Notas

Do fim da história ao fim da humanidade

Não faz muito tempo, ou faz, vai saber?, o povo estava angustiado com o fim da história. A Segunda Guerra e as ameaças fascistas e nazistas à democracia eram passado; a Guerra Fria e o risco de guerra nuclear iminente tinham sido esquecidas; e parecia que o mundo estava a poucos passos de se tornar uma comunidade global. Tinham inventado até um lance chamado Internet que ia facilitar a comunicação entre todas as pessoas do mundo. Na época, as séries de TV, tipo a Quantum Leap, estavam inclusive olhando para dentro invés de para os problemas geopolíticos mundiais. Afinal, num mundo estável, a gente podia se dar o luxo de se preocupar com as nossas pequenas idiossincrasias.

Hoje, 30 anos depois, parece que tudo virou do avesso. O nazismo e o fascismo voltam em nova roupagem; o mundo inteiro arde em guerras bélicas e comerciais; e todas os acordos e blocos internacionais se quebram nos tornando cada vez mais fragmentados. E até a internet, que tinha o propósito de nos ajudar a viver em harmonia, se tornou o epicentro do caos, quase uma verdadeira torre de Babel. Atualmente, não é surpresa que a série de TV (ainda existe isso?) de maior sucesso é uma fantasia nostálgica sobre pessoas sendo tragadas para um mundo invertido. Afinal, tudo o que queremos é voltar ao passado e fugir desse mundo que não faz mais o menor sentido.

Agora, nesse eterno e inescapável agora, o que nos angustia não é mais o fim da história, nem o fim da humanidade, mas, sim, a sua continuidade. Talvez por isso o final de Bugonia tenha parecido ao mesmo tempo tão confortante e tão assustador. Talvez por isso o sentimento de que não merecemos mais a história, mas, sim, o esquecimento seja tão mais fácil de aceitar.

Stranger Things Hentai Edition

Não era surpresa que com tantos tentáculos Stranger Things um dia chegaria na fronteira de se tornar um Hentai. Se não tem fanfic a respeito deveriam começar a escrever.

Os benefícios de se arriscar

Parte do problema, pode crer, é do público. Somos mimados. Queremos que as coisas aconteçam como esperamos e, hoje em dia, quando avaliamos se gostamos ou não de algo, inevitavelmente complementamos com opiniões bestas sobre como tudo deveria ter sido. Porém, esquecemos o quanto o se deixar levar, a aceitação da ficção como realidade e a surpresa livre de análise racional marcam nossas memórias e nos fazem dar mais valor ao viver.

Por isso fico bem feliz de estar vendo filmes quebrando as nossas expectativas e nos (ou me) deixando com aquele gosto apurado de “what the fuck!”. Foi assim em O Agente Secreto, Bugonia e Morra, Amor.

Óbvio que tem gente reclamando de tudo. Sempre tem. Reclamam que os filmes não atendem a esse ou aquele padrão, que falta estrutura, ou que deixam pontas soltas. Sim, deixam; sim, falta; sim, não atendem. E daí? Quem disse que o cinema tem regras? Ah, sei, vários, mas o Syd Field foi um dos que começou com essa onda.

O pior é que o pessoal tá levando essa predisposição de achar que tudo precisa sair conforme suas expectativas, que tudo faça algum sentido ou que atenda a alguma regra escrita por sabe-se lá quem também para a vida real. Não, não atende; não, não faz; não, não sai.

Por isso estou começando a achar que não são os filmes que estão mudando, mas eu que estou mais livre para aceitar o que vier. Das telas, ou da vida. É frustrante? Sim, às vezes, mas, creia, essa pode ser uma maneira bem mais interessante de se viver.

Por uma vida mais offline

Recentemente, na minha eterna tentativa de preservar meus espaços mentais e tomar controle do meu tempo, comprei um aparelho de mp3 e um dumb phone. O objetivo é poder ter acesso a mídia e algum contato com o mundo exterior (controlado e apenas com as pessoas que realmente me interessam) sem precisar ser constantemente inundado pelos interesses e demandas daqueles que não me dizem ao coração.

É claro que não dá pra fazer isso 24/7. Os pressupostos da Oceania nos forçam a prestar continência a múltiplos grandes irmãos, reais e inventados, para poder sobreviver. Porém, eu posso ter algum espaço, e tempo, principalmente tempo, em que eu saia da vista das teletelas e pense no que diabos acontece na minha vida.

Ou, melhor, posso seguir o conselho de Marina Abramovic, no seu curso do BBC Maestro, e parar de pensar, deixando-me perceber e entender ao que está ao meu redor. A distração não é negativa pois nos impede de pensar, mas pois nos força a mudar continuamente o foco do nosso pensamento. Então, como resistência, que tal simplesmente não pensar?

É, taí, um bom epiteto para as férias.

