{"id":10826,"date":"2026-05-24T10:01:30","date_gmt":"2026-05-24T13:01:30","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=10826"},"modified":"2026-05-24T10:02:01","modified_gmt":"2026-05-24T13:02:01","slug":"oei047-a-marketeira-produtificacao-das-editoras-e-a-desejada-comoditizacao-dos-livros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/oei047-a-marketeira-produtificacao-das-editoras-e-a-desejada-comoditizacao-dos-livros\/","title":{"rendered":"[oei#047] A marketeira produtifica\u00e7\u00e3o das editoras e a desejada comoditiza\u00e7\u00e3o dos livros"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-8774\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/O-EDITOR-INVISIVEL.png\" alt=\"\" width=\"1100\" height=\"220\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/O-EDITOR-INVISIVEL.png 1100w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/O-EDITOR-INVISIVEL-300x60.png 300w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/O-EDITOR-INVISIVEL-1024x205.png 1024w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/O-EDITOR-INVISIVEL-768x154.png 768w\" sizes=\"(max-width: 1100px) 100vw, 1100px\" \/><\/p>\n<p>Olhar para a evolu\u00e7\u00e3o das editoras \u00e9 acompanhar um retrato em movimento dos desafios e (tentativas de) solu\u00e7\u00f5es para as imanentes caracter\u00edsticas do livro enquanto produto. Inicialmente as editoras e as gr\u00e1ficas se confundiam, pois o diferencial na \u00e9poca era a simples capacidade de imprimir em larga escala. Com esse \u201cproblema\u201d resolvido, a press\u00e3o passou a ser o contato com o cliente final do livro, e as livrarias, com o dedo no pulso do mercado leitor, assumiram a fun\u00e7\u00e3o de curadoria e intermediadora de leitura. O mercado cresceu, assim como as op\u00e7\u00f5es de obras a publicar, e encontrar e desenvolver os melhores autores se tornou o ponto cr\u00edtico de neg\u00f3cios, fazendo com que os editores, quase como popstars, assumissem o papel principal na rela\u00e7\u00e3o comercial e empresarial do ciclo de vida do livro. Com o aumento da capilariza\u00e7\u00e3o da cadeia e canais de distribui\u00e7\u00e3o, as editoras precisaram se tornar intermedi\u00e1rias de produ\u00e7\u00e3o e log\u00edstica, organizando o meio de campo entre os rec\u00e9m surgidos agentes e os pontos de venda final. Esse crescimento cont\u00ednuo pediu uma clusteriza\u00e7\u00e3o das editoras e se formaram grandes conglomerados para melhor definir quais obras mereciam financiamento, quase como um mercado de a\u00e7\u00f5es, repleto de especula\u00e7\u00f5es e leil\u00f5es. Por\u00e9m nenhum desses movimentos conseguiu, at\u00e9 agora, resolver um dos maiores geradores de incerteza nos empreendimentos editoriais: a impossibilidade de comoditiza\u00e7\u00e3o do livro devida \u00e0 unicidade das obras.<\/p>\n<p>O mercado editorial sempre precisa lidar com uma grande incerteza na expectativa de acolhimento de seus produtos. Por mais que tenham caracter\u00edsticas f\u00edsicas comuns e mesmo que os conte\u00fados possam ter rela\u00e7\u00f5es de semelhan\u00e7a, \u00e9 praticamente imposs\u00edvel definir com um grau confi\u00e1vel o sucesso de uma empreitada editorial. \u00d3bvio que determinadas efem\u00e9rides, a obrigatoriedade de algumas leituras e a fama de certos autores aumentam a precis\u00e3o da an\u00e1lise do risco dos investimentos, mas n\u00e3o s\u00e3o suficientes para dar seguran\u00e7a a um mercado repleto de sucessos surpreendentes e fracassos idem. Sem poder se fiar em tend\u00eancias ou nos acertos passados como previs\u00e3o de comportamentos futuros, o mercado do livro vive sempre a um passo tanto da gl\u00f3ria como do fracasso.