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O aniversário da Zelda

Quanto tempo. Quanto tempo. Quando foi a última vez que a gente viu? Sei lá, no ano passado? É, no ano passado. Onde nos vimos mesmo? Por aqui, quer dizer, aqui mesmo. É, foi aqui nesse mesmo lugar. E também era aniversário da Zelda! Pois, é. Um ano depois estamos aqui de novo. Vivos. Vivos, graças a Deus! De novo, quem diria? Pois, é, quem diria?

E você, o que conta? Nada, nada. Passou bem pela pandemia? Sim, sim. Pegou Covid? Peguei e você? Também, também. Como foi? A minha foi tranquila, e a sua? Mais ou menos, não internei mas fiquei com 50% do pulmão ferrado. Jesus, e agora? Agora está tudo bem. Graças a Deus. Graças a Deus.

Não tá bebendo, não? Não. Porquê? Fez promessa? Pior que fiz. Sério? Sério, quando peguei covid junto com a família, prometi que não ia beber durante 6 meses. E como foi? A covid? Tranquila. Não, ficar sem beber. Ah, tranquilo também, mas às vezes é meio chato. Entendo. Pelo menos descobri que não sou alcoólatra. Um brinde a isso. Pode ser com água tônica? Pode, pode. Um brinde. Um brinde.

Você tá morando onde mesmo? No mesmo lugar. Ah, é? Achei que você tinha mudado. Não, não mudei, mas queria. Eu também. Mudou? Não, também queria mudar. Ah, tá, mas tá morando onde agora? No mesmo lugar. Ah, tá. Bom saber. Bom saber.

E aquelas histórias? Pois, é. Que loucura. Pois, é. Você tinha que escrever um livro sobre a gente. É mesmo. Tem tanta história. É, um montão. Quando você vai escrever? O quê? A história da gente, da rua, do prédio? Ah, sim, em breve, em breve. Mas quais histórias acha que tinham que entrar nesse livro? Ah, tem várias. A do sinalizador, a da amante do Jorge Aragão, a da corrida de gente pelada por conta do Jogo de Master, a da namorada do cara que vomitou na pia artesanal, a da guerra de vinagre, a da vez que vários de nós pegamos chato no mesmo dia… Tem várias. É, tem várias. Você pegou chato? Eu não, e você? Também, não. Quem pegou mesmo? Não lembro. Nem eu. Não lembro. Mas foi hilário. Isso, é. Foi mesmo.

E o trabalho? Do mesmo jeito. E você? Estou para ficar desempregado. Que merda. E ainda tem essa inflação. Quem diria que ia voltar? Quem diria? Mas também…. O que tem? Não vamos falar de política. Tá, hoje,não. Hoje, não, mas ano que vem… Ano que vem, sim. Hoje, não.

Cara, que bom te ver. Bom te ver. Vamos ver se a gente marca algo. É, não dá pra gente ficar se vendo só uma vez no ano. Tem razão, tem razão. Você tem meu telefone? Tenho. Então, me liga pra gente marcar uma cerveja. Quando eu voltar a beber… Isso, quando voc? voltar a beber. Vê se não some, hein? Você também, não some, hein? Vê se não some. Não vou sumir. Nem eu, nem eu.

Parafraseando Zelda Fitzgerald, parafraseada por Pet Shop Boys, vivemos entediados, pois somos chatos. E derivativos. Mas basicamente chatos, porém amigos. Fazer o quê? Não sei, não sei.

Publicado emMicroconto

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