{"id":10298,"date":"2025-07-12T08:15:52","date_gmt":"2025-07-12T11:15:52","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=10298"},"modified":"2025-07-12T09:21:33","modified_gmt":"2025-07-12T12:21:33","slug":"o-herculeo-trabalho-de-james-gunn","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/o-herculeo-trabalho-de-james-gunn\/","title":{"rendered":"O Herc\u00faleo trabalho de James Gunn"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 um antigo ditado budista que ainda causa muita controv\u00e9rsia e discuss\u00e3o: &#8220;Se encontrares Buda na estrada, mate-o&#8221;.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas interpreta\u00e7\u00f5es para esse koan: se voc\u00ea encontrar algu\u00e9m que se diz Buda ou tenta parecer Buda, tenha certeza, ele n\u00e3o \u00e9 o Buda e, por isso, deve morrer; ou, caso, por um milagre, seja realmente o Buda, voc\u00ea deve mat\u00e1-lo, pois o que interessa n\u00e3o \u00e9 a sua exist\u00eancia f\u00edsica, mas a sua exist\u00eancia enquanto esp\u00edrito ou ideia; ou, numa vis\u00e3o moderna e jocosa, se voc\u00ea encontrar o Buda por a\u00ed, provavelmente ele deve ser um zumbi e, portanto, para evitar que a infec\u00e7\u00e3o dos mortos vivos se espalhe, sim, \u00e9 melhor mat\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Ontem, assisti ao James Gunn encontrar o Super-Homem na estrada e mat\u00e1-lo belamente.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de hoje e nem surpresa discutir o g\u00eanero de super-her\u00f3is como uma esp\u00e9cie de mitologia moderna. Do trabalho de Joseph Campbell com George Lucas na cria\u00e7\u00e3o de Star Wars ao livro e document\u00e1rio de Grant Morrison sobre os super-her\u00f3is como os deuses modernos, essas ideias j\u00e1 se tornaram senso comum. Por\u00e9m, estranhamente, toda vez que se lan\u00e7a uma obra baseada nos super-her\u00f3is dos quadrinhos h\u00e1 uma grita. Os fundamentalistas decenautas ou os fan\u00e1ticos marvetes fazem longas discuss\u00f5es sobre os m\u00e9ritos dessas obras derivativas, tratando desde a qualidade narrativa e t\u00e9cnica, at\u00e9 uma suposta fidedignidade aos conceitos originais dos seus santos padroeiros, quer dizer, seus super-her\u00f3is preferidos.<\/p>\n<p>Enquanto assistia James Gunn fazer gato e sapato, com muito amor e carinho, do \u00faltimo filho de Krypton, fiquei pensando por que todo esse bafaf\u00e1 n\u00e3o se d\u00e1 quando as sucessivas reinterpreta\u00e7\u00f5es dos personagens ocorrem na sua m\u00eddia de origem, nos quadrinhos.<\/p>\n<p>Por acaso, estou lendo A Obra de Arte na era de sua Reprodutibilidade T\u00e9cnica do Walter Benjamin, onde, provocado especialmente pela fotografia e pelo cinema, ele discute a dessacraliza\u00e7\u00e3o da arte. Ele argumenta que no momento que a obra de arte passa a ser facilmente reprodut\u00edvel ela se torna ao mesmo tempo algo do plano material, perdendo a sua aura divina, e se coloca, enquanto produto, objeto da ideologia capitalista, dispon\u00edvel e ansiosa pela cr\u00edtica do p\u00fablico, o que seria inimagin\u00e1vel em tempos anteriores.<\/p>\n<p>Antigamente, o encontro com a arte, assim como o encontro com o divino, era completamente particular e fenomenol\u00f3gico, como uma experi\u00eancia religiosa, n\u00e3o pass\u00edvel de an\u00e1lise racional, cr\u00edtica, ou sequer compartilhamento. A arte, enquanto experi\u00eancia, existia como num <em>religare<\/em> religioso, para unir o humano ao transcendente que fora trazido \u00e0 terra por autoras e autores, que s\u00f3 serviam como recept\u00e1culos desse poder do al\u00e9m.<\/p>\n<p>Esse foi o tempo dos oradores e contadores de hist\u00f3rias, da arquitetura ligada aos templos, e do teatro como parte dos rituais religiosos. A arte, enquanto manifesta\u00e7\u00e3o <em>mezzo<\/em> humana, <em>mezzo<\/em> divina, era aberta ao p\u00fablico como uma oportunidade de acessar uma verdade, ainda misteriosa, mas tornada, se n\u00e3o compreens\u00edvel, apreens\u00edvel pelos sentidos, pela nossa cogni\u00e7\u00e3o e pelas nossas emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Esses momentos cat\u00e1rticos de encontro com a arte provocavam at\u00e9 sintomas f\u00edsicos, como os descritos na S\u00edndrome de Stendhal, fazendo o p\u00fablico, ou quem sabe, o povo devoto, sofrer de taquicardia, desmaios, confus\u00e3o mental e at\u00e9 alucina\u00e7\u00f5es s\u00f3 por serem confrontados por toda essa beleza excessiva.<\/p>\n<p>Quando a arte se tornou reprodut\u00edvel, ela perdeu essa aura e passou a ser algo a ser tratado apenas no plano do racional. Criou-se a avalia\u00e7\u00e3o \u201cobjetiva\u201d da arte e, oh, heresia!, o questionamento sobre o seu custo-benef\u00edcio, o qual concentra boa parte da aten\u00e7\u00e3o das m\u00eddias especializadas. Os autores, artistas, e atores, retirados dessa posi\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria de arautos dos deuses, se tornaram, eles mesmos, as pequenas divindades \u00e0s quais se prestavam respeito e admira\u00e7\u00e3o e que provocavam em seus f\u00e3s, ou fi\u00e9is, os sintomas da s\u00edndrome de Stendhal, sem a necessidade de haver qualquer contato com ou men\u00e7\u00e3o sequer a uma obra de arte.