{"id":10814,"date":"2026-05-23T08:16:05","date_gmt":"2026-05-23T11:16:05","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=10814"},"modified":"2026-05-23T09:21:36","modified_gmt":"2026-05-23T12:21:36","slug":"erupcja-e-as-erupcoes-assexuais-suecas-quer-dizer-polonesas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/erupcja-e-as-erupcoes-assexuais-suecas-quer-dizer-polonesas\/","title":{"rendered":"Erupcja e as erup\u00e7\u00f5es (as)sexuais suecas, quer dizer, polonesas"},"content":{"rendered":"<p>Quando eu era adolescente, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, a est\u00e9tica er\u00f3tica, porn\u00f4, ou, como \u00e9 estranhamente chamada hoje, adulta era bem mais presente no nosso cotidiano. Apesar de a Internet ter dado mais capilaridade \u00e0 ind\u00fastria do sexo, desde \u00e0 gigantesca veicula\u00e7\u00e3o de obras audiovisuais at\u00e9 ao trabalho sexual remoto, ela ainda o faz de maneira voyeur\u00edstica, envergonhada ou academicamente moralizante, como algo que, sim , est\u00e1 presente na vida de todo mundo num vi\u00e9s sociol\u00f3gico, mas que n\u00e3o pode ser discutido abertamente no caso particular. J\u00e1 no final dos anos 70 e nos anos 80, o tal do &#8220;erotismo&#8221; era, mesmo que, ou por causa exatamente disso, machista e sob pesada censura p\u00f3s ditadura, assunto de sala de visita.<\/p>\n<p>Nossas casas, por exemplo, tinham nas mesas de caf\u00e9 revistas Playboy e Ele &amp; Ela, onde grandes nomes escreviam, como Carlos Heitor Cony e Ruy Castro; enquanto na TV as entradas das novelas e as propagandas exageravam nas imagens veladas ou ostensivas de mulheres nuas. Pra voc\u00ea ver, at\u00e9 o cinema er\u00f3tico era parte constitutiva e sem pudor das cidades, tanto nos cinemas especializados em ruas de grande circula\u00e7\u00e3o e nas bancas de jornal, como nas salinhas separadas por cortinas vermelhas das videolocadoras.<\/p>\n<p>O que estava no auge na minha adolesc\u00eancia eram as produ\u00e7\u00f5es do John Stagliano, o Buttman, que &#8220;criou&#8221; uma est\u00e9tica pseudo realista de uma c\u00e2mera na m\u00e3o (em POV) e um bando de ideias maliciosas na cabe\u00e7a, que domina muito do que chamamos de reality TV at\u00e9 hoje em dia. Por\u00e9m, na contram\u00e3o desses modismos, um grande amigo, quase esteta, s\u00f3 curtia produ\u00e7\u00f5es alem\u00e3es e n\u00f3rdicas do final dos anos 70. Na sua cole\u00e7\u00e3o particular de VHS, o que figurava eram basicamente os filmes suecos, na \u00e9poca, uma esp\u00e9cie de sin\u00f4nimo de porn\u00f4, mas ele fazia concess\u00f5es para algumas produ\u00e7\u00f5es americanas com est\u00e9tica similar como Garganta Profunda, o Diabo em Miss Jones e Atr\u00e1s da Porta Verde.<\/p>\n<div id=\"attachment_10815\" style=\"width: 827px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-10815\" class=\"wp-image-10815 size-full\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/FireShot-Capture-890-3XOR2ZU25RK5XKVZRSPB6XDUVE.jpg-1600\u00d7900-www.thedailybeast.com_.png\" alt=\"\" width=\"817\" height=\"553\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/FireShot-Capture-890-3XOR2ZU25RK5XKVZRSPB6XDUVE.jpg-1600\u00d7900-www.thedailybeast.com_.png 817w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/FireShot-Capture-890-3XOR2ZU25RK5XKVZRSPB6XDUVE.jpg-1600\u00d7900-www.thedailybeast.com_-300x203.png 300w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/FireShot-Capture-890-3XOR2ZU25RK5XKVZRSPB6XDUVE.jpg-1600\u00d7900-www.thedailybeast.com_-768x520.png 768w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/FireShot-Capture-890-3XOR2ZU25RK5XKVZRSPB6XDUVE.jpg-1600\u00d7900-www.thedailybeast.com_-624x422.png 624w\" sizes=\"(max-width: 817px) 100vw, 817px\" \/><p id=\"caption-attachment-10815\" class=\"wp-caption-text\">Absolute (erotic) Cinema<\/p><\/div>\n<p>Todos esses filmes, se forem vistos hoje, n\u00e3o poderiam ser chamados de porn\u00f4. N\u00e3o s\u00e3o produ\u00e7\u00f5es infantilizadas com sexo, nem flertam com os Snuff Movies, mas sim obras meio depr\u00ea, bem existencialistas, com discuss\u00f5es psicanal\u00edticas que desembocam em cenas de sexo mezzo expl\u00edcitas, mezzo veladas.<\/p>\n<p>Ontem, fui assistir a Erupcja e me senti assistindo a exatamente um filme porn\u00f4, er\u00f3tico, adulto, que seja, sueco dos anos 70. S\u00f3 que sem sexo.<\/p>\n<p>Na obra curtinha de Pete Ohs, Charli XCX, num papel perfeito pra sua figura de popstar pseudo (as)sexualizada, \u00e9 Bethany, uma jovem inglesa, que viaja para Vars\u00f3via com o namorado que pretende pedi-la em casamento na cidade que seria mais rom\u00e2ntica que Paris(?). Mal sabe ele que, cheia de d\u00favidas, sua quase noiva quer mesmo \u00e9 reencontrar uma amiga de adolesc\u00eancia com a qual mant\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o explosiva que toda vez que se encontram vulc\u00f5es irrompem pelo mundo.