{"id":1079,"date":"2014-01-22T17:02:45","date_gmt":"2014-01-22T19:02:45","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=1079"},"modified":"2023-06-10T08:26:38","modified_gmt":"2023-06-10T11:26:38","slug":"o-armario-que-me-pariu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/o-armario-que-me-pariu\/","title":{"rendered":"O arm\u00e1rio que me pariu"},"content":{"rendered":"<p>Nat\u00e1lia e Alfredo caminhavam pelo p\u00f3lo moveleiro da cidade, em busca de m\u00f3veis para o quarto do beb\u00ea que chegaria em breve, quando, pela terceira ou quarta vez, Alfredo se tremeu todo. Nat\u00e1lia parou, largou a m\u00e3o do marido, apoiou as m\u00e3os nos quadris, empurrando a barriga da gravidez pra frente, e lhe mandou aquele olhar que ele j\u00e1 conhecia bem.<br \/>\n<!--more--><\/p>\n<p>&#8211; O que foi Nat? &#8211; ele tentou disfar\u00e7ar.<\/p>\n<p>&#8211; O que foi pergunto eu, Alfredo. Que tremeliques s\u00e3o esses? T\u00e1 doente?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, \u00e9 que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que&#8230; o qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; P\u00f4, fico com a maior vergonha de falar disso, mas acho que ainda n\u00e3o me recuperei do trauma que tive com um arm\u00e1rio de laca.<\/p>\n<p>&#8211; Arm\u00e1rio de laca?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9. De laca. Toda vez que vejo um, especialmente um daqueles bem branquinhos, tipo aquele al\u00ed, \u00f3, me d\u00e1 um tro\u00e7o- completou se tremendo todo.<\/p>\n<p>&#8211; Que neg\u00f3cio esquisito&#8230; Que trauma \u00e9 esse?<\/p>\n<p>&#8211; Se lembra que eu te contei que meus pais brigavam muito quando eu era pequeno. Antes da separa\u00e7\u00e3o, quero dizer.<\/p>\n<p>&#8211; Sei.<\/p>\n<p>&#8211; Bom, tem um momento cr\u00edtico dessa hist\u00f3ria que envolveu um arm\u00e1rio de laca. J\u00e1 te contei? N\u00e3o? Foi brabo. E o pior \u00e9 que depois nunca mais consegui olhar para um deles e ficar tranquilo.<\/p>\n<p>&#8211; Como foi isso?<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 em casa tinha um desses arm\u00e1rios- pausou e deu uma pequena tremida lembrando da situa\u00e7\u00e3o.- Era um daqueles arm\u00e1rios de botar pratos&#8230; Sabe? Daqueles que ficam na sala&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Uma cristaleira.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9, isso a\u00ed. Da\u00ed que o arm\u00e1rio tava bem velho. As portas n\u00e3o fechavam direito, as placas brancas tavam caindo e at\u00e9 um dos p\u00e9s tava quebrado. Meus pais naquela \u00e9poca j\u00e1 brigavam por qualquer motivo. O arm\u00e1rio todo estropiado no meio da sala se tornou mais um pretexto. Lembro que eles passaram a noite toda, do jantar at\u00e9 irem dormir, discutindo sobre o tal arm\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; O que tinha pra discutir? O arm\u00e1rio tava quebrado. Era s\u00f3 trocar.<\/p>\n<p>&#8211; Pois, \u00e9. Mas um dizia que tinha que consertar. O outro dizia que tinha que jogar fora. Cada uma dessas opini\u00f5es estava cheia de segundos, terceiros, mil\u00e9simos sentidos. &#8220;Ah, voc\u00ea quer jogar tudo fora. Pra voc\u00ea nada tem conserto&#8221;. &#8220;E voc\u00ea que fica investindo no que n\u00e3o tem jeito. Tem que mudar mesmo. Jogar fora. T\u00e1 cega?