{"id":1104,"date":"2014-01-26T20:35:36","date_gmt":"2014-01-26T22:35:36","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=1104"},"modified":"2014-09-26T08:27:12","modified_gmt":"2014-09-26T11:27:12","slug":"lendo-boa-literatura-ruim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/lendo-boa-literatura-ruim\/","title":{"rendered":"Lendo boa literatura ruim"},"content":{"rendered":"<p>Quando era um pr\u00e9 adolescente sem nada pra fazer, costumava passar boa parte das f\u00e9rias num s\u00edtio de um amigo meu. Entre pescar de peneira nos c\u00f3rregos da regi\u00e3o, invadir os s\u00edtios alheios para tomar banho nas suas piscinas e jogar RPG pelas madrugadas, sobrava muito tempo. Como n\u00e3o havia internet, essa m\u00e1quina que te impede de ficar entediado, mas s\u00f3 te distrai, era necess\u00e1rio inventar o que fazer. Quando as inven\u00e7\u00f5es se esgotavam, a\u00ed \u00e9 que as coisas ficavam interessantes.<!--more--><\/p>\n<p>Uma dessas vezes, quando as inven\u00e7\u00f5es j\u00e1 tinham terminado, e, vencidos, ouv\u00edamos as mel\u00f4s de sucesso na R\u00e1dio Mundial, enquanto \u00e9ramos jantados por muri\u00e7ocas, percebi que o av\u00f4 do meu amigo estava sendo na mesma cadeira de balan\u00e7o h\u00e1 mais de uma hora com um livrinho nas m\u00e3os:<\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed, o que teu v\u00f4 t\u00e1 lendo?<br \/>\n&#8211; Ah, sei l\u00e1- meu amigo respondeu enquanto tentava matar o tempo e um mosquito simultaneamente.- Deve ser um dos livros de faroeste dele.<br \/>\n&#8211; Livro de faroeste? S\u00f3 achei que tivesse filme de faroeste.<br \/>\n&#8211; Ah, sei l\u00e1, \u00e9 um tro\u00e7o de velho a\u00ed- ele finalmente matou o mosquito e acabou com sua distra\u00e7\u00e3o.- Pergunta pra ele se quiser.<\/p>\n<p>Segui o seu conselho e eu perguntei.<\/p>\n<p>&#8211; Seu Ernani, que livro \u00e9 esse a\u00ed?<br \/>\n&#8211; S\u00e3o umas historinhas de faroeste.<br \/>\n&#8211; \u00c9? Mas por que \u00e9 um livro t\u00e3o pequeno?<br \/>\n&#8211; S\u00e3o uns livros que vendem em banca. O papel \u00e9 pior, mas as capas s\u00e3o bem legais. Al\u00e9m de faroeste tem tamb\u00e9m policiais, de espionagem, de um bando de coisas. Hist\u00f3rias pra homem. Nada desses romances a\u00ed que as velhas l\u00eaem. Olha s\u00f3.<\/p>\n<p>Ele abriu um arm\u00e1rio do lado da sua cadeira e l\u00e1 estavam lotes de livrinhos.<\/p>\n<p>&#8211; Toma esse aqui. Voc\u00ea vai gostar.<\/p>\n<p>De noite, depois do RPG regulamentar, fui pro meu quarto, acendi o abajour, peguei o livro e li. Do come\u00e7o a fim. A hist\u00f3ria era banal, mas bem divertida. Um cowboy salvava uma mo\u00e7a de um assalto a uma dilig\u00eancia. O pai dela, que era o prefeito da cidade, oferecia ao her\u00f3i uma recompensa para livrar a cidade do bando de ladr\u00f5es. Ele aceitava e depois de desbaratar parte da quadrilha tinha que se livrar do chefe dela: o noivo da mo\u00e7a que resgatou. Ap\u00f3s um duelo ao amanhecer na rua principal da cidade, o nosso her\u00f3i ganhava a recompensa e junto com a mo\u00e7a ia embora em uma dilig\u00eancia. Mesmo na \u00e9poca deu pra perceber que tinha umas insinua\u00e7\u00f5es de sacanagem e tudo. Viol\u00eancia e sexo em menos de 100 p\u00e1ginas de papel ruim. Pra qu\u00ea pulp fiction se a gente tinha uma editora como a Monterrey no Brasil?