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, mesmo com toda a atividade art\u00edstica dominada pelo modelo de reprodutibilidade capitalista, h\u00e1 alguns bols\u00f5es de liberdade primitiva. Uma delas \u00e9 o formato das hist\u00f3rias em quadrinhos.<\/p>\n<p>Justamente por ainda n\u00e3o serem ainda t\u00e3o incensadas como arte, as hist\u00f3rias em quadrinhos ainda t\u00eam mais espa\u00e7o para ousar em seus formatos, (des)continuidades, e solu\u00e7\u00f5es narrativas. Seus autores e artistas, tamb\u00e9m pouco conhecidos, somem frente \u00e0s suas cria\u00e7\u00f5es e acaba que a revista em quadrinhos, como um poeta cantando seu poema \u00e9pico, pode testar diversas itera\u00e7\u00f5es conflitantes em busca daquele match perfeito com o p\u00fablico atual, seu contexto espec\u00edfico, e, inclusive, espa\u00e7o onde se encontrar\u00e1 com a obra. E \u00e9 nesse encontro, repleto de canaletas entre seus quadros, que a hist\u00f3ria em quadrinhos permite que os seus leitores se insiram na narrativa gerando experi\u00eancias \u00fanicas e particulares.<\/p>\n<p>O cinema, por outro lado, totalmente inserido na m\u00e1quina de produ\u00e7\u00e3o capitalista, tem menos liberdade. E, quanto mais caro e mais ambicioso em seu alcance, menos liberdade tem. Os roteiristas, produtores e diretores precisam, ent\u00e3o, dar um salto do momento sagrado e amb\u00edguo da fonte dos quadrinhos, onde tudo \u00e9 v\u00e1lido, e a hist\u00f3ria ou revista de um m\u00eas n\u00e3o precisa ter nenhum compromisso com o que ocorreu na anterior, para um modelo mais consolidado, compreens\u00edvel, e que transmite a uma enorme massa a mesma mensagem. Nesse encontro n\u00e3o h\u00e1 quase espa\u00e7o para o p\u00fablico que precisa ser totalmente absorvido pela experi\u00eancia proposta na tela.<\/p>\n<p>Enquanto a audi\u00eancia dos poetas gregos teve acesso a um milh\u00e3o e um trabalhos de H\u00e9rcules, para a concis\u00e3o e entendimento da nossa cultura de massa, todos esses trabalhos n\u00e3o podiam passar do compreens\u00edvel e reprodut\u00edvel n\u00famero de doze.<\/p>\n<p>Ontem, James Gunn, com muita coragem e sensibilidade, quebrou esse paradigma e nos deu espa\u00e7o para sonhar.<\/p>\n<p>Abdicando da necessidade de se tornar compreens\u00edvel para um p\u00fablico de massa, ele construiu a sua revista em quadrinhos no cinema. Em vez de amea\u00e7ar todo o universo, aumentando cada vez mais as apostas numa mesa imagin\u00e1ria de desastres c\u00f3smicos, James Gunn pin\u00e7ou, ao seu bel prazer, de toda a mitologia dispon\u00edvel, o que de mais humano lhe falava ao cora\u00e7\u00e3o e apresentou o quadrinho que queria ler com o personagem que o Super-Homem \u00e9 para ele. E, assim, com essa liberdade e desprendimento dos objetivos financeiros e de continuidade, sim, o filme n\u00e3o precisa fazer parte de franquia nenhuma para ser incr\u00edvel, ele nos fez lembrar do que o Super-Homem significa para cada um de n\u00f3s, e provocou, pelo menos em mim, um ataque de S\u00edndrome de Stendhal, que h\u00e1 muito n\u00e3o sentia, me fazendo palpitar, perder o ar, e num determinado momento de pura liga\u00e7\u00e3o com humano e o divino, representado pela dualidade desse Mois\u00e9s moderno, chorar.<\/p>\n<p>James Gunn conseguiu o que muitos n\u00e3o conseguiram pois fez a parte mais dif\u00edcil do trabalho: ele se deixou ser, e libertou o Super-Homem das estradas em que os est\u00fadios insistem em aprision\u00e1-lo. Pois o Super-Homem n\u00e3o \u00e9 uma propriedade intelectual que vive em pap\u00e9is, celuloides, ou servidores, mas uma ideia, uma sensa\u00e7\u00e3o, e uma verdade que pertence aos nossos cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ontem, James Gunn abriu o Super-Homem do seu cora\u00e7\u00e3o para n\u00f3s e nos permitiu libertar o Super-Homem que existe nos nossos. Obrigado, Gunn, por ter matado a divindade que vinha pela estrada e faz\u00ea-la renascer mais uma vez humana e divina como sempre acontece ao abrirmos uma revista em quadrinhos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 um antigo ditado budista que ainda causa muita controv\u00e9rsia e discuss\u00e3o: &#8220;Se encontrares Buda na estrada, mate-o&#8221;. H\u00e1 muitas interpreta\u00e7\u00f5es para esse koan: se voc\u00ea encontrar algu\u00e9m que se diz Buda ou tenta parecer Buda, tenha certeza, ele n\u00e3o \u00e9 o Buda e, por isso, deve morrer; ou, caso, por um milagre, seja realmente [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-10298","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-escritos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10298","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10298"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10298\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10302,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10298\/revisions\/10302"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10298"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10298"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10298"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}