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Saudades

Vou te falar. Nesses tempos de isolamento social não estou com tanta saudade de pessoas, mas de lugares. Com as pessoas tenho falado, mesmo virtualmente. Como nunca fui dado a abraços ou outros tipos de contato físico, estou conseguindo levar. Estou com a família, sinto saudades da minha mãe, mas, dos demais, acho que dá pra aguentar. Porém, de lugares, eu sinto falta. Sou virginiano com ascendente em Libra. Racional e desequilibrado. Deu pra sacar?

Talvez eu seja da escola do Lacan, que considerava que os espaços físico são psíquicos. Por isso sinto saudades da pessoa que eu SOU nesses lugares.

Sinto saudades do Cervantes e da minha adolescência prolongada. Sinto saudades do Arataca e das minhas fugas da idade adulta. Sinto saudades do Salvatore Café e da célula artística e terrorista do amor da São Salvador.

Sinto falta da Baratos da Ribeiro, do Le Bon Sebon (que não existe mais), da pizza do Café Opera, da casquinha de siri do Caneco 2, do caldo verde do Machadão,  dos livros do Woody Allen na Entrelivros, da livraria e videolocadora da Estação e  de tantos lugares que deixamos ser consumidos pelo mundo virtual.

Sinto saudades do barzinho, da feira e da pracinha da São Salvador. Sinto falta de Belo Horizonte, Nova York e Buenos Aires. Global e Local.

Sinto falta de ser reconhecido e me perguntarem: “o de sempre?”.

Na verdade, até de lugares sinto pouca falta. Sinto saudades de ser.

Pois lugares não faltam. O que faltam são as pessoas que fazem os lugares. Inclusive nós.

Onde nós estamos?

Picard, out

Terminou. Não foi o que eu esperava; não trouxe a redenção prometida; não quis, mas poderia, ser uma Tempestade de Shakespeare ou Marlowe Takes On the Syndicate do Chandler, mas foi bom.

Dentro das pressões econômicas das franquias para sobreviver, Picard conseguiu trazer coisas novas, mesmo sendo bem irregular. A minha impressão é que não deixaram Michael Chabon contar a história que ele queria. Dessa forma, a última aventura noir do último homem sensato da galáxia ficou misturada a uma trama mezzo política, mezzo militar de baixo interesse. Pelo menos pra mim.

Talvez a culpa de não ter curtido seja minha. Parcialmente. No meio de Picard tive o prazer de retomar contato com amigos queridos que sempre curtiram Star Trek e por sua culpa, quer dizer, indicação, acabei revendo alguns episódios da Nova Geração e da série Clássica, o que com certeza mexeu nas minhas expectativas.

Inner Light, Yesterday’s Enterprise, The City on The Edge of Forever, Amok Time e afins são aves rarae que remotam a origem da série clássica: um framework utópico onde diversos escritores de ficção científica, como Harlan Ellison, Theodore Sturgeon e Robert Bloch, encaixavam suas histórias conceituais. A nova geração seguiu o mesmo modelo, algo que as séries de hoje não tem a mesma liberdade de fazer.

Hoje em dia, graças a Sopranos e sua era de ouro da TV, temos estruturas dramáticas de arcos longos que dificultam a criação dessas pequenas pérolas. Mad Men, Sopranos e Breaking Bad conseguiram, em alguns momentos, mas, usando o jargão dos videogames, eram side quests. O modelo antigo, muito mais ligado ao conto, onde o world building surge das histórias individuais e não do inverso, está sendo substituído pelo romance. E como dizem, no romance há muito espaço pra erros, se a estrutura for sólida; no conto só se pode almejar à perfeição.

Picard se perdeu nesse meio. Não almejou a perfeição em seus episódios individuais e, mesmo assim, não apresentou um arco longo claro e forte. Num screenwriter’s cut, se é que existe isso, poderíamos manter só a questão do pagamento da dívida moral de Picard com Data e ter uma série bem mais interessante.

Mas não gosto de reclamar das obras alheias. Foi bom rever muitos personagens antigos, acho que a nova tripulação é bem interessante e, óbvio, acompanharei as próximas temporadas com interesse. Ficou um gosto de poderia ser melhor, que não sentimos ao rever aqueles episódios clássicos, mas, confesso, como o Data, sou humano, e rolou “una furtiva lacrima” no final de Picard.

