{"id":1166,"date":"2014-03-06T18:36:33","date_gmt":"2014-03-06T21:36:33","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=1166"},"modified":"2014-03-06T18:36:33","modified_gmt":"2014-03-06T21:36:33","slug":"sindrome-de-estocolmo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/sindrome-de-estocolmo\/","title":{"rendered":"S\u00edndrome de Estocolmo"},"content":{"rendered":"<p>Ela nos acorda no meio da noite. Mais uma vez.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 sua vez ou \u00e9 minha?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o sei, ser\u00e1 que ela mamou na \u00faltima?<\/p>\n<p>Discutimos tentando fazer a mem\u00f3ria engrenar enquanto o seu choro aumenta de volume. N\u00e3o tem jeito. N\u00e3o vamos nos lembrar. Nunca. Desistimos. Para decidir s\u00f3 nos resta o par ou \u00edmpar. Um, dois, tr\u00eas, J\u00e1!<\/p>\n<p>&#8211; Quem vai? Quem ganhou ou quem perdeu?<\/p>\n<p>N\u00e3o sabemos, n\u00e3o lembramos.<!--more--><\/p>\n<p>&#8211; Traz ela aqui. Deve ser leite- finalmente a sabedoria impera.<\/p>\n<p>Eu vou l\u00e1. No ber\u00e7o, de olhos abertos, ela chora. Ao me ver p\u00e1ra. Fico um momento em choque tentando lembrar o que fui fazer al\u00ed. Ela chora e me lembra.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 pegou ela?<br \/>\n&#8211; Ainda n\u00e3o. J\u00e1 vou pegar.<\/p>\n<p>Eu a tiro do ber\u00e7o e atravesso o curt\u00edssimo corredor a ninando. Os gritos param. Deve ser a atencipa\u00e7\u00e3o pelo leite. Entrego pra m\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8211; U\u00e9? Ela t\u00e1 dormindo?<\/p>\n<p>Inacreditavelmente, todo o desespero foi resolvido em doze simples passos no escuro. Ela dorme linda como um anjo.<\/p>\n<p>&#8211; O que vamos fazer?<br \/>\n&#8211; Sei l\u00e1. Acordo ela pra mamar?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o sei. Tento botar pra dormir de novo?<br \/>\n&#8211; Tenta.<\/p>\n<p>Com ela nos bra\u00e7os, e ainda a sacudindo, atravesso os mesmos doze passos de volta. Quando chego no seu quarto, na escurid\u00e3o percebo seus olhos mais uma vez abertos. Na verdade, arregalados. Eles se comprimem e ela chora.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 botou ela no ber\u00e7o?!<br \/>\n&#8211; N\u00e3o deu tempo!<\/p>\n<p>Volto os doze passos pro quarto e a entrego mais uma vez para a m\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8211; Voltou a dormir?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o. Mas t\u00e1 quase. Vou amamentar assim mesmo. Se ela n\u00e3o quiser, vai negar.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o nega e, mesmo com os olhos fechados, mama. E mama. E mama mais um pouco.<\/p>\n<p>Eu tento esperar a mama\u00e7\u00e3o terminar, mas o corpo cansa e me deito.<\/p>\n<p>&#8211; Dorme.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o. Quero te ajudar.<br \/>\n&#8211; Voc\u00ea n\u00e3o tem como me ajudar agora.<br \/>\n&#8211; Me chama quando ela terminar? Eu ponho pra arrotar.<br \/>\n&#8211; Tem certeza? N\u00e3o quer descansar?<br \/>\n&#8211; Querer, eu quero, mas prefiro ajudar.<br \/>\n&#8211; T\u00e1 bom.<\/p>\n<p>Eu durmo.<\/p>\n<p>Acordo com ela chorando. Sozinho na cama.<\/p>\n<p>Vou at\u00e9 o quarto dela e encontro a m\u00e3e a ninando.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea disse que ia me avisar&#8230;<br \/>\n&#8211; Mas achei que n\u00e3o fosse precisar. Voc\u00ea est\u00e1 t\u00e3o cansado.