&#8221;. E assim por diante. A briga tava t\u00e3o quente que eles nem lembraram que eu estava al\u00ed no meio e foram dormir me deixando sozinho na sala. A\u00ed fiquei s\u00f3 eu e o tal arm\u00e1rio. N\u00e3o sei o que me deu na hora, mas eu n\u00e3o conseguia sair dal\u00ed.<\/p>\n<p>&#8211; Como assim? Voc\u00ea ficou al\u00ed parado?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9. Parecia que se eu salvasse aquele arm\u00e1rio, eu salvaria o casamento dos meus pais. Fiquei parado, torcendo pra ele n\u00e3o quebrar, mas sem saber o que fazer. Tudo o que eu podia fazer era esperar que tudo voltasse ao normal. Que o arm\u00e1rio se salvasse, que meus pais parassem de brigar.<\/p>\n<p>&#8211; Ai, que barra!<\/p>\n<p>&#8211; Pois, \u00e9. A\u00ed eu fui l\u00e1, sentei na mesa de jantar e passei a noite toda acordado vigiando o arm\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; A noite toda?<\/p>\n<p>&#8211; Quase, n\u00e9? Eu era pequeno. Acabei dormindo.<\/p>\n<p>&#8211; Ai, que triste.<\/p>\n<p>&#8211; Calma que piora.<\/p>\n<p>&#8211; Piora?<\/p>\n<p>&#8211; \u00d4! Como eu disse, dormi com a cabe\u00e7a apoiada na mesa de jantar. Acordei com o maior torcicolo e quando fui ver como estava o arm\u00e1rio, ele tinha sumido.<\/p>\n<p>&#8211; Sumido?<\/p>\n<p>&#8211; Sumido.<\/p>\n<p>&#8211; E o que seus pais disseram?<\/p>\n<p>&#8211; Nada.<\/p>\n<p>&#8211; Nada?<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9. Tava aquele buraco no meio da sala. Aquela falta aparente e eles tomando caf\u00e9 como se nada tivesse acontecido. Eles deram algum jeito no arm\u00e1rio antes que eu acordasse e n\u00e3o falaram nada. Eu, traumatizado, nem me liguei de perguntar.<\/p>\n<p>&#8211; Que chato.<\/p>\n<p>&#8211; Pois, \u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; E a\u00ed, ent\u00e3o, eles se separaram?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o&#8230; demorou mais uns anos.<\/p>\n<p>-Ah, fala s\u00e9rio! Ent\u00e3o esse lance do &#8220;trauma&#8221; \u00e9 um tanto de frescura da sua parte, n\u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; P\u00f4, deixa de ser insens\u00edvel, mulher. Aquele foi o \u00faltimo momento em que achei que podia salvar a minha fam\u00edlia. Impedir que meus pais se separassem. E eu falhei. At\u00e9 hoje isso me incomoda.<\/p>\n<p>&#8211; E, por isso&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E por isso eu n\u00e3o me dou bem com arm\u00e1rios de laca.<\/p>\n<p>Nat\u00e1lia olhou para Alfredo com um meio sorriso.<\/p>\n<p>&#8211; O que foi Nat?<\/p>\n<p>Nat\u00e1lia o agarrou pela m\u00e3o e come\u00e7ou a pux\u00e1-lo em dire\u00e7\u00e3o a uma das lojas de m\u00f3veis. Justamente aquela onde havia uma cristaleira de laca bem na frente.<\/p>\n<p>&#8211; P\u00e1ra, Nat- Alfredo tremia.- Respeita o meu trauma!<\/p>\n<p>&#8211; Respeito nada. Trauma \u00e9 pra gente confrontar.<\/p>\n<p>&#8211; Acho que n\u00e3o vou conseguir- ele seguia tremendo sendo puxado pela mulher.- P\u00e1ra, amor, pelo amor de Deus!