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Revertere ad locum tuum

A pandemia tá me forçando a acompanhar quase umas 8 horas diárias de programação infantil. Entre uma reunião e um webinar, entre um relatório e uma apresentação, esbarro com os detetives do prédio azul, com o Mr. Bean, com os Animaniacs, e com o Scooby Doo. Hoje na hora do almoço fui obrigado a assistir a Playlist Gloob.

Pra quem nunca viu, e nem recomendo, o programa recém lançado é uma hora de MTV para crianças. Toca as músicas dos seriados, os pop quase proibidão das ex-starlets infantis, e uma boa dose de K-Pop. O engraçado é que até as músicas me lembram a dance music chiclete, estilo Stock Aitken Waterman, que tocava no início da MTV Brasil.

É como se a MTV, após a sua morte, tivesse se transformado numa novidade para crianças e ao mesmo tempo numa experiência nostálgica para a meia idade. Muita coisa segue o mesmo caminho. Quem não viveu a mídia morta acha que está desbravando um novo mundo que não foi devidamente aproveitado; quem viveu a usa para simular uma memória de identidade que não existe mais. Como dizem, toda geração acha que é ao mesmo tempo a primeira e a última a caminhar pela terra. Nesse movimento de eterno renascimento e retorno, nada termina de fato; só passa por um período de repouso antes de uma nova resignificação.

Pena que escolheu a hora do meu almoço para esse momento Fênix. Eu, cá entre nós, preferia estar assistindo à minha MTV. Hipocrisia? Um pouco, mas não conta pra ninguém.

Domingos Redux

Todo mundo sabe, é público e notório, está escrito na minha cara que: sou um bruta fã do trabalho do Domingos de Oliveira. Tanto que quando a Globo anunciou que ia lançar a minissérie inspirada no seu trabalho e que foi sua última contribuição, confesso que animei. Mesmo.

Lançaram, não vi ao lançamento ao vivo, pois, desde Lost, não sou mais dessas coisas; mas dada uma semana busquei o primeiro capítulo, assisti e saí com um sonoro: “Meh“.

Não que seja ruim; não é. É legal…zinho, mas o pior é se apropriar das obras de Domingos numa colcha de retalhos que o transforma num sátiro pedante e engraçadinho. Como li no twitter, e concordo, parece até uma glorificação e, ao mesmo tempo, paródia do esquerdomacho.

Se você conhece a obra de Domingos, não tem nada disso. É sobre amor e existência. Quando se tentou colocar todos os seus filmes numa fila acabou transformando o protagonista num canalha serial com estofo intelectual.

Domingos merecia mais.

A CoVid e a crise do Estado Moderno

Não consigo parar de pensar que o bafafá entre a abertura da economia e o distanciamento social para nos proteger da pandemia é um conflito entre duas diferentes concepções vindas da reforma dos modernos estados nacionais.

O modelo de governo que temos atualmente e as idelogias que governam a nossa dita vida comunal se devem muito a duas revoluções do século XVIII que aconteceram bem próximas: a americana e a francesa. Apesar de estarem relacionados conceitualmente e inclusive terem pontos de convergência, seus lemas explicitam uma grande diferença nas expectativas de comportamento dos cidadãos. Enquanto a revolução francesa pregava a liberdade, igualdade e fraternidade, a americana garantia como foco principal o direito à busca da felicidade.

Num momento de crise, como agora, esses dois conceitos, que até podem co-existir em condições normais, deixam claras as suas diferenças. Enquanto o francês reforça o benefício do grupo e a isonomia entre os cidadãos, o americano pode ser encarado como uma permissão para a ação com foco nas necessidades e anseios dos indivíduos.

Hoje estava discutindo com um amigo sobre a questão e caí na real que não há uma resposta rápida e fácil para esse conflito.  O que ficou da nossa conversa é que até dá pra conviver com essa dualidade, mas em determinadas circunstâncias a balança pode, e deve, pender para um lado ou para o outro. A busca da felicidade é mais adequada a momentos de pujança e a fraternidade cai bem nas crises. Porém, se olharmos com atenção, boa parte dos problemas que sofremos hoje são devidos aos excessos cometidos pela busca da felicidade: hiperconsumismo, aquecimento global, desigualdade, crise energética. Inclusive, se a gente tivesse desde os anos 90 trabalhado na parte da igualdade e da fraternidade, essa quarentena ia passar de boa.