<br \/>\n&#8211; Voc\u00ea tamb\u00e9m.<br \/>\n&#8211; \u00c9, mas n\u00e3o vou trabalhar amanh\u00e3&#8230;<br \/>\n&#8211; E quem disse que ficar com ela n\u00e3o \u00e9 trabalho?<br \/>\n&#8211; Verdade.<br \/>\n&#8211; D\u00e1 ela aqui e vai descansar.<br \/>\n&#8211; T\u00e1 bom.<br \/>\n&#8211; Ela j\u00e1 arrotou?<br \/>\n&#8211; Sabe que eu n\u00e3o lembro? Arrotou? N\u00e3o sei.<br \/>\n&#8211; T\u00e1, vai descansar.<\/p>\n<p>Ficamos eu e ela sozinhos. Come\u00e7o a cantar uma m\u00fasica inventada. Passeio pela casa e vez ou outra passo em frente a um espelho para checar. Olhos abertos. Fechando. Fechando. Opa, fechou. \u00capa, alarme falso. Fechou. Acho que agora \u00e9 a hora.<\/p>\n<p>Checo o rel\u00f3gio do r\u00e1dio e fa\u00e7o a supersti\u00e7\u00e3o a qual concedo ares de ci\u00eancia: espero 5 minutos com ela quieta at\u00e9 coloc\u00e1-la no ber\u00e7o. Para que as ondar REM de sono se estabilizem, voc\u00ea sabe, ou qualquer explica\u00e7\u00e3o pseudo cient\u00edfica que o valha. 1 minuto. 2. T\u00e1 passando r\u00e1pido. 2. 2. Meu Deus, quanto tempo&#8230; oba, 3 minutos. 4. Foi r\u00e1pido! Cin&#8230;Cin&#8230; cad\u00ea esse cinco. J\u00e1 deve ter dado at\u00e9 seis. Quando comecei a contar mesmo? Meu Deus, estou quase caindo aqui. Opa! 5.<\/p>\n<p>Com cuidado a coloco no ber\u00e7o. Ela reclama. Espero um momento para ver se tudo n\u00e3o passou de um alarme falso. Ela reclama mais um pouco, mas continua de olhos fechados. O plano \u00e9 a cubrir e sair do quarto, mas, antes, fico uns momentos a admirando. Ela resmunga mais e eu agrade\u00e7o por esse tempo adicional. E enfim fa\u00e7o o que tinha que fazer.<\/p>\n<p>Me deito. A m\u00e3e j\u00e1 dorme. Me movo na cama e ela acorda. Sono leve. Tal filha, tal m\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8211; Dormiu?<br \/>\n&#8211; Dormiu.<\/p>\n<p>Do quarto dela, um som. Esperamos calados. Reclama um pouco mas fica em sil\u00eancio. Esperamos. N\u00e3o chora. Pelo menos n\u00e3o por enquanto.<\/p>\n<p>&#8211; Agora vai dormir, voc\u00ea. Amanh\u00e3 voc\u00ea trabalha.<br \/>\n&#8211; T\u00e1.<\/p>\n<p>Deito e espero a m\u00e3e dormir. Mas eu mesmo n\u00e3o consigo. Quer dizer, n\u00e3o quero. Fico vigiando. Esperando qualquer barulho dela pra ir checar o que est\u00e1 acontecendo. Fa\u00e7o for\u00e7a at\u00e9 pra n\u00e3o dormir, mas finalmente sou vencido e durmo. Cabe\u00e7a dura. Tal filha, tal pai.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Ela nos acorda no meio da noite. Mais uma vez.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 sua vez ou \u00e9 minha?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o sei, ser\u00e1 que ela mamou na \u00faltima?<\/p>\n<p>Recome\u00e7a. E, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, essa \u00e9 uma das melhores partes do dia. Somos ref\u00e9ns, \u00e9 verdade, mas o que podemos fazer? H\u00e1 como n\u00e3o se apaixonar por uma sequestradora t\u00e3o linda?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ela nos acorda no meio da noite. Mais uma vez. &#8211; \u00c9 sua vez ou \u00e9 minha? &#8211; N\u00e3o sei, ser\u00e1 que ela mamou na \u00faltima? Discutimos tentando fazer a mem\u00f3ria engrenar enquanto o seu choro aumenta de volume. N\u00e3o tem jeito. N\u00e3o vamos nos lembrar. Nunca. Desistimos. 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