A 2ª (r)evolução norte americana

Nos últimos tempos, estou com a impressão que muitos filmes (tá, 2, que eu tenha visto, mas esse artigo da Polygon faz coro comigo) estão evocando a necessidade de uma nova revolução nos Estados Unidos. Tanto em Uma Batalha após a Outra, como em The Running Man, o povo insurge de forma bem sucedida (pelo menos, inicial e parcialmente) contra os poderes que aí estão. Engraçado é que ambas as obras são adaptações de livros (dos anos 80 e 90) onde, sim, temos contextos similares (Reagan/Bush, então, Trump e Putin(?), agora) de retorno de um conservadorismo e de construção de uma rede de proteção a uma elite retrógrada em detrimento de um processo de igualdade social.

Mas isso não é novidade na história americana, muito menos no cinema. Nos anos 60/70, também tivemos representações dessa guerra de classes nos Estados Unidos, nesse caso, oriunda da luta pelos direitos civis. Porém o final desses filmes, como visto em Bonnie & Clyde, Easy Rider, e Butch Cassidy e Sundance Kid, era geralmente trágico e niilista. Será que hoje temos mais esperança numa ação política do que nos tempos do Nixon?

Até parece que há um processo permanente de insatisfação cultural e política nos Estados Unidos que acaba culminando nesse tipo de filme. A pergunta que fica é: a arte tem o poder de insuflar a população a tomar o poder ou serve apenas como um alívio psíquico para mantermos a submissão tal como está. Por enquanto, pela evidência histórica, a primeira opção parece mais plausível, mas vai quê, mas vai quê.

O Fim da Inveja de Truman

Fomos avisados, mas olhamos para as profecias do nosso cinema cassândrico com inveja e desejamos nos tornar os objetos da atenção constante alheia. E, como previsto por Truman, adoecemos.

Agora que queremos escapar dos sets coletivos em que somos figurantes nos achando protagonistas, temos medo demais de enfrentar o mar cenográfico e nossa percepção embotada não nos permite encontrar a porta que nos levará para fora desse mundo virtual, em que tudo parece falso, inclusive nós mesmos.

A quem e quando poderemos finalmente dar, caso não nos vejamos mais, nosso bom dia, boa tarde e boa noite?

Biscoito da Fortuna?

Tenho uma história complicada com os tais biscoitos da sorte. A relação é um misto tão bizarro de amor e ódio que até escrevi um livro a respeito.

Antes que venham botar na conta das minhas múltiplas neuroses, aviso, não é exagero da minha parte. Já abri biscoitos com papéis em branco; embalagens estufadas, mas sem biscoito; mensagens pouco inspiradoras (e.g. “Você nunca será rico… mas nada lhe faltará”); e até, como rolou hoje novamente, biscoitos sem nada dentro.

O drama é tão comovente e conhecido no comércio local que, hoje, o dono da loja de produtos japoneses, compadecido, acabou me dando um biscoito de graça.

O segundo biscoito veio com uma sorte meio meh!, mas certeira.

Sorte ou não, não dá pra desprezar certas verdades por mais clichê que sejam.

Corações e Mentes

Uma vez, no meio de um pacote de livros, me enviaram, de surpresa, dois squishy toys insólitos: um coração e um cérebro. A princípio não fiz nada com eles, mas, com o passar dos anos, eles acabaram assumindo funções bem específicas. O cérebro está no meu trabalho, em perfeito estado, ao lado do Gênio dos Smurfs, para não me deixar esquecer que é preciso, sim, usar a cabeça, mas sem querer ser esperto demais; já o coração, ah, coitado!, ficou solto pela minha casa, sem função definida, até que os gatos o acharam. Depois disso, ele some e reaparece, quando menos se espera, num estado cada vez pior.

Sempre que esbarro de surpresa com ele pelo chão, coberto de mordidas e pelos de gato, me pergunto se, enquanto meu cérebro tá lá preservadinho no trabalho, eu não estaria olhando para um vodu do meu próprio coração, mais estropiado a cada dia. Normalmente, o pensamento me passa direto pela cabeça e não volta. Porém, hoje, depois de reaparecer sem aviso, quase irreconhecível na boca da minha gata, resolvi guardá-lo num lugar seguro para protegê-lo das unhas e mandíbulas dos gatos e das ansiedades geradas pelas minhas superstições.

Óbvio que tudo isso não passa de uma manifestação dos meus medos da morte, e da patente discrepância de atenção que dou ao meu conhecimento e às minhas emoções, mas vai quê? Não custa nada usar o cérebro para proteger o coração.

Já ouviu a última do povo?

Ah, o povo… do povo, sobre o povo, para o povo, sob o povo. Há povos para todos os gostos e desgostos. O problema do povo, que é sempre um problema, é, ao mesmo tempo, existir e não existir. É impossível olhar para o tudo e nomear tudo o que lhe constitui. Não constitui. É uma amálgama de percepções e experiência que torna qualquer tentativa de diálogo, ou, sendo mais sincero, convencimento impraticável.

