No segundo semestre de 2017 estranhamente me peguei lendo biografias, ou melhor, autobiografias de comediantes. A primeira foi uma sobre o caso de amor de Jerry Lewis e Dean Martin. Uma bela história de amizade que reproduz com muita sinceridade e doçura o velho “boy meets boy, boy loses boy, boy gets boy back thanks to Frank Sinatra”. A segunda, um livro de auto-ajuda do José Vasconcelos– sério!- que serve muito bem como a autobiografia que ele nunca escreveu. Entre um capítulo e outro, enquanto explica as leis cósmicas do sucesso e como atingi-lo, Zé Vasconcelos dá um show de humildade contando os problemas que passou na vida e como lidou com eles. A terceira foi a surpreendente e telegráfica autobiografia de Rodney Dangerfield. Contada em pequenos parágrafos, diretos e contundentes, como as piadas em seus shows de stand up, Dangerfield, como os demais, trata os problemas e tristezas que viveu, e a falta de respeito da qual sempre foi vítima, com muita sabedoria e bom humor. A quarta, uma coletânea dos textos e apresentações de Bill Hicks– se nunca ouviu falar dele, pode procurar agora- que se tornou o único registro da sua curta e excepcional vida. E, pra fechar o ano, li o Livro de Jô.

Pra começar, vou te dizer que nunca topei muito o Jô. Assistia ao Viva o Gordo quando pequeno, achava algumas coisas legais, mas não me falava ao coração como a Chiclete com Banana, o Casseta Popular e o Planeta Diário que tínhamos nas bancas. Era um humor velho que não parecia pra minha geração. Quando ele saiu da Globo e foi pro SBT montar seu talk show, após amargar mais um período de personagens anuais e esquetes, não achei nada demais. Enquanto todo mundo babava nas suas entrevistas, eu já sentia que os seus melhores momentos eram justamente aqueles em que não deixava o entrevistado falar e ele próprio se entrevistava. Era um show de ego que não me agradava. Quando, nos anos 90, ele foi alçado informalmente à posição de maior “intelectual” brasileiro, achei que era só mais um sinal da nossa indigência cultural. Em suma, nunca fui um fã.

Mas, confesso, estou ficando velho e indulgente. Graças aos samples do Kindle, tenho me dado a chance de conhecer coisas que facilmente passariam ao largo da minha pequena atenção. Pedi o sample, li e mordi a língua. Fui fisgado pela sua história.

Como a maioria dos outros comediantes que li esse ano, ele não teve uma vida fácil. Houve, claro, momentos de fartura, mas há sempre no ar sinais de azares repentinos, tragédias anunciadas e temores que se tornam reais. Nada diferente da vida de qualquer um de nós. Nada diferente de qualquer comédia. A diferença das biografias normais é como eles lidam com isso. Não há sensação de sentido, mérito, recompensa ou insatisfação. Não há vitórias, derrotas ou missões. Os comediantes apenas olham para a vida como uma sucessão de histórias curiosas, boas ou ruins, mas desprovidas de sentido e razão. Coisas para observar, estranhar, fazer graça e rir.

É nessas horas que me questiono se há um verdadeira diferença entre a tragédia e a comédia.

Enquanto o drama é puro Stanislavski, a comédia é basicamente brechtiana- favor não dar uma de deputado carioca e confundir com Bertoldo Brecha- na medida em que pede do seu ator um distanciamento consciente do personagem e da situação. Ao mesmo tempo a comédia estimula no espectador esse mesmo distanciamento da ação e dos comportamentos exibidos que são apenas um espelho da vida daqueles que os assistem. Enquanto o drama pede envolvimento e emoção, a comédia te permite observação e reflexão. Sobre o mundo, sobre os outros e, principalmente, sobre nós mesmos.

Por isso, acho que o nome do livro não poderia ser mais apropriado. Sei que pode parecer apenas um trocadilho safado, e é, mas comparar Jó e Jô traz uma sugestão interessante. Jó não era apenas um sofredor resignado que nos prova que Deus sempre está certo no fim, se crermos nele e o temermos. Jó era um comediante. Ao contrário de nós, que recebemos a história completa, ele não tinha como saber o seu final, e, mesmo assim, mantinha a sua postura de distanciamento. Não podia ser um simples caso de fé cega. Nós, humanos, somos poços de dúvidas. Com Jó não devia ser diferente. E se terminasse na amargura? E se Deus, no fim das contas, não existisse? E se no fim tudo não passasse apenas de uma piada? Mesmo frente a todas essas dúvidas com as quais convivia, ele conseguiu se afastar das agruras que sofria e, mesmo sendo acusado pelo seu infortúnio pelos próprios amigos, dizia: “Podem parar. Eu sei que não pequei. Agora quanto a razão pela qual estou sendo punido? Não tenho a menor ideia”. Enquanto os seus amigos buscavam uma razão para tudo e agiam com seriedade, ele deixava as coisas acontecerem e nos trazia mais dúvidas do que certezas.

Na vida que Jô conta acontece o mesmo. A mãe perde os dedos e se consola por poder pedir desconto a manicure. O pai perde tudo mas mantém a dignidade, e quando perde um negócio por não se corromper, aliviado, consegue dormir melhor. A ditadura se instaura, e ele dança em cima da mesa da redação do jornal. Seu filho nasce, mas sua felicidade dura apenas 40 minutos, findando com a descoberta  de uma doença genética. Uma série de pequenas tragédias que se tornam comédia pelo distanciamento e pela certeza de que não há certeza de nada.

Então, me digam, não é essa a função de um verdadeiro comediante? Nos fazer rir de nós mesmo frente aos infortúnios que levamos a sério demais? Nos permitir suportar a falta de sentido com a força do riso? Afinal, se a vida não passa de uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, sem sentido algum, por que devemos nos preocupar?

Se eles não se pré ocuparam, acho não devemos nos pré ocupar também. Nós, esse bando de Jós.

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