{"id":10801,"date":"2026-04-26T07:18:01","date_gmt":"2026-04-26T10:18:01","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=10801"},"modified":"2026-04-26T07:18:01","modified_gmt":"2026-04-26T10:18:01","slug":"pai-mae-irma-irmao-e-outros-rituais-familiares-jarmuschianos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/pai-mae-irma-irmao-e-outros-rituais-familiares-jarmuschianos\/","title":{"rendered":"&#8220;Pai M\u00e3e Irm\u00e3 Irm\u00e3o&#8221; e outros rituais familiares Jarmuschianos"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-10802\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/FireShot-Capture-874-pcp7WGTKi75VboSqg9rtU1OYbTx.jpg-3840\u00d72160-image.tmdb_.org_.png\" alt=\"\" width=\"435\" height=\"585\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/FireShot-Capture-874-pcp7WGTKi75VboSqg9rtU1OYbTx.jpg-3840\u00d72160-image.tmdb_.org_.png 435w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/FireShot-Capture-874-pcp7WGTKi75VboSqg9rtU1OYbTx.jpg-3840\u00d72160-image.tmdb_.org_-223x300.png 223w\" sizes=\"(max-width: 435px) 100vw, 435px\" \/><\/p>\n<p>Jim Jarmusch, olha a ousadia!, entrou numas de afrontar Tolstoy. N\u00e3o, ele n\u00e3o discordou abertamente que todas as fam\u00edlias felizes se pare\u00e7am e que todas as infelizes o sejam das suas pr\u00f3prias maneiras. Ele apenas nos lembrou em <em>Pai, M\u00e3e, Irm\u00e3, Irm\u00e3o<\/em> que todas as fam\u00edlias s\u00e3o igualmente felizes e infelizes, e, portanto, todas se parecem, enquanto s\u00e3o, ao mesmo tempo, diferentes. Enfim, sem qualificativos, morais ou est\u00e9ticos, sua tese, h\u00e1 tese?, \u00e9 que, boas ou ruins, todas as fam\u00edlias apenas o s\u00e3o, fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Como em suas outras antologias de repeti\u00e7\u00e3o (<em>Coffee and Cigarretes, Night on Earth, Mistery Train, Paterson,<\/em> etc), ele abusa delicada e explicitamente dos elementos que tornam fam\u00edlias em fam\u00edlias: o Rolex ou presente misterioso; os livros (n\u00e3o) lidos ou (n\u00e3o) escritos; a depend\u00eancia financeira e a trapa\u00e7a; os pap\u00e9is conflituosamente harm\u00f4nicos; os segredos n\u00e3o contados mas que todos sabem; a enumera\u00e7\u00e3o das drogas e vergonhas; os brindes tortos e inadequados (enfim, \u00e9 poss\u00edvel brindar com \u00e1gua, ch\u00e1 ou caf\u00e9?); as teorias conspirat\u00f3rias sobre a \u00e1gua; as cores de roupas que se (des)combinam; e a inevit\u00e1vel pressa de encerrar o encontro que n\u00e3o era pra acontecer. Nesses pequenos detalhes se escondem o inc\u00f4modo das rela\u00e7\u00f5es distantes (no tempo e no espa\u00e7o), e \u00e9, tamb\u00e9m, ali que as suas similaridades brilham.<\/p>\n<p>J\u00e1 as diferen\u00e7as inescap\u00e1veis n\u00e3o se sobressaem no grandioso, mas disputam o mesmo espa\u00e7o de tristeza, ou alegria, nas pequenezas do cotidiano: no caf\u00e9, no ch\u00e1 e na \u00e1gua; nas hist\u00f3rias de forma\u00e7\u00e3o complicadas por\u00e9m geradoras de orgulho; no movimentar dos personagens pelas cadeiras e outros assentos; nas cidades e trajetos diferentes; nas variadas formas de lidar com o luto de rela\u00e7\u00f5es, com os parentes vivos e\/ou mortos, que n\u00e3o existem mais ou sobrevivem apenas ligadas a aparelhos ritual\u00edsticos.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, por mais inc\u00f4modo que essas situa\u00e7\u00f5es, ao mesmo tempo estranhas e familiares, gerem, nada muda, e os conflitos emergentes sempre acabam sendo abafados. Enquanto o mal-estar permanece, o desejo de liberdade da juventude, experimentado nostalgicamente pelos filhos j\u00e1 adultos- uma condi\u00e7\u00e3o que realmente muda a din\u00e2mica familiar de pais, m\u00e3es, filhos, irm\u00e3s e irm\u00e3os-, os persegue na forma de skatistas anarquistas em c\u00e2mera lenta, se movendo livremente por entre carros, compromissos, por entre o tempo e o espa\u00e7o, imunes \u00e0s responsabilidades que oprimem os ex-jovens.<\/p>\n<p>Ao fim de cada epis\u00f3dio familiar, sem conclus\u00f5es ou sentimentalismos, as portas simplesmente se fecham. As portas dos carros, das casas e dos armaz\u00e9ns s\u00e3o trancadas, provisoriamente, guardando hist\u00f3rias relembradas em rituais m\u00e1gicos que nada mudam na vida real.<\/p>\n<p>Como nas conversas sem fim de caf\u00e9s e cigarros, nas viagens de taxi para lugar nenhum em uma noite sobre a Terra, e\u00a0 no constante apitar do trem misterioso que une hist\u00f3rias num hotel em Memphis, em <em>Pai M\u00e3e Irm\u00e3 Irm\u00e3o<\/em> passamos, sem julgamento ou conclus\u00e3o, por apenas mais um encontro com, surpresa!, pais, m\u00e3es, e irm\u00e3os. Nada mais, nada menos. Exatamente o que deveria ser, exatamente o que \u00e9.<\/p>\n<p>Dever\u00edamos esperar algo diferente? Talvez de Tolstoy, mas n\u00e3o de Jarmusch, n\u00e3o de Jarmusch.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jim Jarmusch, olha a ousadia!, entrou numas de afrontar Tolstoy. 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