{"id":1277,"date":"2014-07-05T17:20:55","date_gmt":"2014-07-05T20:20:55","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=1277"},"modified":"2014-09-26T08:20:11","modified_gmt":"2014-09-26T11:20:11","slug":"a-falha-em-nossos-destinos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/a-falha-em-nossos-destinos\/","title":{"rendered":"A falha em nossos destinos"},"content":{"rendered":"<p>Vez ou outra, durante as minhas cl\u00e1ssicas ins\u00f4nias, eu encontrava um amigo discutindo a vida, o universo e tudo mais no twitter. Por in\u00e9rcia ou simples provoca\u00e7\u00e3o, eu acabava respondendo. Minhas mensagens, seja pela limita\u00e7\u00e3o de caracteres ou de conhecimento, nem sempre conseguiam exprimir o que eu acreditava, se \u00e9 que eu acreditava em algo; mas essas conversas acabavam quase sempre por se tornar um teste de conceitos. Pra mim e pra ele. Sobre o que? Sobre a vida, o universo e tudo mais. O b\u00e1sico.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o podia deixar de ser, nessas conversas delirantes de tra\u00e7a de biblioteca surgiam boas indica\u00e7\u00f5es de textos e livros. Uma vez indiquei a esse amigo o <a href=\"http:\/\/www.amazon.com\/gp\/product\/B0040JHNQG\/ref=as_li_tl?ie=UTF8&amp;camp=1789&amp;creative=390957&amp;creativeASIN=B0040JHNQG&amp;linkCode=as2&amp;tag=atematica-20&amp;linkId=SSJHQJ55FLTDXE3W\">A Guide to the Good Life: The Ancient Art of Stoic Joy<\/a><img decoding=\"async\" style=\"border: none !important; margin: 0px !important;\" src=\"http:\/\/ir-na.amazon-adsystem.com\/e\/ir?t=atematica-20&amp;l=as2&amp;o=1&amp;a=B0040JHNQG\" alt=\"\" width=\"1\" height=\"1\" border=\"0\" \/>, e acabei por ser identificado como est\u00f3ico. N\u00e3o posso dizer que me incomodei. Considerei verdadeiramente um elogio. Se bem que preferiria ser considerado Zen. Mas, c\u00e1 entre n\u00f3s, ainda me falta comer menos feij\u00e3o e arroz pra isso.<\/p>\n<p>No m\u00eas passado, em mais um desses papos, ele me indicou o <a href=\"http:\/\/www.amazon.com\/gp\/product\/B005ZOBNOI\/ref=as_li_tl?ie=UTF8&amp;camp=1789&amp;creative=390957&amp;creativeASIN=B005ZOBNOI&amp;linkCode=as2&amp;tag=atematica-20&amp;linkId=FZCV5S4KL37PAP6O\">The Fault in Our Stars<\/a><img decoding=\"async\" style=\"border: none !important; margin: 0px !important;\" src=\"http:\/\/ir-na.amazon-adsystem.com\/e\/ir?t=atematica-20&amp;l=as2&amp;o=1&amp;a=B005ZOBNOI\" alt=\"\" width=\"1\" height=\"1\" border=\"0\" \/>\u00a0como uma obra com um \u00a0toque &#8220;est\u00f3ico&#8221;. Meio que me surpreendi. Tinha lido algo sobre o autor e a sua fama entre os adolescentes, \u00a0e apesar, ou por conta, disso, n\u00e3o tinha sido atra\u00eddo. Como meu amigo previu em seu convite, tive certo preconceito, confesso; mas conclamado a ler uma boa hist\u00f3ria sem pretens\u00e3o, tanto do lado do leitor como do autor, me voluntariei.<!--more--><\/p>\n<p>Como aconselhado, buscando uma experi\u00eancia menos fria e anal\u00edtica de leitura, tentei seguir um certo ritual. O prop\u00f3sito era permitir que a emo\u00e7\u00e3o surgisse sem racionaliza\u00e7\u00f5es. Assim, ao inv\u00e9s de ceder \u00e0s facilidades do Kindle, procurei o livro em livrarias f\u00edsicas (esgotado nas tr\u00eas primeiras) e comprei a tradu\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas (muito boa, por sinal). Lia, sem pressa, em momentos espremidos da vida (numa fila, antes de dormir, enquanto o gar\u00e7om n\u00e3o vinha com o