{"id":1041,"date":"2013-12-19T15:20:22","date_gmt":"2013-12-19T17:20:22","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=1041"},"modified":"2023-06-10T08:26:38","modified_gmt":"2023-06-10T11:26:38","slug":"o-ganhador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/o-ganhador\/","title":{"rendered":"O Ganhador"},"content":{"rendered":"<p>No dia seguinte \u00e0 grande vit\u00f3ria, Ernesto acordou de cabe\u00e7a cheia. N\u00e3o era pra menos. Tinha de tudo al\u00ed: as infinitas cervejas do dia anterior; a ansiedade e a expectativa pelo resultado; a excita\u00e7\u00e3o da competi\u00e7\u00e3o; a rivalidade aberta contra seus inimigos; e, \u00f3bvio, a grande consagra\u00e7\u00e3o, sua e daqueles por quem torcia. Levantou devagar tentando equilibrar a cabe\u00e7a mas a ressaca era forte. Mesmo com muita dor foi correndo tomar banho. Precisava gritar ao mundo que era um vencedor.<!--more--><\/p>\n<p>M\u00e1rcia acordou com o barulho do chuveiro e ainda deitada gritou para Ernesto:<\/p>\n<p>&#8211; Amor, j\u00e1 levantou?! N\u00e3o ia faltar hoje?!<br \/>\n&#8211; At\u00e9 ia, mas preciso esfregar umas coisas na cara daquele filho da puta do trabalho!<br \/>\n&#8211; Voc\u00ea n\u00e3o tem jeito mesmo, Ernesto!<\/p>\n<p>Seu chefe, companheiro de torcida, \u00a0com certeza entenderia a falta; e a sua ressaca bem que merecia esse descanso; mas como perder a oportunidade de se vingar daquele que tinha tirado tanto sarro dele nos \u00faltimos meses? N\u00e3o dava. Era uma quest\u00e3o de honra.<\/p>\n<p>Terminou o banho determinado, vestiu a camisa que tinha preparado para comemorar a vit\u00f3ria, beijou M\u00e1rcia ardorosamente, como um guerreiro vitorioso, e saiu na rua que nem uma crian\u00e7a, com o poster do campe\u00e3o enrolado no pesco\u00e7o como uma capa. Era a mais pura imagem da felicidade.<\/p>\n<p>Dirigiu at\u00e9 o trabalho buzinando. Outros buzinavam retornando a mensagem: &#8220;Ganhamos!&#8221;. A sensa\u00e7\u00e3o de uni\u00e3o era demais. Sentia fazer parte de algo maior que ele. Algo que importava.<\/p>\n<p>Chegou cedo no escrit\u00f3rio e come\u00e7ou sua vingan\u00e7a por tanto tempo planejada. Usou a c\u00f3pia da chave que tinha pego com o zelador, companheiro da torcida organizada, para entrar na sala do seu maior desafeto: Roberto.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos meses, ele tinha sofrido na sua m\u00e3o. \u00c0 cada vit\u00f3ria do &#8220;inimigo&#8221;, Roberto vinha com uma brincadeira, uma pegadinha, s\u00f3 pra humilhar Ernesto. Ele aguentou calado todo o abuso, mas, agora, a conquista mais importante era sua. Ele era O VENCEDOR. E Roberto precisava pagar por suas atitudes.<\/p>\n<p>Na sala de Roberto, tudo remetia ao inimigo: a almofada sobre o sof\u00e1, a caneca, o rel\u00f3gio, o mouse pad. Roberto inclusive tinha um poster gigante do inimigo atr\u00e1s da sua cadeira. Aquele seria o foco da pegadinha de Ernesto; a tela da sua vit\u00f3ria. Com muito cuidado e com a ajuda de algumas imagens que j\u00e1 tinha separado para esse momento, criou uma vers\u00e3o que mostrava todo seu \u00f3dio e saciaria finalmente a sua sede de vingan\u00e7a. Em pouco tempo estava pronto. Deu dois passos pra tr\u00e1s e apreciou sua obra prima. Aquilo bastaria. Pelo menos por enquanto.<\/p>\n<p>Se escondeu atr\u00e1s do sof\u00e1 para surpreend\u00ea-lo. As pessoas come\u00e7aram a chegar ao escrit\u00f3rio. Ernesto sabia que Roberto iria demorar. Como ele, tamb\u00e9m estava de cabe\u00e7a cheia, mas por motivos completamente opostos. 9:15, 9:30, 9:45. E nada de Roberto. Ernesto estava hiper ansioso, mas a espera iria valer a pena. \u00c0s 9:57, Roberto entrou na sala.