Talvez a dificuldade das pessoas esteja em encarar a questão circunstancial como uma afronta ao que acreditam ser a sua identidade. É a velha teoria de encarar a política como time de futebol. Eu sou pró fraternidade versus Eu sou pró busca da felicidade. Ceder a visões diferentes da sua por conta de necessidades não significa que você esteja indo contra seus valores nem que a mudança prum lado ou pro outro irá permanecer indefinidamente. O medo de contrariar sua opinião é considerar que é melhor errar sozinho pelos motivos “corretos” do que acertar junto com base em ideias alheias; enfim, uma bruta besteira.

Pra piorar eu ainda poderia lembrar que a sua identidade é uma ficção construída a milhares de mãos e, quanto às teorias conspiratórias de como o ficará quando tudo terminar, como dizia o Dr. Manhattan, nada termina.

Mas isso é outra história.

 

A arte de ser arte

Escutei o disco novo da Fiona Apple e senti o mesmo que senti quando assisti ao primeiro episódio de New York Stories, dirigido por Scorcese.

No curta metragem Life Lessons, Nick Nolte interpreta um pintor em crise criativa obcecado pela sua assistente e ex-namorada. A sua relação com a obra que não consegue terminar não é só angustiante, como é carnal e vital. Uma luta de vida e morte que pode não ter um final feliz.

As cenas dele pintando são o que realmente mais me impactou. O esforço de se jogar contra o nada, seja a tela vazia, o papel em branco ou o opressivo silêncio, é o que diferencia a atividade da arte de qualquer outra coisa produtiva. Fazer arte é confrontar a falta de objetivo e, ao mesmo tempo, as infinitas possibilidades do universo que nos permitem extrair um cavalo de uma pedra ou uma lágrima de um som.

Todos os méritos para as outras atividades humanas e seus empreendimentos, mas a arte é especial, pois é um exercício fútil e sem expectativas de recompensas contra o tudo e o nada que nos oprimem.Talvez seja aí onde o comércio e a indústria tem o seu corte frente à arte. A demanda da arte é interna e contínua, porém não se pretende produtiva.  Não precisamos escrever um livro por ano para fazer arte, ou lançar uma música por semana. Isso é comércio e indústria. A arte é o que surge de ser o que você é, mesmo que leve 8 anos, como o novo álbum da Fiona, ou nunca saia como dos hipsters angelicais de “O Uivo” de Ginsberg.

Arte não é sobre fazer, é sobre ser. Nada e tudo.

“It’s art. You give it up, you were never an artist in the first place.”Lionel em Life Lessons

E você nunca desiste, você continua tentando, faça algo ou nada, mesmo que nunca tenha nada pra mostrar.

Não eleja ditadores

O problema dos ditadores é que eles não tem planos de governo, estéticas, crenças ou ambições políticas. Os ditadores só querem estar no poder. Como crianças mimadas que se ressentem do poder paterno que os excluía do amor da mãe, esses neuróticos em potencial acabaram se tornando esquizoparanoides. Por se acharem mais importantes que o restante da humanidade, se acham perseguidos por todos. Assim, só se sentirão seguros se estiverem ao lado do seio bom, evitando a todo o momento que o seio mau venha lhes negar o leite ao qual acreditam ter direito e, cá entre nós, não tem.

Esses ditadores não aprenderam a lidar com a frustração e, dessa forma, corrompem suas memórias para sempre estarem certos. Ao contrário da Ana Maria Braga, eles não aprenderam que é mais legal ser feliz do que estar certo. E para eles não basta que eles acreditem em suas fantasias. Eles querem nos convencer com slogans, palavras de ordem, fake news e outras formas de administração de mentiras.

Num sistema democrático capitalista os ditadores surgem do mundo das celebridades. Se aproveitando do excesso de libido autodirigida eles arrebanham os de baixa auto-estima e os tornam em exércitos de fãs, admiradores, eleitores ou fiéis. Por isso os governos, os templos, os serviços de streaming de música e os reality shows estão coalhados de pequenos e grandes ditadores, que não importando o tamanho são igualmente fatais.

Assim, não eleja ditadores. Não os eleja como presidentes, campeões de Big Brother, artistas do momento ou, na sua vida particular, como amigos ou amantes. Esqueça os ditadores. Quando eles estiverem gritando e agitando as suas massas de manobra contra tudo que é bom e belo, não ligue, se cale e não lhes dê atenção.

O segredo que aparentemente esquecemos é que o nosso silêncio é fatal para eles.

Shhhh….

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