almo\u00e7o, quando esbarrava com o livro que cismava em caminhar pelos c\u00f4modos da casa). Tudo rolou o mais organicamente poss\u00edvel. Hoje, em mais um desses momentos, esperando a minha filha acordar, terminei de l\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Pra ser sincero, tenho sentimentos conflitantes sobre a obra. \u00c9 uma hist\u00f3ria de amor belamente contada com personagens bastante realistas. A cr\u00edtica mais forte que vi, a discuss\u00e3o de que os di\u00e1logos dos jovens s\u00e3o pern\u00f3sticos demais, me faz questionar que tipo de juventude os cr\u00edticos do livro tiveram. N\u00e3o h\u00e1 momento mais pern\u00f3stico na vida que a juventude. Certo?<\/p>\n<p>Apesar dessas qualidades, como em Uma Afli\u00e7\u00e3o Imperial, livro que conduz a trama, A Culpa \u00e9 das Estrelas termina sem uma conclus\u00e3o de fato. Isso n\u00e3o se deve \u00e0 falta de um fim. Ele existe e \u00e9 redentor. O que falta \u00e9 um prop\u00f3sito. A\u00a0personagem principal n\u00e3o tem em momento nenhum da trama um objetivo claro. E exatamente por isso sou obrigado a discordar que seja um livro est\u00f3ico.<\/p>\n<p>O estoicismo &#8220;prega&#8221; uma aceita\u00e7\u00e3o da natureza, mas n\u00e3o uma conforma\u00e7\u00e3o. Para os est\u00f3icos, para ser feliz nesse mundo que n\u00e3o controla, o homem deve exercer a sua virtude, sua aret\u00ea, e se afastar do v\u00edcio. N\u00e3o \u00e9 uma filosofia de abnega\u00e7\u00e3o mas de a\u00e7\u00e3o. Requisita do &#8220;praticante&#8221;\u00a0um sentido, um prop\u00f3sito para vida em que haja a busca da excel\u00eancia do seu ser, seja ele qual for. Hazel com seu fatalismo rom\u00e2ntico passa longe disso. Augustus, al\u00e9m de negar-se \u00e0 excel\u00eancia, flerta a todo momento com o v\u00edcio; e, mesmo que n\u00e3o o exer\u00e7a, s\u00f3 de mant\u00ea-lo ao lado, mostra que n\u00e3o est\u00e1 desapegado. Al\u00e9m disso, em momento algum, nenhum dos jovens transcende ao que a vida lhes deu e eles acabam, por mais que neguem, se caracterizando pelo que a provid\u00eancia lhes concedeu. Negam, assim, as possibilidades do ser. Ao inv\u00e9s de aceitarem a vida, aceitam a morte e o amor como iguais, e aproveitam os poucos momentos superficiais de felicidade que a vida lhes d\u00e1. Muita passividade e pouca pr\u00e1xis. Nada de errado nisso, mas, convenhamos, isso me parece mais ceticismo do que estoicismo.<\/p>\n<p>Talvez por isso, mesmo dando o devido valor a toda qualidade do livro, n\u00e3o consegui me identificar com os personagens. Como disse Bukowski sobre Camus, &#8220;prefiro algu\u00e9m que grite quando se queimar&#8221;. E, assim, infelizmente, n\u00e3o consegui me emocionar como prometido. No fim das contas, <a href=\"http:\/\/www.polzonoff.com.br\/permita-se-chorar-cara\/\" target=\"_blank\">a generosidade do leitor, que o meu amigo t\u00e3o bem apontou como essencial para ser tocado por uma obra<\/a>, depende de um contexto que fa\u00e7a a sua conex\u00e3o com o autor. E, nesse caso, para mim, n\u00e3o rolou. Contradizendo Augustus, n\u00e3o aceitei.<\/p>\n<p><em>Meu grande agradecimento ao Polzonoff pela amizade e pela indica\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vez ou outra, durante as minhas cl\u00e1ssicas ins\u00f4nias, eu encontrava um amigo discutindo a vida, o universo e tudo mais no twitter. Por in\u00e9rcia ou simples provoca\u00e7\u00e3o, eu acabava respondendo. 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