{"id":1168,"date":"2014-03-10T18:41:25","date_gmt":"2014-03-10T21:41:25","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=1168"},"modified":"2014-03-10T18:41:25","modified_gmt":"2014-03-10T21:41:25","slug":"o-primeiro-erro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/o-primeiro-erro\/","title":{"rendered":"O primeiro erro"},"content":{"rendered":"<p><em>Apesar de Papai querer acreditar no contr\u00e1rio, era inevit\u00e1vel. Um dia ia acontecer. E aconteceu.<\/em><\/p>\n<p><em>Numa manobra totalmente normal, no seu 34o. dia de vida, durante o seu banho, enquanto Papai lavava as suas costas, ele deixou seu rosto entrar lentamente dentro d&#8217;\u00e1gua. Ele mesmo, distra\u00eddo, conversando com voc\u00ea e fazendo aquelas vozes engra\u00e7adas, n\u00e3o percebeu o erro. Gra\u00e7as a Deus Mam\u00e3e estava perto e p\u00f4de alert\u00e1-lo:<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Cuidado! A nossa menina est\u00e1 com a cara dentro d&#8217;\u00e1gua!<!--more--><\/em><\/p>\n<p><em>Num \u00e1timo de segundo Papai a levantou. Voc\u00ea n\u00e3o chorava, n\u00e3o ria, n\u00e3o fazia nada; nada, nada, nada. Tamb\u00e9m n\u00e3o parecia respirar. Papai e Mam\u00e3e ficaram por dois segundos esperando alguma rea\u00e7\u00e3o da sua parte. Seus olhos se esbugalharam. Teria bebido \u00e1gua com sab\u00e3o? Teria entrado \u00e1gua no seu pulm\u00e3ozinho? Papai e Mam\u00e3e n\u00e3o sabiam.<\/em><\/p>\n<p><em>Aqueles segundos pareciam horas. Mam\u00e3e n\u00e3o resistiu: lhe tirou dos bra\u00e7os do Papai e come\u00e7ou a bater nas suas costas. Voc\u00ea tossiu. Gra\u00e7as a Deus.<\/em><\/p>\n<p><em>COF.COF.COF.<\/em><\/p>\n<p><em>E chorou.<\/em><\/p>\n<p><em>UnnnnnheeeeeEEEEE!<\/em><\/p>\n<p><em>Mam\u00e3e saiu do banheiro e come\u00e7ou a andar em c\u00edrculos pelo quarto tentando acalent\u00e1-la:<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Calma, meu amor. J\u00e1 passou, j\u00e1 passou.<\/em><\/p>\n<p><em>Papai a seguia, andando em c\u00edrculos. Sem saber o que fazer, ele s\u00f3 repetia:<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe.<\/em><\/p>\n<p><em>Voc\u00ea demorou, mas se acalmou. Mam\u00e3e tamb\u00e9m. Papai, n\u00e3o. Ele sabia ter cometido um erro. O primeiro. Um erro quase fatal. Assim repetia:<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe.<\/em><\/p>\n<p><em>Mam\u00e3e come\u00e7ou a lhe vestir e enquanto isso tentava acalmar o papai:<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Acontece, querido. \u00c9 s\u00f3 tomar cuidado. N\u00e3o foi nada demais.<\/em><\/p>\n<p><em>Papai n\u00e3o quis discutir, mas ele sabia que podia ser algo. Algo al\u00e9m de demais. Circundando o ber\u00e7o, ele buscava os seus olhos para ver se havia medo, \u00f3dio, ou algum outro sentimento negativo da sua parte. Voc\u00ea, com ou sem raz\u00e3o, virava a cabe\u00e7a de um lado para o outro desviando o olhar. Aquilo era uma tortura para ele. Ele aguentaria qualquer coisa da sua parte, menos o desprezo.<\/em><\/p>\n<p><em>Mam\u00e3e percebendo a sua ang\u00fastia tentou promover a concilia\u00e7\u00e3o:<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Aqui, ela j\u00e1 est\u00e1 arrumadinha. Nina ela um pouco?<\/em><\/p>\n<p><em>Papai estendeu os bra\u00e7os hesitante. Voc\u00ea veio, ainda de rosto virado. Mentalmente, papai repetia:<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe.<\/em><\/p>\n<p><em>Voc\u00ea pousou a cabe\u00e7a no colo do papai, mas instantaneamente resistiu e jogou o corpo para tr\u00e1s. O choro inevit\u00e1vel se seguiu. Papai ficou t\u00e3o aturdido que parecia que a segurava pela primeira vez.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Calma,- mam\u00e3e guiava- n\u00e3o foi nada. Ela est\u00e1 bem. Voc\u00eas est\u00e3o bem.<\/em><\/p>\n<p><em>Papai queria acreditar e, como seu amor era grande, ele teve f\u00e9 e a abra\u00e7ou. Voc\u00ea resistiu mas aos poucos cedeu. Era como se estivesse relutante em aceitar as desculpas apesar de saber que Papai n\u00e3o tinha feito por mal. A \u00faltima coisa no mundo que ele queria e quer \u00e9 lhe fazer mal. Finalmente voc\u00ea lhe abra\u00e7ou.<\/em><\/p>\n<p><em>O resto do dia papai quase n\u00e3o lhe largou. Era como uma reconcilia\u00e7\u00e3o de dois amigos h\u00e1 muito brigados. Mas quando voc\u00ea e Mam\u00e3e foram dormir, ele permaneceu acordado, como faria em muitas noites depois. Ele ia a seu quarto de quando em quando para lhe observar dormindo. Apesar da reconcilia\u00e7\u00e3o, algo lhe dizia que ele n\u00e3o fora totalmente perdoado. Ele sentia que um dia chegaria um momento em que a conta por aquele primeiro erro seria cobrada. E quando o fosse, voc\u00ea iria dilacerar o cora\u00e7\u00e3o do seu Papai irreversivelmente.<\/em><\/p>\n<p>Depois de ouvir mais uma vez \u00e0 hist\u00f3ria cl\u00e1ssica do seu quase afogamento, a menina, mais de dezesseis anos depois da quase trag\u00e9dia, foi obrigada a emitir mais uma vez a sua opini\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; P\u00f4, pai! Sempre essa mesma hist\u00f3ria. Pode crer, quando te pedi passar o carnaval em Salvador numa excurs\u00e3o com os meus amigos de col\u00e9gio n\u00e3o estou tentando te dar o troco por nada. Nem eu gostar de Ax\u00e9-Funk-Universit\u00e1rio \u00e9 uma afronta pra me vingar. E outra coisa, v\u00ea se para de falar de si mesmo na terceira pessoa. Isso \u00e9 esquisito pacas. N\u00f3!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apesar de Papai querer acreditar no contr\u00e1rio, era inevit\u00e1vel. Um dia ia acontecer. E aconteceu. Numa manobra totalmente normal, no seu 34o. dia de vida, durante o seu banho, enquanto Papai lavava as suas costas, ele deixou seu rosto entrar lentamente dentro d&#8217;\u00e1gua. 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