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Meditação Interrompida

Respire fundo e limpe sua mente de todos pensamentos negativos

Caramba, hoje fez um ano que o Jota morreu. Porra, parece que foi ontem. Pra dizer a verdade, parece que foi ontem que eu o conheci. Nunca vou esquecer, subindo a ladeira que levava pro colégio, a professora de estudo dirigido passou pela gente, e ele me cutucou dizendo maliciosamente: “Não imagina o que eu faria com essa mulher num quarto escuro”.

O pior é que eu nem imaginava mesmo. Eu tinha 6 anos, porra. Agora, eu tenho certeza que ele imaginava. Mas não tenho certeza O QUE ele imaginava. Mas coisa boa não era. Pra dizer a verdade, devia ser até coisa boa mas não para uma criança de seis anos. Fazer o quê? Ele sempre foi precoce. Até pra morrer. Meu Deus, que feio pensar isso, cala-te boca.

Se a sua mente vagar, a traga para perto de si.

Como era o nome dessa professora mesmo? Valéria, Vanessa… acho que tinha algo com V. Ou era Maria. O Jota é que tinha uma piadinha. Um lance tipo Maria Vagina. Maria Virgínia. Deixa pra lá. Nunca vou lembrar.

Pra dizer a verdade, só lembro de sair pro recreio e ela esperar a gente na entrada do pátio com aquela mesa cheia de copos de toddy geladinhos. “Toma Toddy, querido”, ela convidava sensualmente.

Os nossos pensamentos apenas passam por nós. Eles não são quem somos.

Quanto tempo faz que eu não bebo um toddy. Será que era bom mesmo ou é só uma memória afetiva da infância? Acho que o contexto ajudava. A tal Maria Vagina toda carinhosa, calça jeans atochada no corpo, com aquele copinho de leite achocolatado gelado na mão; a gente todo feliz, sem preocupações, correndo pra se divertir no recreio… meu Deus. Tem sensação melhor?

Será que eu pensava nisso mesmo? Com seis anos? Aí é hipersexualização demais. Vai ver era culpa da Xuxa na televisão. Aqueles shorts e aquelas danças Era impossível a gente não ficar maluco.

Deixe seus desejos e medos de lado. Liberte-se. Liberte sua mente.

Jota, Xuxa, Maria Vagina. Por que diabos a gente não consegue se libertar dessas ideias obsessivas que fazem tanto mal pra gente? Por que a gente vive tão angustiado com o futuro e com o passado? A gente vai morrer mesmo, que nem o Jota morreu. Para que se angustiar? O passado já foi. O futuro vem de qualquer jeito. Pra dizer a verdade, o que a gente consegue controlar da vida, mesmo?

Acho que nada. Queria ser criança de novo. Sem preocupações, sem medos, apenas com a certeza que a tia Ana Lúcia estaria me esperando com um toddy geladinho antes do recreio. Isso! Esse era o nome dela tia Ana Lúcia. Ufa, lembrei. Pra dizer a verdade já estava ficando angustiado de não lembrar.

Deixem os ressentimentos com o passado e as angústias com o futuro de lado. Viva apenas o agora. Respire fundo e viva o presente.

Caramba, Ana Lúcia. Ela morreu também. E quando a gente estava no colégio. Foi câncer, eu acho. Coitada. Ficou carequinha. A gente chegava lá no refeitório e lá estava ela comendo granola com leite, quietinha, quase sem forças. Que tristeza.

O pior é que eu comi granola hoje no café. Será que estou com câncer? Ai, que horror pensar nisso. Cala te boca. Cala te boca. Pobre Ana Lúcia, pobre Jota, pobre de mim.

Palavras certas, pensamentos certos, ações certas. Esse é o caminho da meditação.

Será que se eu colocar toddy na granola ficaria bom? O Jota uma vez falou disso, não? Sei lá. Pra dizer a verdade, não lembro mais de nada. Amanhã eu tento. Deve ficar bom. Vai ficar bom, não? Sei lá, sei lá.

Publicado emArtigos

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