{"id":10645,"date":"2026-01-11T22:46:58","date_gmt":"2026-01-12T01:46:58","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=10645"},"modified":"2026-01-11T23:14:23","modified_gmt":"2026-01-12T02:14:23","slug":"as-helenas-do-leblon-versus-os-revolucionarios-da-sao-salvador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/as-helenas-do-leblon-versus-os-revolucionarios-da-sao-salvador\/","title":{"rendered":"As Helenas do Leblon versus o(s) revolucion\u00e1rio(s) da S\u00e3o Salvador"},"content":{"rendered":"\r\n<p>Por uma dessas coincid\u00eancias quase folhetinescas, nesse domingo, eu amanheci no Leblon, exatamente no dia seguinte \u00e0 morte de Manoel Carlos. E nada disso foi motivado pelo passamento do novelista mais importante do bairro. Eu estava no prolongamento ficcional de Ipanema para um compromisso marcado com anteced\u00eancia: minha \u00faltima aula do curso de medita\u00e7\u00e3o transcendental \u00e0s 8 da manh\u00e3. Programa mais Helena do Leblon, imposs\u00edvel.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>\u00d3bvio que ao saltar na pra\u00e7a Antero de Quental, a minha percep\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava completamente maculada pela perda. Assim, pelo caminho do curso, meus olhos passaram a procurar tudo o que fizesse coro ou contradissesse a obra do Maneco.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Primeira disson\u00e2ncia: a popula\u00e7\u00e3o de rua. Invis\u00edvel nas novelas, ela acordava ostensivamente sob as marquises, na frente da sa\u00edda do metr\u00f4, se espalhando pelo bairro em profus\u00e3o, mas de forma discreta e recolhida. Para tentar me seduzir a tornar a realidade brutal mais pr\u00f3xima de uma cena deletada de La\u00e7os de Fam\u00edlia, um homem sem teto, vestindo um tubinho vermelho colado ao corpo, se fazia de guarda de tr\u00e2nsito, organizando o j\u00e1 tumultuado cruzamento entre a Ataulfo de Paiva e a Bartolomeu Mitre. Por sorte n\u00e3o foi atropelado. At\u00e9 quando vi.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Primeira resson\u00e2ncia: o sil\u00eancio quase figurativo. Era cedo, mas havia movimento pelas ruas. Bastante. Pessoas passando com compras de supermercado; pessoas indo para praia; pessoas conversando sem fazer barulho, como se fizessem figura\u00e7\u00e3o para uma cena que, eu sabia, estava l\u00e1, mas n\u00e3o conseguia precisar. Para resolver o mist\u00e9rio, fiz com os olhos o caminho que a cenografia, os figurinos, e a ilumina\u00e7\u00e3o pareciam me indicar e, enfim, encontrei a cena de Maneco: um jovem casal com um carrinho de beb\u00ea tirando uma selfie com o filhote. Detalhe: os tr\u00eas de \u00f3culos escuros.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Durante a medita\u00e7\u00e3o, precisei ficar desviando das Helenas do Leblon que surgiam como pensamentos intrusivos no meio do meu mergulho pelas \u00e1guas profundas do meu inconsciente. Como elas conseguiam se manter financeiramente se eram t\u00e3o pouco profissionais em suas carreiras? Por que todas eram m\u00e3es t\u00e3o t\u00f3xicas que n\u00e3o percebiam como prejudicavam tanto suas filhas ao mim\u00e1-las? O que as levava a se envolver por tanto tempo com indiv\u00edduos imoralmente pri\u00e1picos at\u00e9 aceitarem o amor das bem-aventuradas moscas mortas que se humilhavam por elas? Por que todas suas amigas eram pobres, conseguiam morar no Leblon e tinham namorados\/maridos impotentes? O que lhes dava o direito de serem patroas t\u00e3o racistas e por que nunca foram denunciadas por suas empregadas dom\u00e9sticas? Ah, e, por \u00faltimo, por que diabos o Maneco afirmava serem elas inspiradas por Helena de Tr\u00f3ia? Homero me salve!<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O curso acabou, me deixando ainda com um zumbido mezzo troiano mezzo leblonense nos ouvidos. Novamente \u00e0 merc\u00ea da Ataulfo de Paiva, j\u00e1 com o dia alto, Leblon veio com for\u00e7a total para cima de mim. Pessoas bem-vestidas tomando brunch em mesas nas cal\u00e7adas sem serem importunadas; pessoas aparentemente cultas lendo jornais de papel ou discutindo livros cuidadosamente dispostos entre mimosas e croissants; pessoas veranis fazendo compras modestas em pequenos com\u00e9rcios que, com certeza, n\u00e3o t\u00eam como pagar o aluguel do metro quadrado mais caro do Brasil; pessoas sa\u00eddas de sites de fofoca, acompanhantes, ou not\u00edcias estacionando carros, atravessando ruas, sendo banais. Sim, esse foi o retrato 3&#215;4 que o Leblon me apresentou como identidade p\u00f3s morte do seu criador: uma cena super produzida de cinema sobre banalidades sem prop\u00f3sito.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Sem me encaixar naquele cen\u00e1rio e sem saber o que fazer por ali, peguei o metr\u00f4 e fui me refugiar onde eu fazia sentido como pessoa. 17 minutos e 7 esta\u00e7\u00f5es de metr\u00f4 depois, eu estava na pra\u00e7a S\u00e3o Salvador. O chorinho j\u00e1 come\u00e7ava a tocar seus primeiros acordes; as primeiras garrafas de Heineken do dia come\u00e7avam a ser abertas; e os primeiros revolucion\u00e1rios de ar-condicionado enfrentavam um sol infernal nas mesas dos bares e nas cal\u00e7adas planejando as \u00faltimas revolu\u00e7\u00f5es que nunca iriam acontecer.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Frente a todo esse espet\u00e1culo, que eu, de certa forma, tamb\u00e9m ajudo a ressignificar em contos e cr\u00f4nicas, me perguntei: quem sou eu para falar mal do Maneco e de seu bairro inventado? N\u00e3o \u00e9 porque eu n\u00e3o me sinto \u00e0 vontade na barriga do seu cavalo leblonense que eu n\u00e3o fa\u00e7a parte do mesmo ex\u00e9rcito que busca resgatar Helenas ficcionais que nunca poder\u00e3o ser salvas. Sim, o curso acabou, mas ainda tenho muito para meditar.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por uma dessas coincid\u00eancias quase folhetinescas, nesse domingo, eu amanheci no Leblon, exatamente no dia seguinte \u00e0 morte de Manoel Carlos. E nada disso foi motivado pelo passamento do novelista mais importante do bairro. 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