<\/p>\n<p>Depois desse primeiro, confesso, peguei um certo v\u00edcio. Li diversos nessa viagem e comecei a comprar esporadicamente. Lembro especialmente um da cole\u00e7\u00e3o FBI em que o agente e protagonista da hist\u00f3ria espancava um sujeito no meio da rua e explicava por que tamanha viol\u00eancia gratuita:<\/p>\n<p>&#8211; T\u00e1 vendo esse distintivo aqui? Ele diz que eu posso bater em que eu quiser, na hora em que eu quiser, onde eu quiser, sem precisar dar explica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Paradoxal, n\u00e3o? Depois falam que \u00e9 subliteratura.<\/p>\n<p>Os anos passaram, a minha frequ\u00eancia de leitura dessa boa m\u00e1 literatura diminuiu, mas quando, em 1997 me mudei pra Tijuca, fiquei sabendo que a Monterrey era perto l\u00e1 de casa e, claro, fui obrigado a fazer uma visita. Era uma casa velha e aparentemente abandonada. Apertei a campanhia. N\u00e3o ouvi nada. Esperei um pouco e, depois de me convencer que a campanhia estava quebrada, bati palmas.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d4 de casa!- falei sem saber direito como me portar.<\/p>\n<p>Numa janela apareceu um velho sem camisa:<\/p>\n<p>&#8211; O que voc\u00ea quer?<br \/>\n&#8211; Aqui \u00e9 a editora Monterrey?<br \/>\n&#8211; \u00c9. O que voc\u00ea quer?<br \/>\n&#8211; Sei l\u00e1. Queria visitar.<br \/>\n&#8211; Visitar?<\/p>\n<p>O velho fez uma cara de surpresa mas abriu a porta pra mim. N\u00e3o era bem uma editora. Como ele me explicou era mais um deposito. N\u00e3o produziam mais hist\u00f3rias novas (l\u00e1 se foi a minha esperan\u00e7a de publicar pela Monterrey) e s\u00f3 reeeditavam as antigas. Mas mesmo naquele \u00e9poca, ele me disse que o neg\u00f3cio n\u00e3o ia bem. Frente \u00e0quela pequena desilus\u00e3o, agradeci o passeio e me despedi. O velho me acompanhou at\u00e9 a porta, mas antes de eu ir ele tinha uma surpresa pra mim:<\/p>\n<p>&#8211; Espera s\u00f3 um momentinho.<\/p>\n<p>Ele sumiu num dos quartos da casa e voltou com uma caixa de livrinhos.<\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed, pra voc\u00ea.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o precisa.<br \/>\n&#8211; Me desculpe, se voc\u00ea se dignou a visitar a gente deve merecer mais do que qualquer um. Nunca veio ningu\u00e9m aqui.<\/p>\n<p>Levei aquele pacote pra casa e devorei durante um fim de semana. Os anos passaram e s\u00f3 me lembrei dos livros da Monterrey duas vezes.<\/p>\n<p>A primeira foi quando o av\u00f4 do meu amigo do s\u00edtio morreu.<\/p>\n<p>&#8211; P\u00f4, meus p\u00easames, cara- tentei lhe consolar.<br \/>\n&#8211; Valeu!<br \/>\n&#8211; Posso te fazer uma pergunta?<br \/>\n&#8211; Claro.<br \/>\n&#8211; O que aconteceu com os livros de faroeste do teu av\u00f4.<br \/>\n&#8211; Tu t\u00e1 de sacanagem, n\u00e9?<\/p>\n<p>\u00d3bvio que deixei o assunto pra l\u00e1.<\/p>\n<p>A segunda foi no final do ano passado. Estava numa banca de jornal quando de repente me bateu uma nostalgia dos bolsilivros da Monterrey. Perguntei por eles e a mo\u00e7a da banca nem sabia do que se tratava. Quando tentei explicar, ela me mostrou uns livros de romance medieval. Aquelas tradu\u00e7\u00f5es da Arlequin Books. Nem Sabrina ou J\u00falia pareciam existir mais. Sa\u00ed da banca triste. Num mundo onde 50 tons de cinza e auto ajuda disfar\u00e7ado de romance vendem aos montes, n\u00e3o se faz mais boa literatura ruim. At\u00e9 pra isso \u00e9 preciso uma excel\u00eancia que n\u00e3o existe mais. S\u00f3 pra fazer coro, deve ser culpa da Internet.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando era um pr\u00e9 adolescente sem nada pra fazer, costumava passar boa parte das f\u00e9rias num s\u00edtio de um amigo meu. Entre pescar de peneira nos c\u00f3rregos da regi\u00e3o, invadir os s\u00edtios alheios para tomar banho nas suas piscinas e jogar RPG pelas madrugadas, sobrava muito tempo. 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