{"id":10582,"date":"2025-12-25T12:19:56","date_gmt":"2025-12-25T15:19:56","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=10582"},"modified":"2025-12-27T21:33:24","modified_gmt":"2025-12-28T00:33:24","slug":"da-new-yorker-ao-snl-os-100-ou-50-melhores-e-mais-elitistas-anos-da-nossa-cultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/da-new-yorker-ao-snl-os-100-ou-50-melhores-e-mais-elitistas-anos-da-nossa-cultura\/","title":{"rendered":"Da New Yorker ao SNL: Os 100 (ou 50) melhores (e mais \u00e9litistas*) anos da nossa cultura"},"content":{"rendered":"<p>2025 se vai com dois marcos: os 100 anos da New Yorker e os 50 anos de Saturday Night Live. Curioso que ambas as cria\u00e7\u00f5es estejam ligadas a um humor inteligente (e, em algumas \u00e9pocas, \u00e9litista*); tenham um forte e bem intencionado (mas atrapalhado) criador por tr\u00e1s (Harold Ross e Lorne Michaels); e s\u00e3o localizadas na cidade de Nova York (a nossa Roma moderna, ou, quem sabe?, Roma seja a nossa Nova York antiga).<\/p>\n<p>\u00d3bvio que a comemora\u00e7\u00e3o dessas datas n\u00e3o passou em branco no cinema. Tivemos um belo document\u00e1rio sobre os 100 anos da New Yorker, <a href=\"https:\/\/www.justwatch.com\/br\/filme\/the-new-yorker-at-100\"><em>The New Yorker at 100<\/em><\/a>, onde, por meio dos preparativos para o seu centen\u00e1rio, vemos a import\u00e2ncia da publica\u00e7\u00e3o para, sem exagero, o mundo, enquanto resgatam todas as demais mudan\u00e7as que a revista impulsionou na sociedade americana e, por que n\u00e3o?, na cultura ocidental. J\u00e1 para celebrar os 50 anos do SNL, Jason Reitman roteirizou e dirigiu<a href=\"https:\/\/www.justwatch.com\/br\/filme\/saturday-night-2024\"><em> Saturday Night<\/em><\/a>, um retrato ca\u00f3tico e revelador (por\u00e9m proposital) da primeira exibi\u00e7\u00e3o e da descoberta da voca\u00e7\u00e3o do programa ic\u00f4nico.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-10583\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/snl_tny.jpg\" alt=\"\" width=\"940\" height=\"788\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/snl_tny.jpg 940w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/snl_tny-300x251.jpg 300w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/snl_tny-768x644.jpg 768w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/snl_tny-624x523.jpg 624w\" sizes=\"(max-width: 940px) 100vw, 940px\" \/><\/p>\n<p>Ambos os filmes s\u00e3o, qual rem\u00e9dio?, pe\u00e7as de propaganda, mas, com a finesse que a intelig\u00eancia que representam pede, n\u00e3o economizam nos problemas enfrentados por essas revistas semanais (impressa e televisiva). E \u00e9 justamente nos seus aparentes erros que se encontram seus maiores acertos.<\/p>\n<p>Tanto a New Yorker como o SNL surgiram de agremia\u00e7\u00f5es de &#8220;desconhecidos&#8221; sem um claro prop\u00f3sito que n\u00e3o fosse produzir algo interessante, bem humorado, e pertinente para os seus tempos. E esses tempos, devido \u00e0s suas longevidades, souberam lhes ser tanto cru\u00e9is como benevolentes.<\/p>\n<p>Com o passar dos anos as empreitadas e os envolvidos nelas foram mudando, mas souberam manter vivas as ess\u00eancias m\u00ednimas que as constituem: estrutura e design simples e reconhec\u00edveis; forte pegada contra-cultural; forma\u00e7\u00e3o de uma comunidade quase herm\u00e9tica de leitores e espectadores; contribuidores emergentes, especialmente do cen\u00e1rio underground; e um esmero displicente com a mudan\u00e7a do que a\u00ed est\u00e1.<\/p>\n<p>Talvez a longa vida da New Yorker e do SNL fale mais sobre esse \u00faltimo s\u00e9culo do que sobre elas mesmas. Vivemos de 1925 pra c\u00e1, com todas as dificuldades, uma era razoavelmente democr\u00e1tica onde era poss\u00edvel ser inteligente e engra\u00e7ado fazendo tro\u00e7a com o establishment, enquanto ensai\u00e1vamos propostas de novas formas de viver em sociedade. \u00c9 impressionante o poder que essas revistas tiveram para mudar nossos costumes, nossas formas narrativas, e at\u00e9 a nossa pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Por mais incr\u00edvel e maravilhante que isso possa parecer, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o pensar: o que estaremos comemorando nos pr\u00f3ximos 100, ou, sendo mais realista, 50 anos? Continuaremos tendo essas duas institui\u00e7\u00f5es s\u00f3lidas para agradecer e congratular? Teremos novas cria\u00e7\u00f5es em 2025 que conseguir\u00e3o provocar o mesmo tipo de impacto e sobreviver por tantos anos?