Um segundo turno no Divã

Agora que o primeiro turno já está no seu final, acho que temos uma boa e triste ideia do que teremos para o segundo. Confesso, que , mesmo depois de tantas idas e vindas, tragédias e comédias, não estou surpreso; apenas frustrado. Não porque tivesse um candidato de minha predileção. Não tinha. Não tenho. Sim, é pública e notória a minha falta de simpatia e empatia pelos dois nomes e frentes ideológicas que vão rachar o país, mas o que me deixa realmente frustrado com toda essa situação é perceber que não vivemos uma crise política, mas uma crise psicológica.

No início do mês, um amigo confidenciou num grupo do What’s App que seu pai, antigo eleitor do Lula, impedido de votar no seu candidato, tinha tomado uma decisão: “Se não tem Lula, vou de Bolsonaro”. Pode parecer esdrúxulo, mas há um belo sentido por trás disso. A escolha feita pelo pai do meu amigo, como a da maioria da população, não é ideológica, política ou econômica. Repito, é psicológica. Mas o que podem ter de tão iguais candidaturas e orientações que parecem tão diferentes? Uma simples coisa: elas vendem a ilusão de um pai.

No final dos anos 90, um dos quadros que fazia mais sucesso no programa do Ratinho era o teste de DNA. Nele, se não lembra ou finge que não conhece, alguém ia pedir um teste de DNA para esclarecer uma paternidade suspeita. Mais importante do que unir a família, era deixar claro quem era o pai da criança. Por isso, na imensa maioria dos casos, depois da revelação, positiva ou negativa, da paternidade, os envolvidos caíam na porrada enquanto a banda do programa cantava “Parabéns pro Papai”. Um cenário bem provável de vermos após o segundo turno.

Quando vejo o embate eleitoral que se avizinha, só fico imaginando, ganhe quem ganhar, uma posse ao som de “Parabéns pro Papai”.

Afinal ambos os candidatos a caminho do segundo turno se apresentam como figuras paternas, ao mesmo tempo perversas e benéficas dependendo do seu ponto de vista. Um se apresenta como uma figura paterna severa que vai botar seus irmãos de castigo e te dar um pirulito por ser um bom filho, quer dizer, cidadão. O outro é o preposto de uma figura paterna quase sobrenatural que promete lhe aninhar no colo e lhe alimentar enquanto o defende dos irmãos maléficos que querem roubar sua mamadeira. O mesmo, não se engane, se aplica, em menor ou maior grau, aos outros candidatos.

Não é preciso ser gênio pra perceber que nenhum dos candidatos consegue se apresentar de uma forma racional. A questão emocional na decisão eleitoral é mais importante que todo o resto. Não precisamos de planos e inteligência; a promessa de segurança psicológica nos é suficiente. E isso não é culpa dos candidatos. Esse parece ser o único tipo de discurso que mobiliza os eleitores. Numa hora dessas vale a pena até questionar se temos maturidade para sermos uma república na medida em que tratamos os líderes políticos como reis eleitos por Deus que vão fazer cair o maná do céu. Já podemos trazer de volta os Orleans e Bragança? Desculpa, tem piada que não se faz.

Voltando a vaca fria, o problema já conhecemos. Agora, como quebrar esse ciclo neurótico? Buscando novos pais ou amadurecendo e nos tornando responsáveis pelo nosso futuro? Novos pais, cá entre nós, não vão funcionar. Desde Getúlio, sabemos disso. O que deveríamos fazer é simplesmente aceitar que somos filhos de uma Mátria solteira ao invés de vermos pais salvadores em qualquer namorado que ela arruma. Funciona. Podes crer. Muitos dos que não encontraram o pai no Ratinho conseguiram amadurecer, com diferentes níveis de dificuldade, mas conseguiram crescer.

E é isso que precisamos. Estamos precisando crescer. Enquanto continuarmos nessa fantasia, seja o resultado que tivermos no segundo turno, perderemos pelo menos mais 4 anos alimentando um sintoma que só serve pra nos infantilizar.

E, por favor, vamos parar de culpar os políticos. A responsabilidade de amadurecer é das crianças. Os pais podem facilitar ou dificultar o processo. E os nossos, na boa, não ajudam nada. Por isso, já passou da hora de assumirmos essa missão.

Mas sempre há a esperança de um milagre: talvez, se formos invadidos e analisados por um exército de psicanalistas de Buenos Aires talvez essa cura venha um pouco mais rápido. Ou talvez até isso seja uma fantasia. Talvez, o nosso caso, nem Freud explica.

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