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A falácia do streaming

Nada é mais decepcionante que um armário cheio de coisas que você não quer. E é isso o que o streaming é: um armário cheio de nada.

“Mas agora você tem acesso a todo um mundo de…”

Pode parar. Não tem. Você acesso a mais coisas que as pessoas querem te mostrar. Você não tem mais acesso às coisas que você quer. Sério. Desculpem o desabafo, mas toda insônia é a mesma coisa. Vou lá no justwatch pra buscar alguma coisa pra assistir e tudo o que EU quero não está disponível.

Não tem Hal Hartley, Terry Zwigoff, Alan Rudolph, Ken Russel. Tem pouco do Cronenberg e em especial o que eu não quero assistir. Não tem filmes B dos anos 50 e 80. Tem até uns filmes independentes dos anos 90, mas só os mais conhecidos e mais chatos. Filmes marginais dos anos 60 e 70, esquece. Filme Noir dos 30 e cinema alemão dos anos 20? Tá brincando? E não tem Wonder Boys pra quando preciso de iluminação espiritual.

Mas, você vai dizer, tem novelas coreanas, animes atuais, as últimas séries. Por que você não tenta algo diferente? Lamento, tem dias em que eu simplesmente sei o que quero e tudo o que o Streaming me oferece é o que  ele, via algoritmo, acha que eu deveria ver.

Aí, quando já está amanhecendo, frustrado, sou obrigado a decidir pelo que tem aí.

Na época das locadoras, quando o mercado era realmente pulverizado, a coisa era diferente.

Eu era sócio de locadoras da Tijuca ao Leblon. Muitas vezes por conta de um só filme. Na Tijuca eu ia buscar The Records of Loddoss War. Numa locadora na rua Uruguaiana, no 14o. andar de um prédio comercial, tinha uma bela coleção de filmes trash brasileiros, incluindo Fuscão Preto, estrelado pela Xuxa. Na galeria Asteca do Catete, eu encontrava coleções de clipes como uma do Duran Duran com Girls on Film que tinha sido proibido de passar na TV.  Cinema de arte e independente era nas locadoras do Estação e numa birosquinha na galeria ao lado do cinema Paissandú. Pra saciar a minha sede de filmes Trash, precisava ir a uma locadora da Barão da Torre. Enfim, tinha tudo, pois a curadoria era descentralizada e guiada pelos gostos dos proprietários.

Ser sócio e frequentar uma locadora era estabelecer uma relação com outros seres humanos que criavam empatia contigo através do acervo que eles escolhiam. Não havia a experiência centrada no usuário que nos reduz a atributos comportamentais a serem ativados para a repetição de hábitos de consumo. Havia comércio e conversa.

Isso o streaming nunca vai te dar. Mais uma insônia perdida.

Fumando espero

Uma das coisas que tem me passado pela cabeça é que, pós CoVid, como rolou pós Influenza e pós 1a. Guerra, a gente possivelmente possa passar por um período de pujança intelectual e orgia dos sentidos. Tudo para esconder o estresse pós traumático dessa experiência e da ansiedade que dificilmente nos largará. Uma década, cheia de arte e exageros, até seu derradeiro fim. Quase ninguém concorda comigo. Agora, leio que fumantes apresentam menos casos de CoVid. Era o que faltava para termos os novos Roaring Twenties: a volta do tabaco. Como cantava Billie Holiday: “Smoking, drinking, never thinking of tomorrow…nonchalant”.

A mão invisível de Darwin

Acho que chegou num ponto em que a gente tem que se perguntar se a economia merece realmente esse lugar de destaque em nossas vidas.

Do final do século XVIII pra cá, com a construção das repúblicas democráticas modernas e de algumas tiranias autojustificadas, a economia e a política, reduzida a um processo para definir modos, meios e regulações (ou não) de produção, viraram a coisa mais importante da vida. Coisas de gente séria. Vitais. Podia ser diferente.

Por exemplo, a discussão suscitada pelo Corona entre “a bolsa ou a vida” podia ser filosófica, espiritual, artística, mas, não, é sobre a sobrevivência do indivíduo versus a sobrevivência do sistema econômico. O engraçado é que muitos dizem que as mortes individuais justificam a sobrevivência de um sistema que, santa falta de imaginação, Batman!, as pessoas não conseguem nem pensar que possa ser diferente. Errado. Podia ser diferente.

Me acompanha aqui: os serviços fundamentais estão funcionando bem, isso mantém as pessoas em casa, reduzindo a carga nos hospitais, o problema é que uma parcela gigante da população não tem dinheiro ou crédito para comprar coisas que, se não forem consumidas, vão acabar no lixo de qualquer maneira. E por que eles não tem dinheiro? São pródigos, perdulários, preguiçosos? Não. Pelo contrário. Só não tiveram a sorte de nascer ricos ou não foram privilegiados por uma meritocracia de cartas marcadas. Ou seja, o problema não é a necessidade do trabalho, afinal vimos que dava pra todo mundo viver com bem menos fazendo bem menos, o problema é manter a máquina girando pois os que não tem são reféns daqueles que tem. Eu estou maluco ou as pessoas precisam trabalhar não pro seu benefício próprio mas pra um sistema que já privilegia uma determinada elite que não trabalha? Caramba. Podia ser diferente.

Já estava ficando revoltado com essa questão, quando vi esse vídeo e o troço piorou:

Pensei em botar na conta da ignorância da prefeita, mas percebi que ela era movida, não por lógica, mas por uma crença. A crença na infalibilidade da economia liberal. A economia, ou melhor, a teoria econômica liberal se travestiu numa ciência natural. Fingindo ser a seleção e a evolução das espécies, a economia liberal se considera uma força incontrolável e inegável. A mão invisível do mercado, como um destino cruel Antigo Testamento Style, está aqui para decidir os que vão morrer de fome, de CoVid e de outras causas em nome de uma meritocracia plutocrática. Podia ser diferente.

