{"id":1072,"date":"2014-01-21T08:12:29","date_gmt":"2014-01-21T10:12:29","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=1072"},"modified":"2014-01-20T19:17:17","modified_gmt":"2014-01-20T21:17:17","slug":"alta-e-ansiedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/alta-e-ansiedade\/","title":{"rendered":"Alta e Ansiedade"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei se foi a primeira, mas, se n\u00e3o foi, me marcou como tal. Eu tinha entre 15 e 16 anos, estava em casa, de noite, sentado \u00e0 mesa de jantar assistindo TV. De repente, comecei a me sentir mal. Minto, n\u00e3o exatamente mal, mas, por mais idiota que isso pare\u00e7a, estava ansioso. Tinha a clara e indiscut\u00edvel sensa\u00e7\u00e3o de que algo (ruim) ia acontecer. Tentei me acalmar e me concentrar na TV. Imposs\u00edvel. Tanto pela qualidade do que assistia quanto pelo que estava sentindo. Se ficasse al\u00ed, parado, como estava, eu sabia que algo de ruim ia acontecer. Por isso, decidi (?) que precisava sair.<!--more--><\/p>\n<p>Num reflexo, botei os chinelos e sa\u00ed pela rua. Caminhei sem saber pra onde. Acelerado e ao mesmo tempo preocupado em ter alguma coisa (de ruim) pelo caminho. Quando dei por mim estava em frente ao cinema Paissand\u00fa. Passava Tempo de Despertar. A sess\u00e3o j\u00e1 tinha come\u00e7ado h\u00e1 tempos mas mesmo assim comprei um ingresso e entrei. O filme estava pela metade, mas isso n\u00e3o me importou. S\u00f3 de estar al\u00ed fazendo algo diferente me acalmei. Vi o filme at\u00e9 o final, incluindo a cena em que Penelope Ann Miller e Robert de Niro dan\u00e7am (mega aliviante), e depois parti para casa. O cinema me curou, lembro ter pensado na \u00e9poca.<\/p>\n<p>Comecei a ter essas crises de quando em quando, mas nem sempre t\u00e3o duras, surpreendentes ou inescap\u00e1veis. J\u00e1 estava com meus 18 anos e a auto medica\u00e7\u00e3o proporcionada pelo choppinho para aplacar minha fobia social ajudava. Estranhamente a pr\u00f3xima crise realmente forte veio dentro do cinema.<\/p>\n<p>Uns 8 anos depois da &#8220;primeira&#8221; crise, estava num sess\u00e3o de Existenz na mostra do Rio. Pouco minutos ap\u00f3s o in\u00edcio do filme, comecei a me sentir como da outra vez. S\u00f3 que dessa, eu queria SAIR do cinema. Como estava com outras pessoas, tentei me controlar. Vergonha de estar ansioso. Isso, com certeza, aumentou a minha ansiedade. Minhas m\u00e3os suavam. Tinha dificuldade para respirar ou achava que n\u00e3o estava sentindo a minha respira\u00e7\u00e3o. Minha boca secou e tinha dificuldade de engolir. Vez ou outra fechava os olhos e contava sozinho o que eu achava ser o meu batimento card\u00edaco. Estava morrendo, era s\u00f3 o que me passava pela cabe\u00e7a. Quando finalmente n\u00e3o estava me aguentando, levantei com o pretexto de ir ao banheiro e as luzes do cinema acenderam. Bendito Cronenberg e seus finais repentinos.<\/p>\n<p>Tentei culpar o filme e a tem\u00e1tica. Na \u00e9poca criava jogos corporativos e meu s\u00f3cio tinha sonhos de dominar o mundo, o que batia bem com a sensa\u00e7\u00e3o do fim da realidade proposta pelo filme. Mas era tudo racionaliza\u00e7\u00e3o. Eu tive, como da outra vez, um ataque de ansiedade. O externo podia desencadear, mas era o interno que pressionava para esse ataque acontecer. Na verdade \u00e9 como se fosse para eu estar tendo ataques de ansiedade a todo momento mas conseguia me controlar na maior parte do tempo. Estava ficando ansioso por poder estar ansioso. Mega feedback negativo!