{"id":10941,"date":"2026-06-14T08:55:46","date_gmt":"2026-06-14T11:55:46","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=10941"},"modified":"2026-06-14T08:55:46","modified_gmt":"2026-06-14T11:55:46","slug":"oei49-a-leitura-como-conexao-nas-agoras-energeticas-do-comercio-do-livro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/oei49-a-leitura-como-conexao-nas-agoras-energeticas-do-comercio-do-livro\/","title":{"rendered":"[oei#49] A leitura como conex\u00e3o nas \u00e1goras energ\u00e9ticas do com\u00e9rcio do livro"},"content":{"rendered":"<p>Na minha adolesc\u00eancia, quando comecei a me interessar por tarot, tive a sorte de fazer amizade com uma menina que jogava baralho cigano. Ela morava com duas primas, uma tia, uma amiga, meio que refugiada dos pais, e a m\u00e3e, que, por acaso, era escritora, numa comunidade totalmente feminina e m\u00edstica. Toda vez que elas tiravam cartas para mim ou eu tirava cartas para elas, sempre insistiam em pagamento. Nem que fosse um real, ou, na \u00e9poca, cruzeiro.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 gan\u00e2ncia- explicavam. \u2014 Como eu fiz algo por voc\u00ea, e voc\u00ea, algo por mim, a energia precisa circular.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>#<\/strong><\/p>\n<p>No in\u00edcio da minha vida adulta passei por uma situa\u00e7\u00e3o financeira ruim e, por vergonha de pedir ajuda, precisei vender a minha biblioteca. Fui ao sebo Mar de Hist\u00f3rias que era perto de casa e ofereci meus livros.<\/p>\n<p>\u2014 O que voc\u00ea tem para vender? \u2013 o saudoso Marcelo Lachter me questionou.<\/p>\n<p>\u2014 De literatura tenho bastante Bukowski, Kerouac, Burgess, Borges, Burroughs; muita fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e fantasia, Sterling, Gibson, Tolkien, Lovecraft, King, Clarke, Asimov; quadrinhos at\u00e9 demais, de Marvel a DC, passando por um bando de independentes, Miller, Moore, Eisner, Morrison, Manara, Bilal, Pazienza; uma boa leva de biografias pol\u00edticas estrangeiras, Kennedy, Nixon e afins; al\u00e9m de uma penca de RPG e as obras completas de Freud.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00e9rio?<\/p>\n<p>\u2014 S\u00e9rio.<\/p>\n<p>Marcamos uma data e ele foi junto com Maur\u00edcio Gouveia para inspecionar a minha sele\u00e7\u00e3o. Lembro que a situa\u00e7\u00e3o foi t\u00e3o dif\u00edcil para mim que pedi a uma amiga para acompanhar o processo. Enquanto eles passavam o pente fino nas minhas estantes, eu pedia licen\u00e7a para ir chorar no quarto por estar perdendo o trabalho de uma vida (de 25 anos, mas ainda assim).<\/p>\n<p>Eles ofereceram um valor que considerei justo, eu aceitei sem regatear e meus livros foram viver em outro lugar sem mim.<\/p>\n<p>Quando minha situa\u00e7\u00e3o financeira melhorou, comecei a visitar a Mar de Hist\u00f3rias para tentar recuperar parte da minha cole\u00e7\u00e3o. Levava, quando poss\u00edvel, alguns amigos para que eles tamb\u00e9m levassem peda\u00e7os de mim para as suas estantes. Nessas visitas os la\u00e7os entre mim, Marcelo e Maur\u00edcio se estreitavam a cada papo e compra.<\/p>\n<p>No fim do ano, Marcelo me convidou para tomar um caf\u00e9 e me ofereceu uma sociedade com ele e o Maur\u00edcio na livraria que se tornaria a Baratos da Ribeiro. Aceitei, mas n\u00e3o deixei de querer saber o porqu\u00ea dessa honra:<\/p>\n<p>\u2014 Nunca compramos uma biblioteca t\u00e3o boa e ecl\u00e9tica como a sua. Era como se voc\u00ea j\u00e1 gerenciasse uma livraria em casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>#<\/strong><\/p>\n<p>Depois de vender minha parte na Baratos e passar alguns anos como empreendedor no mercado de treinamento e desenvolvimento, me deu a louca e resolvi abrir um novo sebo. Era o que eu amava, n\u00e3o? Nada mais \u00f3bvio que devotar, mesmo com dificuldade, a minha vida ao que realmente me tornava completo. Assim nasceu o Le Bon Sebon.