{"id":10138,"date":"2025-06-29T10:41:02","date_gmt":"2025-06-29T13:41:02","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=10138"},"modified":"2025-06-29T10:41:02","modified_gmt":"2025-06-29T13:41:02","slug":"oei30-as-ilusivas-tendencias-no-processo-de-inovacao-das-identidades-no-mercado-editorial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/oei30-as-ilusivas-tendencias-no-processo-de-inovacao-das-identidades-no-mercado-editorial\/","title":{"rendered":"[oei#30] As ilusivas tend\u00eancias no processo de inova\u00e7\u00e3o das identidades no mercado editorial"},"content":{"rendered":"<p>Toda vez que ou\u00e7o algu\u00e9m falar em inova\u00e7\u00e3o, eu lembro de 2001. N\u00e3o do filme, do ano. O mundo vivia na antessala de uma utopia. A Internet ainda trazia mais promessas do que amea\u00e7as; t\u00ednhamos passado inc\u00f3lumes pelo primeiro quase apocalipse digital, o Bug do Mil\u00eanio; e a agenda pol\u00edtica mundial era de inclus\u00e3o e equalidade, acordos comerciais equilibrados, sustentabilidade ambiental e social, e paz. Era quase uma revolu\u00e7\u00e3o francesa futurista em que os cidad\u00e3os conquistaram Liberdade, Igualdade e Fraternidade se desarmando ao inv\u00e9s de se armarem.<\/p>\n<p>Enquanto isso, na Barata Ribeiro, entre a Siqueira Campos e a Hil\u00e1rio de Gouveia, eu participava tamb\u00e9m de uma pequena revolu\u00e7\u00e3o. Junto com uma galera jovem e esperta inauguramos a Baratos da Ribeiro, a segunda loja do grupo Livreiros Associados. Diferente dos demais sebos, a Livreiros Associados tinha o seu acervo, dividido entre a Baratos, a Gracilianos do Ramo, e o dep\u00f3sito, totalmente digitalizado e atualizado, gra\u00e7as a um zip drive que circulava na abertura e fechamento das lojas na m\u00e3o de um menino numa bicicleta. Al\u00e9m disso, a Baratos ganhava os jornais e as ainda nascentes redes pelo seu jeit\u00e3o de sebo megastore, e seu estilo despojado e jocoso, enquanto se firmava como um ponto de encontro da m\u00fasica e da literatura alternativas.<\/p>\n<div id=\"attachment_436\" style=\"width: 454px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-436\" class=\"wp-image-436 size-full\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/baratos_3_blog.jpg\" alt=\"\" width=\"444\" height=\"324\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/baratos_3_blog.jpg 444w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/baratos_3_blog-300x218.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 444px) 100vw, 444px\" \/><p id=\"caption-attachment-436\" class=\"wp-caption-text\">Livros em revolu\u00e7\u00e3o permanente<\/p><\/div>\n<p>Essa identidade que, para o lado de fora parecia harmoniosa, era objeto de muitos conflitos. Esse trip\u00e9 de experi\u00eancia de compra, tecnologia, e hub cultural tinha interfaces e interse\u00e7\u00f5es nem sempre pac\u00edficas, o que fazia os s\u00f3cios discutirem intensamente sobre o que diabos era a Baratos da Ribeiro. Inclusive, nos coment\u00e1rios de <a href=\"https:\/\/www.digestivocultural.com\/colunistas\/coluna.asp?codigo=211&amp;titulo=Fetiches_de_segunda_mao\">um texto sobre a loja escrito por Rafael Lima para o Digestivo Cultural<\/a>, o s\u00f3cio majorit\u00e1rio da empreitada, o saudoso Marcelo Lachter, confessou a sua incapacidade de entender que neg\u00f3cio era aquele que gerenci\u00e1vamos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-10139\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/FireShot-Capture-622-Fetiches-de-segunda-mao-Rafael-Lima-Digestivo-Cultural_-www.digestivocultural.com_.png\" alt=\"\" width=\"379\" height=\"90\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/FireShot-Capture-622-Fetiches-de-segunda-mao-Rafael-Lima-Digestivo-Cultural_-www.digestivocultural.com_.png 379w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/FireShot-Capture-622-Fetiches-de-segunda-mao-Rafael-Lima-Digestivo-Cultural_-www.digestivocultural.com_-300x71.png 300w\" sizes=\"(max-width: 379px) 100vw, 379px\" \/><\/p>\n<p>Hoje, eu sei. \u00c9ramos apenas inovadores demais para n\u00f3s mesmos, mas pelo menos est\u00e1vamos nos perguntando &#8220;quem queremos ser?&#8221;.