O chafariz

Foi assim, sem aviso, que ele voltou. Não que ele tivesse ido para algum lugar, ele sempre esteve lá, mas ele estava morto. Inerte. Seco. Como todos nós.

Assim, naquela noite de terça feira, enquanto as crianças brincavam na pracinha e os adultos tomavam suas cervejas para esquecer seu hoje e seu amanhã, viu-se o primeiro sinal de vida.

Como o grito de um recém nascido, a água explodiu do seu topo com um estrondo. Vigorosa e abundante; limpa e convidativa, como se nunca tivesse parado de jorrar. Em estouros, a água descia da ânfora segura pela estátua no topo do chafariz, avisando “EU VOLTEI”.

Todos pararam o que faziam para observar. Sem timidez a água fluiu, enchendo a parte superior do chafariz e transbordando para a sua base. Os que passavam ao seu lado foram molhados pela violência desse retorno, mas não se importaram. A surpresa desse renascimento valia qualquer incômodo. As crianças e os adultos maravilhados se aproximaram e se banharam em suas gotas ou colocaram as mãos nos jatos de água. Não podiam acreditar que após tantos anos ele tinha voltado a funcionar.

E por que o chafariz voltou a funcionar? Ninguém sabia responder. Havia teorias. Muitas. Os oficiais da prefeitura, possivelmente responsável pelo retorno, sabiam menos ainda que os moradores. Aos poucos a dúvida e a desconfiança com o retorno foram esquecidas e todos simplesmente ficaram agradecidos por ter presenciado esse ato raro que provavelmente demoraria muito a voltar a acontecer.

Mas no dia seguinte, quando os adultos saiam pra levar as crianças para as escolas e correr atrás de trabalho, o chafariz continuava vivo. O fluxo de água diminuira, é verdade, mas não dava impressões de parar tão cedo.

Passamos a checar o chafariz ao sair e a voltar pra casa. Todo dia e toda noite, agradecíamos por ele estar ativo novamente mas tentávamos nos consolar antecipadamente nos dizendo “da próxima vez não vai estar mais funcionando”. E fomos maravilhosamente frustrados todas as vezes que passávamos pela praça e o víamos jovem novamente.

Aos poucos, as teorias do seu retorno se tornaram mais esotéricas. Alguns diziam que era um sinal positivo: a volta da água depois de uma grande seca. Outros viam como uma profecia maldita: o chafariz não aguentou tudo o que estamos passando e chora por nós. Positivo ou negativo, o fato se impôs e simplesmente aceitamos que ele voltou. Mesmo sabendo que iremos sofrer se ele novamente se for, foi bom reencontrá-lo.

Mas, confesso, toda vez que ponho os pés fora de casa, rezo em silêncio para que ele ainda esteja lá. O seu retorno é o NOSSO retorno e Deus sabe o quanto precisamos desse renascer.

Será que hoje a água ainda continua a jorrar? Só nos resta rezar. Só nos resta rezar.

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