<\/p>\n<p>E quanta dificuldade. Mesmo num ponto que prometia ser bom, numa \u00e1rea rica e cultural da cidade, por conta de v\u00e1rios erros em premissas do nosso planejamento e por uma boa quantidade de azar, falimos em menos de um ano. Quando tomei a decis\u00e3o derradeira de fechar a livraria, chamei novamente o Marcelo para comprar o nosso estoque e tentar reduzir o nosso preju\u00edzo. Dessa vez n\u00e3o chorei, mas sofri da mesma forma.<\/p>\n<p>Depois de fecharmos o neg\u00f3cio, mais uma vez justo e sem regatear, Marcelo me abra\u00e7ou e me disse:<\/p>\n<p>\u00ad\u2014 \u00c9 um prazer ter comprado duas bibliotecas t\u00e3o boas de voc\u00ea, e uma honra que voc\u00ea tenha me escolhido para acolh\u00ea-las.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>#<\/strong><\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, abandonei o com\u00e9rcio de livros como vendedor e me tornei apenas n\u00e3o um consumidor, palavra que eu odeio, mas um cliente, ou, melhor, um fregu\u00eas contumaz. Mais do que um comprador, sou um frequentador de livraria, o proverbial chato que cola no balc\u00e3o falando mal e bem das mercadorias, ou, nos termos mais populares, um rato de sebo.<\/p>\n<p>Frequento regularmente as livrarias no entorno da casa e do trabalho, conhe\u00e7o os livreiros pelo nome e, em alguns casos, eles tamb\u00e9m conhecem o meu e o(s) meu(s) gosto(s). \u00a0N\u00e3o \u00e9 raro que receba mensagens por e-mail e whatsapp deles sobre lan\u00e7amentos ou descobertas que podem me interessar. E, em geral, est\u00e3o certos.<\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o, essa troca de energia, \u00e9 algo que as redes sociais e livrarias digitais tentam construir, mas ainda n\u00e3o chegaram l\u00e1. As editoras montam clubes de livro online sobre suas obras para construir essas conex\u00f5es, mas essas tentativas formais n\u00e3o conseguem (ainda) capturar a organicidade do papo em p\u00e9 entre os livros e nem reproduzir o encontro fortuito entre antigos conhecidos que buscavam a mesma obra ou novos, futuros amigos que, ouvindo os papos um e do outro, descobriram ter um gosto similar.<\/p>\n<p>Essas \u00e1goras digitais erram no humano quando tentam acertar no comercial. As livrarias e editoras precisam, sim, vender para manter suas sustentabilidades financeiras, mas esquecem que a conex\u00e3o que eles geram \u00e9 o verdadeiro objetivo dessa transa\u00e7\u00e3o comercial.<\/p>\n<p>A conex\u00e3o com o autor, com o qual, concordando ou discordando, nos maravilhamos pela qualidade da sua prosa, das suas ideias, de seus argumentos ou da sua sensibilidade. A conex\u00e3o com os outros leitores que tornam o espa\u00e7o f\u00edsico ou virtual um ponto de encontro; com os livreiros que se tornam nossos mentores e sparrings intelectuais; e com os pr\u00f3prios livros que, como tesouros cheios de mist\u00e9rios, capturam nossas expectativas e nossa admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim, toda vez que vou a uma livraria, como se estivesse jogando tarot na minha adolesc\u00eancia, ou vendendo ou comprando bibliotecas, fa\u00e7o sempre, por menor que seja, uma troca energ\u00e9tica e comercial. E, como um S\u00edsifo feliz camusiano, continuo no cont\u00ednuo exerc\u00edcio de reconstruir a minha biblioteca que um dia ser\u00e1, por minha vontade ou n\u00e3o, mais uma vez desconstru\u00edda.<\/p>\n<p>Uma biblioteca de livros, uma biblioteca de energias e rela\u00e7\u00f5es. Uma biblioteca que se expande, como um rizoma, entre todos aqueles que amam os livros e a humanidade. Uma biblioteca infinita quase borgesiana que se sustenta nas rela\u00e7\u00f5es que se formam entre os que escrevem, os que editam, os que vendem, os que compram, os que leem e os que revendem os livros de suas bibliotecas aos sebos para manter em constante fluxo essa fant\u00e1stica energia libidinal e editorial da leitura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na minha adolesc\u00eancia, quando comecei a me interessar por tarot, tive a sorte de fazer amizade com uma menina que jogava baralho cigano. Ela morava com duas primas, uma tia, uma amiga, meio que refugiada dos pais, e a m\u00e3e, que, por acaso, era escritora, numa comunidade totalmente feminina e m\u00edstica. 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