Down the hatch

Depois de quase duas semanas de quarentena, tenho percebido como a gente consegue se acostumar a muita coisa. A aparente anormalidade se torna rotina e revela mais sobre a gente do que sobre o mundo em que vivemos.

Os horários de dormir e acordar; as mentiras, boas ou ruins, que contamos pra nós mesmos; os hábitos, os costumes, as esquisitices que todos sempre reclamaram se tornam óbvias e irritantes. As necessidades repentinas; os tons, as pausas, as expressões idiomáticas que só nós utilizamos; as coisas, que nunca estiveram perdidas, encontradas nas contínuas rearrumações que nos tornam arqueólogos de nós mesmo.

Nesse momento, com limites de espaço e sobra de tempo, nos redescobrimos e voltamos a ser nós mesmos. Sobrevivendo, e tentando manter viva a nossa ilusão de identidade. Nesse momento onde é impossível discernir quem somos do que fazemos, é que nos libertamos da nossa escotilha.

Tenho percebido isso, e lembrado de Lost. É. De Lost.

Nas duas primeiras temporadas, o tema era o isolamento e a redescoberta da identidade em uma situação extrema. Não por acaso o início da segunda temporada se dá com a libertação de Desmond, que estava preso, do outro lado da escotilha, em quarentena, condenado a um home office sem sentido, onde precisava digitar continuamente uma misteriosa sequência de números.

Parece algo que vivemos?

Tenho lembrado disso e percebido que, apesar de toda a decepção com seu final, eu gostava; não, eu gosto de Lost.

Depois de quase duas semanas de quarentena, descobri que precisamos de mais simplicidade e honestidade a respeito de nós mesmos e que, com toda a certeza, a vida é muito curta pra ficar com raiva eterna de Lost.

Só espero que na próxima temporada, depois de abrirmos a escotilha, a gente descubra que os Outros somos Nós.

Relendo Sandman

Quarentena tem dessas coisas. Resolvi reler todo Sandman.

Na época que saiu, eu lia bastante quadrinhos em inglês, mas só comecei a acompanhar Sandman quando foi publicado pela editora Globo. Comecei a ler apesar da prevenção que tinha contra Neil Gaiman. Orquídea Negra, lembram, me entediou profundamente.

Da invasão inglesa, achava Gaiman o mais chato. Pat Mills, Jaime Delano, Alan Moore e, óbvio, Grant Morrison falavam mais ao meu lado de angry young man. Eram as histórias de revolta, crítica social, gore ou psicodelia pura que me atraíam. Os temas delicados, o estilo lento e a narrativa, por que não, clássica de Gaiman não faziam a minha cabeça. Vocês tem que me perdoar, eu tinha 15 anos.

Com o passar do tempo, e, por causa de algumas histórias em especial, comecei a lhe dar mais valor, apesar de, até hoje, achar que é um romancista fraco.

Vou comentar alguns números específicos ou arcos completos em próximos posts. Vamos ver se os anos farão diferença na minha opinião.

Tempo

Fugimos do tempo de várias formas. Ou melhor, tentamos fugir de várias formas. Tentamos dormir, ou nos embriagamos para tal, esperando ele passar. Nos ocupamos com tarefas triviais ou rezamos, torcendo que o que fazemos com ele nos leve até onde queremos ir. E, às vezes, contrariando toda a lógica, corremos dele, fisicamente, como se pudéssemos escapar de quem sempre nos acompanha.

Mas não funciona.

O tempo sempre está lá, até talvez porque não esteja. Talvez a expectativa do antes e a memória do depois sejam ilusões proporcionadas por transformações físicas num cenário que só existe no agora.

Carregamos nossas memórias, expectativas e sensações como um lembrete, uma esperança, uma prova de que estivemos, estaremos e estamos aqui. Mas talvez não estejamos.

Talvez sejamos apenas um detalhe desse cenário aparentemente mutante que pode seguir caminhos inesperados e contraditórios. Para o tempo existir ele deveria fazer algo que não faz: sentido.

Por isso, enquanto espero que o cenário seja outro, sem saber se ele de fato chegará lá ou se realmente estou aqui, finjo assistir a mudança das estações num vídeo que simplesmente repete a oração que todos fazemos agora: tudo vai passar.

JUTLAND II | Breath of the Seasons from Jonas Høholt on Vimeo.

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