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4:33

O sinal fechou.

Ele freou o carro em cima da faixa. Por pouco não conseguiu passar. Bufou e checou o celular. Ainda nenhuma mensagem, mas ele sabia que ela ia mandar uma. Ou, pior, ligar. “Cadê você? Você não vem?”. “Sim, sim. Eu vou, eu vou” ele responderia.

Olhou pro relógio. Sete e onze da noite. Pelo que lembrava, e já tinha cronometrado, esse sinal demorava quatro minutos e trinta e três segundos para abrir. Porquê? Não tinha a menor ideia. Só sabia que esse era o sinal mais demorado da cidade. E, o pior, numa rua escura e cheia de árvores. Um perigo.

Por que não arredondar o tempo de espera para baixo ou mesmo para cima? Quatro minutos e meio ou cinco fariam mais sentido. Mas para que as coisas precisam fazer sentido mesmo?

Aproveitando a longa espera, dois meninos surgiram do nada e se posicionaram em frente ao seu carro fazendo malabarismos com bolas. Um terceiro surgiu do lado do carro e bateu no vidro lhe pedindo dinheiro. Ela ligou. Sete e doze. Ele fez sinal para o menino esperar e atendeu:

– Alô.
– Alô, você tá vindo?
– Tô, tô.
– Tá, tá. Só queria saber. O pessoal tá esperando bolo.
– OK. OK. Eu sei.

Desligou. O menino bateu novamente na janela do carro. Ele olhou pra conferir o bolo no banco de trás e percebeu que era o único carro parado no sinal. O show era particular. Fez um sinal para o menino continuar esperando enquanto procurava uns trocados nos bolsos. Os meninos na frente do carro, agora, tinham deixado os malabares de lado, e faziam acrobacias pulando uns sobre os outros e por dentro de bambolês.

Ele achou uma nota amassada no bolso, abaixou o vidro, e a entregou ao menino que foi em direção aos amigos sorrindo excessivamente satisfeito. Ele desconfiou. Tentou mesmo à distância ver de quanto era a nota que tinha entregue. Tinha se enganado, tinha dado dinheiro demais.

Colocou a cabeça pra fora e acenou para o menino voltar. Os três acenaram de volta agradecendo. Estavam sendo sonsos? Ele acenou mais vigorosamente e um dos meninos veio em sua direção enquanto os outros dois buscavam uma garrafa de querosene e tochas.

– Menino, acho que te dei dinheiro demais.
– Deu não, tio. Brigadão.
– Você não entendeu, menino. EU DEI dinheiro demais. Deixa eu trocar essa nota com você.

O celular tocou. Era ela. De novo. Sete e treze. Ele fez sinal pro menino esperar e atendeu:

– O que é?
– Tô só ligando pra te lembrar das velas.
– Não esqueci. Eu sei. Tá comigo.
– Tá, eu só queria dizer…
– Eu sei. Eu sei.

Desligou o telefone e enfiou a mão no bolso, de onde tirou umas moedas, e as entregou ao menino.

– Aqui, ó. Agora me dá a nota.
– Dou, não, tio. Não é justo. Isso é muito pouco.
– É justo, sim. O dinheiro é meu.
– Não é mais. Você me deu.

Enquanto eles discutiam, os meninos na frente do carro, talvez empolgados pela gorjeta polpuda, se preparavam para fazer um show de cuspir fogo. O celular deu um toque. Ela mandara uma mensagem de texto. Sete e quatorze. “Amor, não fica chateado. Só falo pelo nosso bem”. Ele se irritou:

– Aqui, ó, menino, não quero mais discutir. Me dá a nota e fica com essas moedas.
– Quero, não. Eu te devolvo,se você me der pelo menos metade da nota.
– Tá doido? Você não vê que eu tô com pressa?
– O sinal demora, tio. Pode procurar.

Os meninos começaram a cuspir labaredas um em direção ao outro e queimavam as pontas das folhas das árvores da rua que desciam sobre o asfalto como vagalumes. Ele procurou nos bolsos, abriu a carteira e nada. Não tinha nenhuma nota pra oferecer pro menino.

– Achou, tio?
– Não achei, não…
– Então, tio, nada feito.

O menino sorriu e, debochado, fez uma mesura de agradecimento. Isso não caiu bem. Ele fez menção de gritar pela janela do carro, mas se assustou com as línguas de fogo que saíam das bocas dos meninos. O menino com a nota agora a exibia aos amigos vitorioso, dançando entre eles enquanto cuspiam fogo como dragões. O telefone tocou. Era ela de novo. Sete e quinze. Faltava pouco pro sinal abrir. Ele atendeu:

– Que diabo! O que você quer agora?
– Amor, você tá chateado comigo? Você sabe que eu te amo…

Na frente do carro os três meninos dançavam como menestréis medievais cuspindo fogo e exibindo o dinheiro que tinham ganho.

– Amor, tá tudo bem? Por que você não me responde? Você comprou o bolo de sorvete que a gente combinou?

Ele chegou ao seu limite. Revoltado, atirou o celular pela janela em direção ao menino que dançava com o dinheiro. O menino, com presteza, se abaixou e o celular foi direto no queixo do outro menino que cuspia uma labareda para o céu. O fogo, como uma fênix, fez uma curva atingindo a copa das árvores e retornando para a cabeça do menino que começou a arder como uma das velas do bolo que ela esperava receber.

À distância, paralisado, ele ouviu o telefone tocar insistentemente, enquanto galhos em chamas caíam sobre o carro, derretendo o bolo de sorvete, e os meninos tentavam acudir o companheiro que pegava fogo. Não atendeu.

O sinal abriu.

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