<\/p>\n<p>Com a revolu\u00e7\u00e3o da internet, pudemos mapear com mais clareza os movimentos de leitores em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 compra das obras e at\u00e9 da sua rela\u00e7\u00e3o com os conte\u00fados. Com acesso a esses dados, se abriu toda uma possibilidade de estudos que prometiam aumentar a nossa compreens\u00e3o do que iria vender mais ou menos, e de como melhor moldar o comportamento do p\u00fablico leitor. Por\u00e9m, mesmo com tanta informa\u00e7\u00e3o, s\u00f3 refor\u00e7amos a nossa percep\u00e7\u00e3o de como o leitor \u00e9 indom\u00e1vel e muda de comportamentos e interesses ao sabor do vento das p\u00e1ginas viradas.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos tempos, um movimento crescente come\u00e7ou a dar sinais de poder resolver (ou, ao menos, endere\u00e7ar) esse problema. Enquanto as maiores editoras se tornaram grandes empresas de financiamento voltadas ao p\u00fablico de massa, focadas na distribui\u00e7\u00e3o de seus or\u00e7amentos entre diversos t\u00edtulos e selos, e tratando os livros como apostas num ambiente pulverizado e em constante contra\u00e7\u00e3o, um bom n\u00famero de pequenas e m\u00e9dias editoras, livres dessas obriga\u00e7\u00f5es financeiras, decidiram se comprometer de corpo e alma com seus mercados de nicho e se tornaram elas mesmas produtos.<\/p>\n<p>Em vez de focar na constru\u00e7\u00e3o de pipelines e funis de vendas otimizados, essas editoras escolheram fortalecer suas marcas e se tornar os centros de gravidade de comunidades cada vez mais espec\u00edficas. Isso as tornou n\u00e3o s\u00f3 as curadoras, produtoras ou viabilizadoras de projetos editoriais, mas tamb\u00e9m emblemas, cujo consumo entrega aos leitores algo que vai muito al\u00e9m de simples conte\u00fados: um peda\u00e7o de suas identidades.<\/p>\n<p>Estabelecendo caracter\u00edsticas brutalmente representativas e exclusivas em seus produtos, desde o design at\u00e9 a tem\u00e1tica, passando pelos pontos de relacionamento com autores, parceiros e leitores, essas editoras tornaram suas pr\u00f3prias marcas ativos que eclipsam (ou magnificam) as caracter\u00edsticas de suas obras individuais. Isso faz com que seus consumidores nem precisem l\u00ea-las para extrair valor da sua compra, pois o simples comprar e interagir com e sobre o conte\u00fado j\u00e1 se tornaram geradores de valor em si.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que paradoxalmente essa particulariza\u00e7\u00e3o do mercado, tratando a identidade da editora como o verdadeiro diferencial, \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o final para a ansiada comoditiza\u00e7\u00e3o do livro enquanto investimento? Ser\u00e1 que esse direcionamento \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o entre editora e leitor, no ambiente mais profundo da sua personalidade, permitir\u00e1 atingir um maior n\u00edvel de confiabilidade comercial em nossos projetos? Talvez isso n\u00e3o seja a resposta, mas, por enquanto, \u00e9 uma das que nos parece mais s\u00f3lidas, at\u00e9 que o pr\u00f3ximo desafio editorial d\u00ea as caras, dite as cartas e vire, como esperado, o nosso mercado de ponta cabe\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Olhar para a evolu\u00e7\u00e3o das editoras \u00e9 acompanhar um retrato em movimento dos desafios e (tentativas de) solu\u00e7\u00f5es para as imanentes caracter\u00edsticas do livro enquanto produto. Inicialmente as editoras e as gr\u00e1ficas se confundiam, pois o diferencial na \u00e9poca era a simples capacidade de imprimir em larga escala. 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