<\/p>\n<p>N\u00e3o sei, n\u00e3o sei. Mas, infelizmente, temo que n\u00e3o.<\/p>\n<p>Semana passada numa conversa com Maur\u00edcio Gouveia, propriet\u00e1rio e livreiro da Baratos, discutimos a inabilidade da nova gera\u00e7\u00e3o em se posicionar de forma rebelde frente ao que h\u00e1. Ao contr\u00e1rio do deboche e da ousadia do SNL e da New Yorker, na opini\u00e3o do Maur\u00edcio, o que vemos hoje s\u00e3o jovens conformados, usando apenas as ferramentas procedurais que lhes foram oferecidas pra tentar lutar por uma normalidade falsa que nunca existiu, mas que eles parecem acreditar que funciona.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio n\u00e3o concordei, mas, depois de ver os dois filmes, me caiu uma ficha: onde est\u00e3o os movimentos contra-culturais de 2025?<\/p>\n<p>Tanto a New Yorker, como o SNL, surgiram como obras contra o que vigia na \u00e9poca: a Am\u00e9rica rural para a New Yorker, representada pela velhinha de Dubuque, e o Pesadelo no Ar Refrigerado, tornado carne no Impeachment de Nixon, para o SNL. O mesmo pode se dizer de muitos outros movimentos: a Nouvelle Vague, que comemorou os 65 anos de Acossado com um filme sobre a produ\u00e7\u00e3o dirigido pelo Richard Linklater; os quadrinhos punk com Love &amp; Rockets; os Beatniks; e por a\u00ed vai.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que Saturday Night Live e The New Yorker tiveram e tem import\u00e2ncia pois s\u00e3o mais do que simples revistas, s\u00e3o movimentos ou reflexos das expectativas de mudan\u00e7a da sociedade. Por isso ainda tem impacto, ecoam as suas mensagens al\u00e9m de seus espa\u00e7os midi\u00e1ticos, e permanecem at\u00e9 hoje, na vida real e na nossa mem\u00f3ria, como salvaguardas de ambientes criativos para as lutas art\u00edstica e social.<\/p>\n<div id=\"attachment_10584\" style=\"width: 689px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-10584\" class=\"size-full wp-image-10584\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/G8lOSUCXsAADVhd.jpg\" alt=\"\" width=\"679\" height=\"564\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/G8lOSUCXsAADVhd.jpg 679w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/G8lOSUCXsAADVhd-300x249.jpg 300w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/G8lOSUCXsAADVhd-624x518.jpg 624w\" sizes=\"(max-width: 679px) 100vw, 679px\" \/><p id=\"caption-attachment-10584\" class=\"wp-caption-text\">E.B. White, se liga: n\u00e3o se pede demiss\u00e3o de um movimento.<\/p><\/div>\n<p>Olhando para o nosso deserto conceitual onde o m\u00e1ximo de movimento com o qual conseguimos nos comprometer \u00e9 um twitta\u00e7o (ou seria Xisza\u00e7o?) ou um fim de semana sab\u00e1tico das redes sociais, eu lamento pelo nosso futuro. Ser\u00e1 que a distopia que vivemos \u00e9 t\u00e3o inescap\u00e1vel que n\u00e3o sabemos ou n\u00e3o temos mais como tirar sarro da cara dela seja por texto, imagem, v\u00eddeo ou \u00e1udio? Ser\u00e1 que h\u00e1 sa\u00edda para essa nossa impot\u00eancia contra-cultural?<\/p>\n<p>Espero sinceramente estar errado, mas, pelo andar da carruagem, \u00e9 bem capaz que em 2075 e em 2125 n\u00e3o haja mais nada a se comemorar. Os nossos movimentos parecem ter cessado e a n\u00f3s e \u00e0s futuras gera\u00e7\u00f5es s\u00f3 restar\u00e3o a escurid\u00e3o e o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>A n\u00e3o ser que voc\u00ea tenha alguma ideia doida a compartilhar. Bom, sou todo ouvidos, e, c\u00e1 entre n\u00f3s, tenho umas tamb\u00e9m pra te mostrar. Ent\u00e3o, vamos nos juntar pra falar besteira e reclamar dos outros e da vida? Pera l\u00e1! Posso estar enganado, mas n\u00e3o \u00e9 assim que os movimentos come\u00e7am?<\/p>\n<p><em>*Seguindo a regra da New Yorker e respeitando a origem francesa da palavra elite, quer dizer, \u00e9lite, a mantive acentuada, mesmo que voc\u00eas n\u00e3o gostem. A revolu\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se faz com acentos, sabia?<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>2025 se vai com dois marcos: os 100 anos da New Yorker e os 50 anos de Saturday Night Live. 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