Talvez, por isso, o povo tenha tantos especialistas bem intencionados, que não fazem, nem querem fazer parte do povo. Afinal, como é possível o observador ser o objeto? Só de começar a se questionar sobre si mesmo, ele deixaria de ser parte do que estuda, o que nos impõe a impossibilidade de uma auto análise salvadora, que, alegadamente, só foi realizada por Freud, sob o pretexto de que não havia ninguém mais para analisá-lo.

Assim, o povo, essa entidade mezzo imaginária, mezzo real, é sempre colocado sob o microscópio para analisarmos a sua crise permanente e tentar encontrar maneiras de resolver seus problemas, o que o tornariam algo que não é o povo, pelo menos como o conhecemos. Porém, por mais acuradas e inteligentes que essas percepções sejam, elas nunca ajudam o povo a deixar de ser povo, pois se há um problema típico do povo é ser povo. Então, por que iríamos querer curá-lo se, por pior que sejam as suas condições de vida, é importante que haja um povo, para que nós não sejamos parte dele, povo, e, assim, possamos estudá-lo?

Entre Dois Mundos traz esse conflito com muita delicadeza, até que se derruba sobre nós como uma avalanche de culpa e realidade. Juliette Binoche interpreta com uma exatidão relaxada a intelectual bem intencionada que, como uma espiã, faz parte, mas só por um tempo, do povo, para entender o povo e tentar ajudá-lo. A sua maior crise é começar a gostar do povo e do seu avatar, por ela escolhido, interpretado com crua sinceridade por Hélène Lambert. Como não é um filme moralista, sindicalista americano dos anos 30, não há final feliz e o conflito, emanente da falta de diálogo entre o intelectual que acha que entende e quer ajudar o povo e o indivíduo, que a intelectualidade considera representar o povo, e, assim, não teria individualidade, óbvio, não se resolve.

Mas há sequer uma chance de resolução? Eu não sei, mas me lembrei muito de Tio Vania, do Tchekhov, onde o povo da fazenda sustenta o intelectual que tem direito a pensar enquanto eles são condenados a uma vida de trabalho e desespero que só poderá ser redimida com a morte e a existência de um paraíso em que eles mesmos não acreditam mais. Entre Dois Mundos é como um Tio Vania construído a partir do ponto de vista do Professor, em que a redenção vem através da loteria, com a qual o intelectual, surpresa!, não sonha. Não admira que o Anti-intelectualismo seja a força motriz de boa parte das políticas, todas um pouco fascistas e notadamente populistas, opa!, em sua essência. O intelectual desmerece os sonhos do povo ao torná-lo o foco elitista da sua capacidade e intenção analítica.

Talvez estamos olhando para a questão errada e a pergunta que devemos fazer para iniciar esse diálogo é: qual o paraíso que o povo espera alcançar e qual o paraíso que os intelectuais almejam para ele? Enquanto não pudermos sonhar com um caminho não único, mas comum, em que esse aspecto da redenção possa finalmente ser alinhado, não há a menor possibilidade de um diálogo de igual para igual.

O que a IA pode ser e o que eu não quero ser

O problema, ou benefício, da idade é ter passado por várias ondas e perceber o quanto as ondas são ondas, mas o mar permanece o mesmo. O ser humano tende a olhar tudo como espelho, mas ao invés de se refletir nas coisas, tende a reproduzir as qualidades que espera dos objetos nele próprio. É um pouco a questão de olhar pro abismo, ele olhar de volta e você se tornar o abismo.

Quando criamos a alavanca, tudo era passível (ou desejável) de ser movido por alavancas. E, assim, nos tornamos alavancas. Lembro quando o Cibercultura,do Pierre Lévy, foi o arauto da Utopia “internética” mas passou ao largo da Distopia onde nos afundamos hoje. Acho que estamos vivendo um pouco disso com a IA. Há uma pressa em reproduzir o comportamento da ferramenta (sumarizar, responder, coletar, adaptar, imitar) assim como fizemos no início da internet (expondo, conectando, absorvendo e compartilhando). Talvez o que a gente precise é justamente o contrário: ter paciência. Deixar a IA fazer os trabalhos chatos que nos sobrecarregam e repensar qual é o nosso papel no mundo.

Na verdade, a única coisa que a IA deveria fazer, para cumprir a profecia do Keynes, é assumir os bullshit jobs que ninguém deveria fazer desde o início e nos deixar descansar. Mas o engraçado é que todo mundo parece querer entregar o filé mignon pra ela. Ou, pior, queremos competir com a máquina para fazer os trabalhos que ninguém queria fazer e trabalhar 24 horas por dia vivendo a constante síndrome de people pleasing.

Na boa, isso não é pra mim. Não quero o trabalho da IA, não quero imitar, reproduzir, organizar, ou sumarizar as coisas; o que eu quero é divagar bem devagar. Enfim, sou um fiel seguidor do conselho da Tina Fey em Only Murders in The Building:

Me perdoem o ostensivo elogio à preguiça, devem ser as férias falando. 😉