<\/p>\n<p>Resolvi fazer an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Na primeira vez durou um ano. Acabou quando a analista disse que n\u00e3o tinha como me tratar e queria me mandar a um psiquiatra. O meu alarme piscou, resolvi confrontar as fontes prim\u00e1rias da minha ansiedade e me despedi da analista. Temia transformar a quest\u00e3o numa muleta e piorar a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mesmo assim considero o resultado positivo. Me tornei mais consciente do que desencadeava os ataques e como melhor lidar com eles. Al\u00e9m disso no mesmo per\u00edodo, ser\u00e1 coincid\u00eancia?, me formei, montei meu primeiro neg\u00f3cio e finalmente encontrei a minha cara metade.<\/p>\n<p>Passei uns bons anos sem pensar em an\u00e1lise. Tinha l\u00e1 uns pequenos ataques de ansiedade, mas tudo controlado. O tempo passou e senti a necessidade de voltar. Todas as noites de domingo para segunda eram passadas em claro e os ataques de ansiedade se repetiam cada vez com mais for\u00e7a.<\/p>\n<p>Voltei e agora, seis e meio depois, me dei alta. Provisoriamente, pelo menos. Consegui trabalhar com bastante esfor\u00e7o, junto com Isabel, no Rio, e com o Kleber, em BH, uma boa s\u00e9rie de quest\u00f5es. Ganhei mais autonomia e revi muitas das posi\u00e7\u00f5es que tinha na vida. A eles agrade\u00e7o imensamente pelo processo bem conduzido e pela, vamos deixar os formalismos de lado, amizade, ou transfer\u00eancia\/contra-transfer\u00eancia, se fizerem quest\u00e3o de manter o psicanalis\u00eas.<\/p>\n<p>Agora, esperando a minha primeira filha, decidi passar pelo seu nascimento sem an\u00e1lise. A ansiedade? Continua l\u00e1. Controlada Ou quase. Vez ou outra, como hoje, d\u00e1 seus picos, e os medos mais doidos surgem. Agora na vers\u00e3o pai. Ser\u00e1 que a minha filha ser\u00e1 ansiosa? Ser\u00e1 vou passar isso pra ela, seja genetica ou comportamentalmente? A minha ansiedade, como n\u00e3o podia deixar de ser, seguiu meu exemplo e gerou prole.<\/p>\n<p>N\u00e3o adianta fingir que ela n\u00e3o existe. Preciso lidar com ela. Sei que nunca vou me livrar, afinal ela \u00e9 constitutiva da minha personalidade. Muitas vezes, o pior nem \u00e9 o que sinto, mas como os outros lidam com o meu problema. &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o podia deixar pra l\u00e1? Por que voc\u00ea n\u00e3o consegue relaxar? Isso \u00e9 coisa da sua cabe\u00e7a&#8221;. E \u00e9 mesmo. Vejo alguns amigos depressivos passarem pelo mesmo e lamento que haja tanta incompreens\u00e3o sobre essas quest\u00f5es. Especialmente da parte de pessoas que simplesmente n\u00e3o assumiram que est\u00e3o passando pelo menos que n\u00f3s.<\/p>\n<p>Quando vejo esse tipo de rea\u00e7\u00e3o s\u00f3 lembro da extinta TV Pinel. A TV Pinel \u00e9 uma oficina no Instituto Philippe Pinel que ensina os pacientes a filmar, roteirizar e editar. Os programas gerados s\u00e3o muito legais. Lembro que eles curtiam especialmente gravar em pra\u00e7as p\u00fablicas expondo a quest\u00e3o da sa\u00fade mental aos ditos populares. Numa dessas eles foram \u00e0 pra\u00e7a do Largo do Machado e vestidos de m\u00e9dicos jogavam uma caixa onde se lia Loucura ao povo que os rodeava. O povo, curtindo a brincadeira, jogava a caixa de volta:<\/p>\n<p>&#8211; Ningu\u00e9m quer a loucura &#8211; os apresentadores da TV Pinel resumiam.<\/p>\n<p>Depois dessa pantomima, eles entrevistaram a popula\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea \u00e9 maluco?<br \/>\n&#8211; Eu? n\u00e3o!<br \/>\n&#8211; E voc\u00ea?<br \/>\n&#8211; Claro que n\u00e3o!<br \/>\n&#8211; E voc\u00ea? \u00c9 maluco?<br \/>\n&#8211; Eu sou- um dos populares entrou na brincadeira.- E voc\u00ea?<br \/>\n&#8211; Eu tamb\u00e9m sou- o entrevistador da TV Pinel declarou.- Mas estou controlado.<\/p>\n<p>E eu? Eu tamb\u00e9m, mas estou controlado. E voc\u00ea?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei se foi a primeira, mas, se n\u00e3o foi, me marcou como tal. Eu tinha entre 15 e 16 anos, estava em casa, de noite, sentado \u00e0 mesa de jantar assistindo TV. De repente, comecei a me sentir mal. 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