despedir. Ela parece não notar e continua chorando. Tenta ligar para o namorado. Não consegue. Fala sozinha. Lamenta. Resmunga.

– Num faz isso comigo, eu te amo! – grita para o telefone mudo.

Chora, geme. O ônibus chega em Maringá. Ela, cambaleando, desce. Some. No ônibus, apenas uma garrafa vazia de vinho para contar a história. Os outros passageiros riem da mulher. Mais uma vez.

No dia seguinte, na volta, quando paramos em Maringá, fiquei esperando ela subir no ônibus. Ela não subiu. Pensei em ficar triste. Ela pode ter apanhado desse também. Ela pode ter sido abandonada mais uma vez. Ela pode ter procurado o homem que conheceu no ônibus. Ela pode, até, ter ficado de bem com o namorado. Possibilidades demais. Deixei para lá. O que fazer? Simples, transformar numa anedota. Não existe maneira melhor de esquecer e passar o problema para outros.

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