{"id":10657,"date":"2026-02-01T11:48:24","date_gmt":"2026-02-01T14:48:24","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=10657"},"modified":"2026-02-01T11:48:24","modified_gmt":"2026-02-01T14:48:24","slug":"luto-memoria-e-imortalidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/luto-memoria-e-imortalidade\/","title":{"rendered":"Luto, mem\u00f3ria e (i)mortalidade"},"content":{"rendered":"<p>No seu livro Imortalidades, Eduardo Gianetti asperge uma discuss\u00e3o em robustas gotas sobre como lidamos com a morte. Se espelhando um pouco no modelo de O Mal Estar na Civiliza\u00e7\u00e3o de Freud, ele sugere como estrat\u00e9gias mais comuns para encarar o nosso inevit\u00e1vel destino: crer que h\u00e1 algo depois da ou na pr\u00f3pria vida que lhe conceda um prop\u00f3sito externo; deixar um legado para que futuras gera\u00e7\u00f5es evoluam a partir dele e, por que n\u00e3o?, tamb\u00e9m celebrem o que voc\u00ea construiu; viver o momento, numa busca desenfreada pelo prazer mundano ou se entregando \u00e0 plenitude m\u00edstica do presente; e, enfim, algo n\u00e3o previsto por Freud, literalmente tentar viver pra sempre, seja congelando seu c\u00e9rebro, atrav\u00e9s de clonagem, ou fazendo o upload da sua consci\u00eancia para o mundo digital.<\/p>\n<p>Apesar das estrat\u00e9gias terem contextos e ferramentas diferentes, todas almejam um mesmo objetivo: a manuten\u00e7\u00e3o perene da consci\u00eancia. E \u00e9 a\u00ed que a quest\u00e3o emperra um pouco pra mim. O que diabos \u00e9 essa tal consci\u00eancia? Consci\u00eancia \u00e9 ter a percep\u00e7\u00e3o de um EU separado do mundo? Consci\u00eancia \u00e9 uma esp\u00e9cie de alma que nos torna \u00fanicos? Consci\u00eancia \u00e9 apenas a oportunidade de interagir de forma proposital com a realidade, tendo &#8220;ci\u00eancia em conjunto&#8221; com os elementos que circulam ao nosso redor? Ou, num movimento inverso, consci\u00eancia \u00e9 poder desfrutar da experi\u00eancia do seu mundo interior?<\/p>\n<p>Fica claro que a consci\u00eancia, em todas as suas poss\u00edveis manifesta\u00e7\u00f5es, tem um ponto central: o ego. A diferencia\u00e7\u00e3o, a separa\u00e7\u00e3o entre um mundo interno e externo, a ag\u00eancia proposital, a possibilidade de exercer a sua posi\u00e7\u00e3o sobre o mundo e como uma crian\u00e7a frente a um cimento fresco poder escrever sobre ele o seu nome.<\/p>\n<div id=\"attachment_10658\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-10658\" class=\"wp-image-10658 size-full\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/38531513_10214880620321127_3476101114951106560_n-e1769949070901.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"302\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/38531513_10214880620321127_3476101114951106560_n-e1769949070901.jpg 600w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/38531513_10214880620321127_3476101114951106560_n-e1769949070901-300x151.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><p id=\"caption-attachment-10658\" class=\"wp-caption-text\">Sempre tentando permanecer &#8220;forrever&#8221; (sic)<\/p><\/div>\n<p>Se a nossa consci\u00eancia depende dessa separa\u00e7\u00e3o do nosso ambiente, no qual se incluem outras consci\u00eancias, o que nos diferencia \u00e9 justamente o que nos permite ter um mundo mental \u00e0 parte, que promove diferentes a\u00e7\u00f5es e rea\u00e7\u00f5es na nossa rela\u00e7\u00e3o com a realidade. E esse mundo exclusivo \u00e9 uma direta consequ\u00eancia das experi\u00eancias \u00fanicas que vivemos: nossos traumas, conquistas e imagina\u00e7\u00f5es; tudo o que sentimos, passamos, sofremos; e, especialmente, aquilo que significamos sobre o que sentimos, passamos e sofremos. Afinal, se f\u00f4ssemos uma grande massa \u00fanica compartilhando as mais diferentes experi\u00eancias, como ocorre com a humanidade na s\u00e9rie Pluribus, poder\u00edamos considerar sermos uma consci\u00eancia de fato?