A gente podia aproveitar essa oportunidade para instituir a renda mínima universal, taxar as grandes fortunas para reduzir a desigualdade, acabar com a fantasia de que seus genes são geniais ou de que caixão tem gaveta e parar com essa fascinação com propriedade privada. Putz, aí é socialismo, você vai dizer. Isso não é natural do ser humano. Sério? E o que é natural? O feudalismo, a escravidão, o capitalismo? Mas os países socialistas.. pois é, não dá pra aprender com o que rolou? Se prender ao passado dessa é forma é como se, por mágoa com as cruzadas e com a inquisição, ninguém mais quisesse casar na Igreja ou comemorar o Natal. Óbvio que não quero advogar comunismos, socialismos, leninismos, stalinismos e afins. Eu só quero dizer uma coisa: Podia ser diferente.

O que a gente devia estar se perguntando agora, retirando todos os ismos do papo, é: como?

Sequelas

Agora que o anormal se tornou normal, me pergunto o que faremos quando as coisas, supostamente, voltarem ao normal. Quer dizer, o antigo normal.

Sem resposta, eu lembro do meu pai. Ex-combatente, voltou da 2a. Guerra, como muitos previam, maluco, ou, em inglês shell shocked. Maluco de guerra, pero no mucho. As doideiras, tirando a fixação com a 2a. Guerra, se manifestavam esporádica, pontual mas intensamente.

Era só ele entrar em um barco qualquer, incluindo a barca Rio-Niterói, que ele ficava paralisado. Olhar fixo, suando frio e tremendo. Vi isso acontecer só duas vezes, mas foi o suficiente para me traumatizar e me transmitir fenotipicamente a mesma fobia.

Mas não era um medo irracional. Era um medo explicado e psicanalisado. Era só ele saltar do barco pra justificar:

-Fui pra Itália no porão de um cargueiro que achávamos que ia ser torpedeado. Não foi, chegamos ilesos, mas sofri cada minuto daquela viagem.

Por sorte, ele voltou da Guerra de avião, com uma parada em Casablanca, onde adquiriu o seu vício em Coca-Cola que é um capítulo à parte.

Quando penso em como será a volta à dita vida normal lembro do meu pai e das sequelas que trouxe da Guerra. Quais sequelas traremos dessa guerra contra o CoVid-19?

Usaremos máscaras voluntariamente para tornar nossos rostos em fetiches? Preferiremos encontrar nossos amigos em curtas videconferências resumindo nossas interações em conversas desconexas e sem sentido em grupos de 20? Escolheremos comer em casa por questões de economia e para evitar a cada vez mais assustadora presença de outros humanos? Educaremos nossos filhos no lar e usaremos as escolas como espaços de interação social? Enfim, o mais importante, continuaremos a ensaboar latas de cerveja?

Do the Right Thing

Tem umas semanas que Do the Right Thing estava se insinuando em minha vida. Entre um jornal catastrófico e uma maratona de reprises de séries do Gloob (sim eu ainda assisto TV síncrona), eu pegava um pedaço dele. Ou quase. Sempre assistia uns dois minutos e desistia; seja porque estava no meio, no final ou porque não ia conseguir assisti-lo inteiro, graças a necessidade de deixar uma criança de 6 anos entretida depois de um longo dia de home office. E, em cada uma dessas vezes, eu prometia: tá aí um filme que eu preciso rever.

Ontem calhou, e eu assisti. Depois de um longo dia de home office que começou às 4 da matina, eu consegui rever essa obra prima. Pra variar, foi como ver um filme novo.

Eu lembrava de muitas coisas, mas não tinha atentado pra como a estrutura do filme é delicada. Em volta da história principal, onde temos poucos personagens envolvidos de fato, todos os pequenos acontecimentos que levam a escalada da tensão racial em Bed Stuy são vividos como sketches guiados por coros. O coro dos porto riquenhos, o coro dos coreanos, o coro dos afro-americanos de meia idade, o coro dos jovens afro-americanos, o coro dos policiais, e, o maior coro de todos, Mister Señor Love Daddy.

Esses coros, com pequenas diferenças entre seus participantes, mas com claros conflitos uns com os outros, vivem seus pequenos dramas para depois agirem como uma manada no apoteótico final do filme.

Os personagens principais e seus dramas humanos acabam escondidos como jóias raras nesse caldeirão de conflito racial. Ao mesmo tempo preciosos, frente à explosão final de violência parecem menores mas essenciais.  Quase não atentamos, por exemplo, para as singelas tentativas de romance entre o Da Mayor e Mother Sister, e Sal e Jade, que pontuam as poucas tentativas de união frente à tragedia anunciada. O pessoal, ao mesmo tempo que se apequena frente ao drama social, é o que dá sentido a tudo que não conseguimos entender.

O filme terminou e fiquei com aquela bela sensação de redescobrir algo e ainda me surpreender. Uma das melhores sensações que se pode ter na vida.

Como estou fazendo desde o começo do ano, fui registrar o que tenho assistido e descobri que o score do filme no IMDB não chega a 8. Com tanta coisa ganhando 9 e tanto nesses filmes de Super Herói e séries da suposta nova “era de ouro” da TV, a gente precisava fazer A Coisa Certa e dar mais valor ao que realmente importa no Audiovisual.

“Fight the Power!”

Em Tempo

Na boa, onde vemos algo tão poderoso hoje em dia? Ainda me lembro do choque de ver isso no cinema pela primeira vez.

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