<\/p>\n<p>Lento e de cabe\u00e7a baixa, ele caminhou derrotado pela sala. Jogou sua mochila no sof\u00e1 e se sentou na cadeira sem perceber o que havia ocorrido com seu poster.<\/p>\n<p>Ernesto ficou sem saber o que fazer. Esperava peg\u00e1-lo at\u00f4nito enquanto fitava sua obra de arte. O que fazer? Esperar at\u00e9 que ele notasse sozinho? Isso podia demorar horas. Para piorar Roberto baixou a cabe\u00e7a na mesa, o que deixou Ernesto mais tenso. N\u00e3o ia aguentar. Precisava agir. E, assim, o fez.<\/p>\n<p>Com toda a energia que tinha, pulou de tr\u00e1s do sof\u00e1 sacudindo a sua capa poster e come\u00e7ou a gritar seu hino de guerra:<\/p>\n<p>&#8211; Bi-f\u00f3ooooR, Bi-f\u00f3ooooR (&#8230;) Bi-f\u00f3ooooR, Bi-f\u00f3ooooR (&#8230;)Bi-f\u00f3ooooR, Bi-f\u00f3ooooR (&#8230;) Bi-f\u00f3ooooR Midnight!<\/p>\n<p>Roberto levantou a cabe\u00e7a assustado. Na sua frente, Ernesto dan\u00e7ava segurando o poster do filme Before Midnight, o grande ganhador do Oscar na noite anterior. O filme pelo qual Ernesto torcia. O sangue subiu \u00e0 cabe\u00e7a de Roberto mas ele n\u00e3o conseguiu se levantar. Em seu momento de gl\u00f3ria, Ernesto continuou provocando:<\/p>\n<p>&#8211; D\u00e1-lhe Delpy! D\u00e1-lhe Delpy!<\/p>\n<p>S\u00f3 ent\u00e3o Roberto percebeu que Ernesto apontava rindo para algo atr\u00e1s dele. Roberto se virou e viu enfim o grande trabalho de Ernesto. O poster de seu filme preferido, Gravidade, o grande ganhador do Globo de Ouro, mas apenas um perdedor no Oscar, estava destru\u00eddo. Por todo poster v\u00e1rias imagens coladas: os filhos de Jesse e Celine, uma foto de George Clooney em o Ataque dos Tomates Assassinos, e a cabe\u00e7a de Sandra Bullock em Maluca Paix\u00e3o substituindo o seu capacete espacial. Coroando a dessacraliza\u00e7\u00e3o, um bal\u00e3o de di\u00e1logo sa\u00eda da boca de Bullock com os dizeres: &#8220;Cad\u00ea a Gravidade? Saiu do Globo, Caiu no Oscar!&#8221;.<\/p>\n<p>Roberto finalmente perdeu a cabe\u00e7a. Pegou sua caneca comemorativa do Globo de Ouro ganho por Gravidade, e, enquanto Ernesto entoava mais uma de suas musiquinhas (&#8220;\u00c9-ETHAN, \u00c9-\u00d4; \u00c9 HAWKE, \u00c1-H\u00c1&#8221;) Robert golpeou a cabe\u00e7a do colega de trabalho violentamente at\u00e9 ele perder os sentidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&#8212; X &#8212;<\/strong><\/p>\n<p>Meia hora depois, na entrada do pr\u00e9dio, enquanto a pol\u00edcia botava Roberto dentro de uma viatura e os param\u00e9dicos levavam Ernesto acompanhado de M\u00e1rcia para a ambul\u00e2ncia, os demais colegas de trabalho se perguntavam o porqu\u00ea de tanto fanatismo por apenas um filme. O que acontecia com esses tais cin\u00e9filos?\u00a0A maioria das pessoas era normal. Acompanhava os filmes pela TV e alguns at\u00e9 iam regularmente ao cinema. Mas nenhum tinha o tipo de rea\u00e7\u00e3o que eles tinham. \u00a0Havia agressividade e um tanto de irracionalidade nas paix\u00f5es de todos mas nada que sa\u00edsse do controle. Eram paix\u00f5es, mas contidas pela raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto v\u00edtima e agressor deixavam o pr\u00e9dio, as rodinhas continuavam fofocando sobre o acontecimento. Como sempre, uns e outros, em geral aqueles esquisitos que n\u00e3o gostavam de filmes, advogavam a proibi\u00e7\u00e3o do cinema, por ser uma coisa bruta e que estimulava a viol\u00eancia. Mas, como sempre, esses coment\u00e1rios foram ignorados. Afinal, ningu\u00e9m dava muita trela pras opini\u00f5es dos esquisitos que gostavam de futebol.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia seguinte \u00e0 grande vit\u00f3ria, Ernesto acordou de cabe\u00e7a cheia. N\u00e3o era pra menos. 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