<\/p>\n<p>A consci\u00eancia \u00e9, assim, um ato ego\u00edsta. Para ser diferente do resto do mundo, o que voc\u00ea vive precisa ser s\u00f3 seu, e o cofre que protege essa riqueza \u00fanica \u00e9 a mem\u00f3ria. Se o valor de toda a nossa consci\u00eancia reside na mem\u00f3ria, perd\u00ea-la pelo tempo, por morte, por doen\u00e7a, ou pelo apagamento social\/pol\u00edtico, \u00e9 uma verdadeira amea\u00e7a \u00e0 vida. Esquecer ou ser esquecido s\u00e3o como morrer.<\/p>\n<p>Enquanto assistia a Train Dreams, percebi que boa parte dos filmes indicados ao Oscar esse ano tratam dessa rela\u00e7\u00e3o entre mem\u00f3ria, luto, e (i)mortalidade.<\/p>\n<p>Em Hamnet, a mem\u00f3ria do filho morto \u00e9 preservada pela sublima\u00e7\u00e3o do luto na forma de um legado inquestion\u00e1vel; em O Agente Secreto, uma cadeia de m\u00faltiplos lutos precisa ser trabalhada a partir de uma perspectiva hist\u00f3rica para a preserva\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia de indiv\u00edduo, fam\u00edlia e na\u00e7\u00e3o; em Valor Sentimental, as diversas rela\u00e7\u00f5es das ascend\u00eancias com a morte lutam por serem discutidas para curar os relacionamentos ainda existentes; e em Train Dreams, que suscitou essa reflex\u00e3o, a mem\u00f3ria se infunde com a natureza, deixando as nossas marcas sobre o ambiente que degradamos e que, em rea\u00e7\u00e3o, se defende e vinga(?) de n\u00f3s.<\/p>\n<div id=\"attachment_10659\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-10659\" class=\"wp-image-10659 size-full\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/luto_filmes.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/luto_filmes.jpg 600w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/luto_filmes-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><p id=\"caption-attachment-10659\" class=\"wp-caption-text\">Somos mais do que o registro das nossas passagens?<\/p><\/div>\n<p>Cada um desses filmes se esmera em trazer reflex\u00f5es sobre como a nossa busca pela perman\u00eancia e pela resolu\u00e7\u00e3o dos lutos passados (ou futuros) se torna constitutiva n\u00e3o s\u00f3 de uma mem\u00f3ria e consci\u00eancia individuais, mas coletivas, se estendendo por gera\u00e7\u00f5es familiares, por florestas, pelo teatro e pela hist\u00f3ria de na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 surpresa que o ato de lembrar esteja t\u00e3o em voga. Num mundo em que o excesso de informa\u00e7\u00e3o faz um dumping do valor de todas as experi\u00eancias, em que confundimos a viv\u00eancia dos outros com as nossas, em que a hist\u00f3ria \u00e9 distorcida por prop\u00f3sitos vis, e em que o mundo externo retira nosso tempo de viver em nossos mundos internos, o que est\u00e1 em risco n\u00e3o \u00e9 apenas a nossa aten\u00e7\u00e3o, mas a mem\u00f3ria que justifica a nossa consci\u00eancia e representa a nossa vida. Por isso, \u00e9 t\u00e3o importante valorizar como lidamos com o que lembramos do que \u00e9 e do que foi; do que \u00e9 meu, seu e nosso; e do que nos define como seres humanos.<\/p>\n<p>Talvez, para complementar o belo livro de Gianetti, al\u00e9m da preserva\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia, precisemos nos debru\u00e7ar sobre como fazer de nossas mem\u00f3rias objeto de perpetua\u00e7\u00e3o. Quem sabe, em vez de lutar pela imposs\u00edvel vida eterna (f\u00edsica, mental ou social), tenhamos mais sucesso e mais tranquilidade nas nossas exist\u00eancias ao mirar na preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria. &#8220;Ser ou N\u00e3o Ser&#8221;, sim, \u00e9 a quest\u00e3o, mas lembrar e ser lembrado talvez seja o mais pr\u00f3ximo que possamos chegar dessa desejada perman\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No seu livro Imortalidades, Eduardo Gianetti asperge uma discuss\u00e3o em robustas gotas sobre como lidamos com a morte. 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