<\/p>\n<div id=\"attachment_10816\" style=\"width: 1042px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-10816\" class=\"size-full wp-image-10816\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/FireShot-Capture-891-dfoeaH5k9dBi9PZdHCQ6znrQJHp.jpg-1485\u00d7835-image.tmdb_.org_.png\" alt=\"\" width=\"1032\" height=\"581\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/FireShot-Capture-891-dfoeaH5k9dBi9PZdHCQ6znrQJHp.jpg-1485\u00d7835-image.tmdb_.org_.png 1032w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/FireShot-Capture-891-dfoeaH5k9dBi9PZdHCQ6znrQJHp.jpg-1485\u00d7835-image.tmdb_.org_-300x169.png 300w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/FireShot-Capture-891-dfoeaH5k9dBi9PZdHCQ6znrQJHp.jpg-1485\u00d7835-image.tmdb_.org_-1024x576.png 1024w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/FireShot-Capture-891-dfoeaH5k9dBi9PZdHCQ6znrQJHp.jpg-1485\u00d7835-image.tmdb_.org_-768x432.png 768w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/FireShot-Capture-891-dfoeaH5k9dBi9PZdHCQ6znrQJHp.jpg-1485\u00d7835-image.tmdb_.org_-624x351.png 624w\" sizes=\"(max-width: 1032px) 100vw, 1032px\" \/><p id=\"caption-attachment-10816\" class=\"wp-caption-text\">Amizade ou algo mais? Nem elas sabem. E precisamos saber?<\/p><\/div>\n<p>Como disse, a obra tem muito esse clima de filme sueco dos anos 70. Imagens granuladas, filtros coloridos, fotogramas de cores past\u00e9is, e met\u00e1foras freudianas banais para contar uma hist\u00f3ria curta de uma mulher que resiste a um casamento morno por uma amizade colorida(?) e estranha que nunca diz a que veio, mas que a anima mais do que qualquer compromisso com um rapaz bonzinho, mas bem chato, verdade, que lhe trata bem.<\/p>\n<p>O mais curioso do filme \u00e9 que, apesar de todo esse clima de trai\u00e7\u00e3o, nada acontece. As amigas n\u00e3o parecem ter uma rela\u00e7\u00e3o de fato, nem sexual nem afetiva, e s\u00f3 se utilizam para abandonar ciclicamente responsabilidades com namorados e namoradas, empregos e fam\u00edlia. A rela\u00e7\u00e3o que poderia ser er\u00f3tica e carregada de paix\u00e3o \u00e9 s\u00f3 funcional e fria, mas muito performativa.<\/p>\n<p>A est\u00e9tica \u00e9, como nos filmes suecos da minha adolesc\u00eancia, perfeita para o tema existencialista raso, s\u00f3 que sem o sexo. A falta do sexo \u00e9 tanta que a sua expectativa n\u00e3o concretizada ficou tanto tempo no ar que quando as luzes se acenderam no cinema, a meia d\u00fazia de f\u00e3s da Charli XCX na minha sess\u00e3o ficou sentada imobilizada, aguardando burocraticamente que uma cena p\u00f3s cr\u00e9ditos, como num filme de super her\u00f3is, fosse fazer explodir toda a sexualidade reprimida que ele promete mas n\u00e3o entrega. Ou talvez tudo seja s\u00f3 uma impress\u00e3o derivada de um v\u00edcio da minha cria\u00e7\u00e3o numa era hiper sexualizada que n\u00e3o faz mais sentido.<\/p>\n<p>Em vez de colocar essa falta de sexo na conta dos realizadores, dos espectadores, ou de uma deliberada escolha de evitar o male gaze, sa\u00ed do cinema lembrando dos curtas metragens de James Gunn, pr\u00e9 Guardi\u00f5es da Gal\u00e1xia e DCU, onde reinterpretava os tropos dos v\u00eddeos porn\u00f4 gonzo, combinando atores mainstream e adultos, mas retirando o sexo das narrativas. Como ele mesmo anunciava: &#8220;For People who love everything about Porn&#8230; except the Sex!&#8221;<\/p>\n<p><iframe title=\"Helpful Bus\" width=\"625\" height=\"352\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/aUUpcA_bt8Y?list=PLixliVo2szm-NaRRPcWnwS4zuiRtSN8IQ\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Erupcja, como os curtas de Gunn, mais do que uma obra audiovisual, \u00e9 um sintoma de uma era onde o sexo se tornou t\u00e3o ub\u00edquo que n\u00e3o significa mais nada. A emo\u00e7\u00e3o despertada, a paix\u00e3o, o tes\u00e3o est\u00e3o encobertos por filtros de cor pastel, sempre como uma promessa nunca cumprida. E, assim, no desespero existencial da falta de amor e emo\u00e7\u00e3o, nem o sexo pode nos salvar. Erupcja nos prova que, atr\u00e1s das portas verdes de hoje, encontraremos apenas quartos vazios onde ecoam discursos e an\u00e1lises moralizantes e sem paix\u00e3o sobre uma ideia de sexo que n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o existe mais como parece totalmente imposs\u00edvel de j\u00e1 ter existido. Os vulc\u00f5es dos VHS da minha adolesc\u00eancia, infelizmente(?), parecem ter se extinguido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando eu era adolescente, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, a est\u00e9tica er\u00f3tica, porn\u00f4, ou, como \u00e9 estranhamente chamada hoje, adulta era bem mais presente no nosso cotidiano. 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