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É tudo free

Admirável a contribuição que diversas companhias estão dando a população durante a quarentena do Corona. Aplicativos e serviços gratuitos pelo tempo que durar o isolamento social. Me pergunto o quanto isso não é mezzo caridade, mezzo processo de condicionamento. Sairemos desse exílio acostumados a trabalhar virtualmente com as ferramentas que nos foram entregues “gratuitamente”? Acostumados ou doutrinados? Não é errado se aproveitar das circunstâncias para ganhar clientes. A lógica, sim, sempre foi vender lenços enquanto os outros choram. O que preocupa é substituirmos o princípio pelo costume. O que importa não são as ferramentas, mas sim o porquê usá-las. Sabemos esse porquê? Em tempo Distanciamento social deve ser um dos piores eufemismos de todos os tempos.

A vilania vulcana

Picard vem comprovando a tendência que começou em The Undiscovered Country de colocar os Vulcanos como os grandes ideólogos e manipuladores da Federação. O mundo lógico e ético que se prometia nos anos 60, através de Spock, o meio humano, meio vulcano bastardo, se tornou uma ditadura secreta do pragmatismo e do objetivismo.

Spock, como cria de dois mundos, era um utilitarista, democrata, a lá John Stuart Mills. Os Vulcanos frios, porém aparentemente bem intencionados, talvez sempre tenham sido os objetivistas, seguidores de Ayn Rand, que vemos claramente agora nas novas séries.

No fim, é apenas um reflexo das eras. Nos anos 60 queríamos um mundo ético e lógico, meio hippie, mas funcional. Hoje sofremos na mão de uma proto lógica inescapável que se justifica por esse pastiche de meritocracia tecnológica e eficiente, mas não eficaz. Claramente estamos no limiar entre a tecnocracia e o tecnopólio.

Mas pra falar a verdade, o que realmente me incomoda nisso tudo é que Star Trek deixou de olhar para frente para focar no agora.

Talvez essa seja a diferença entre as distopias e as utopias. Nas utopias somos hipermetropes e olhamos para o distante em detrimento do que há agora e dos custos para se chegar ao futuro. Nas distopias somos míopes, impossibilitados de ver o que está a um palmo, focamos nos detalhes na frente do nosso nariz.

O conflito entre Prometeu e Epimeteu continua, agora com vantagem pra Epimeteu.

Perdidos no Espaço Familiar

Nessa entressafra de séries, ainda na ressaca do fim de The Good Place, acabei retomando a segunda temporada de Lost in Space. Na época da primeira, um amigo, fã hardcore de FC, reclamou a beça do modelo familiar torto que os Robinsons tinham adquirido nesse remake. O engraçado é que foi exatamente isso que me atraiu na série. As falhas dos pais, rigidez emocional paterna e manipulação materna, eram os espelhos dos exemplos negativos que Will Robinson ia buscar: o robô frio mas protetor e a mãe enganadora mas carinhosa representada pela nova dra. Smith. Tudo e todos rodavam em torno da resolução das carências de Will. Exatamente como na série anterior, somente mais explícito e psicanalisado.

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