<\/p>\n<p>Nat\u00e1lia n\u00e3o se abalou e continuou resoluta. Alfredo, agora, totalmente entregue, passava entre os outros pedestres de olhos fechados sendo puxado por Nat\u00e1lia gravid\u00edssima. Os tremores aumentaram e ele come\u00e7ou tamb\u00e9m a ficar enjoado. O mal estar crescia a cada passo at\u00e9 que ele se sentiu parar.<\/p>\n<p>&#8211; Ta\u00ed. Arm\u00e1rio, esse \u00e9 o Alfredo. Alfredo esse \u00e9 o arm\u00e1rio. &#8211; Nat\u00e1lia os apresentou.<\/p>\n<p>Alfredo abriu lentamente um olho, depois o outro e l\u00e1 estava ele em todo seu esplendor: o arm\u00e1rio de laca. Ele respirou fundo e n\u00e3o soube o que fazer. N\u00e3o tremia mais. N\u00e3o tinha vontade de sair correndo. Estava simplesmente calmo. O arm\u00e1rio que tanto o atemorizava parecia, al\u00ed, parado na sua frente, apenas o que ele realmente era: um arm\u00e1rio.<\/p>\n<p>Nat\u00e1lia se aproximou do arm\u00e1rio e come\u00e7ou a abrir uma de suas portas.<\/p>\n<p>&#8211; Vem, &#8211; ela convidou Alfredo- toca nele.<\/p>\n<p>Alfredo lenta e receosamente come\u00e7ou a aproximar a m\u00e3o do arm\u00e1rio. A estranha calma que tinha tomado conta dele deu sinais de fraquejar, mas ele persistiu. Encostou primeiro um dedo e sentiu a superf\u00edcie fria da laca. Depois, mais confiante, colocou a m\u00e3o aberta sobre o material.<\/p>\n<p>Nat\u00e1lia come\u00e7ou a abrir e fechar a porta do arm\u00e1rio como se fosse uma boca e, dublando-o, disse com voz de personagem de desenho animado:<\/p>\n<p>&#8211; Desculpe, Alfredo, a culpa da separa\u00e7\u00e3o dos seus pais n\u00e3o foi minha. Nem sua. Voc\u00ea me perdoa?<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*****<\/p>\n<p>Alfredo n\u00e3o ficou chateado com a brincadeira de Nat\u00e1lia. Muito pelo contr\u00e1rio. Ele riu da palha\u00e7ada dela e, depois de comprarem os m\u00f3veis, curtiram bastante o dia. Quando foi dormir, ele pegou no sono r\u00e1pido como h\u00e1 muito tempo n\u00e3o fazia.<\/p>\n<p>Nat\u00e1lia, por outro lado, n\u00e3o teve a mesma sorte. Depois de fritar um pouco na cama ela acabou dormindo, mas seu sonho foi terr\u00edvel.<\/p>\n<p>Ela estava na sala de casa e ouvia no corredor o som de algo se arrastando e riscando o ch\u00e3o. O som crescia e quando parecia vir de frente da porta de casa, ela ouviu 3 batidas. N\u00e3o eram batida normais. Era como se algo fosse atirado em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 porta. No sonho, ela se levantou e abriu a porta. Na sua frente uma enorme cristaleira branca de laca bloqueava a sua passagem. As portas da cristaleira abriam sozinhas e delas sa\u00eda um som que lembrava uma voz de mulher:<\/p>\n<p>&#8211; Oi, Nat\u00e1lia, o Alfredinho t\u00e1 a\u00ed?<\/p>\n<p>Nat\u00e1lia acordou gritando. Alfredo se levantou num pulo aturdido:<\/p>\n<p>&#8211; Tudo bem, amor? T\u00e1 sentindo alguma coisa?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o, tranquilo. Acho que tive um pesadelo.<\/p>\n<p>&#8211; Com o qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o lembro mas acho que tinha alguma coisa a ver com a sua m\u00e3e.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nat\u00e1lia e Alfredo caminhavam pelo p\u00f3lo moveleiro da cidade, em busca de m\u00f3veis para o quarto do beb\u00ea que chegaria em breve, quando, pela terceira ou quarta vez, Alfredo se tremeu todo. 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