<\/p>\n<p>Engra\u00e7ado que no mesmo quarteir\u00e3o havia uma loja que fazia o movimento exatamente oposto. Ningu\u00e9m sabia qual foi o neg\u00f3cio inicial de onde ela surgiu, mas, quando chegamos, ela era uma LAN house, papelaria e videolocadora. A impress\u00e3o \u00e9 que, na \u00e2nsia de parecer original e diferente, a cada nova tend\u00eancia que surgia, ela buscava encaixar o que estava na moda no seu rol de servi\u00e7os e produtos. Naquele mesmo ano, por exemplo, passaram a vender um sandu\u00edche, bem gostoso por sinal, de lombo canadense que o dono da loja afirmava:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o sandu\u00edche mais inovador do Rio! Duvido j\u00e1 ter comido algo igual por a\u00ed.<\/p>\n<p>E era verdade. N\u00e3o havia sandu\u00edche igual em lugar algum, mas isso n\u00e3o o tornava nada inovador.<\/p>\n<p>Por isso, toda vez que ou\u00e7o algu\u00e9m falar em inova\u00e7\u00e3o eu lembro de 2001, da Baratos da Ribeiro e da Papelaria\/LAN House\/Videolocadora\/Sanduicheria. E lembro que inova\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um atributo de produtos, servi\u00e7os, ou de pessoas, mas da ressignifica\u00e7\u00e3o consciente das rela\u00e7\u00f5es que se estabelecem entre as identidades dos neg\u00f3cios e dos seus clientes.<\/p>\n<p>As inova\u00e7\u00f5es da Baratos, por menos espetaculares que possam parecer hoje, tiveram impacto significativo justamente por falarem a um p\u00fablico novo e\/ou jovem, bem parecido com a equipe da livraria, que precisava de um espa\u00e7o despojado, organizado, e fervilhante para interagir entre si e com uma s\u00e9rie de manifesta\u00e7\u00f5es culturais. Criamos uma alternativa engajada e bem informada que se contrapunha aos sebos antigos e \u00e0s megastores que dominavam os shoppings. A identidade do neg\u00f3cio era maximizada e permitia ao mesmo tempo que os clientes exercessem as suas num ambiente seguro que espelhava seus valores e cren\u00e7as. O que chamavam de inova\u00e7\u00e3o, muitas j\u00e1 testadas em outros ambientes, mas n\u00e3o juntas, era exatamente o que diferenciava a loja de tudo mais o que havia por a\u00ed.<\/p>\n<p>J\u00e1 as \u201cinova\u00e7\u00f5es\u201d da outra loja do quarteir\u00e3o n\u00e3o emplacaram pois n\u00e3o falavam a ningu\u00e9m. Tentavam responder a tend\u00eancias ou apostas de diferencia\u00e7\u00e3o, sem olhar para quem fazia a loja e quem consumia na loja. Assim, em pouco tempo, a loja sucumbiu por defici\u00eancia, n\u00e3o de inova\u00e7\u00e3o, mas de identidade.<\/p>\n<p>A <a href=\"https:\/\/www.baratosdaribeiro.com.br\/\">Baratos<\/a>, por outro lado, saiu de Copacabana, perdeu, assim, o da Ribeiro, deixou de lado o acervo digital, e se posicionou definitivamente como um espa\u00e7o de movimenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e cultural, evoluindo a sua identidade num constante di\u00e1logo com seu contexto, com as mudan\u00e7as da sociedade, e com a transforma\u00e7\u00e3o do seu p\u00fablico.<\/p>\n<div style=\"width: 597px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.baratosdaribeiro.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Fachada.jpeg\" alt=\"\" width=\"587\" height=\"587\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Inova\u00e7\u00e3o \u00e9 identidade e longevidade<\/p><\/div>\n<p>Enfim, toda vez que ou\u00e7o algu\u00e9m falar em inova\u00e7\u00e3o eu lembro que saber quem voc\u00ea \u00e9, ou, como disse sabiamente Marcelo Lachter, estar pronto a testar novas identidades e rela\u00e7\u00f5es com o respeito devido ao seu p\u00fablico e \u00e0 sua equipe, \u00e9 o que vai lhe tornar verdadeiramente inovador. As tend\u00eancias vem e v\u00e3o, as tecnologias brilham e se apagam, sandu\u00edches de lombo canadense entram e saem de moda, mas o desejo de ser cada vez mais um novo voc\u00ea \u00e9 o que vai manter o seu cora\u00e7\u00e3o sempre inovador.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Toda vez que ou\u00e7o algu\u00e9m falar em inova\u00e7\u00e3o, eu lembro de 2001. N\u00e3o do filme, do ano. O mundo vivia na antessala de uma utopia. 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