{"id":1345,"date":"2014-07-22T09:32:09","date_gmt":"2014-07-22T12:32:09","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=1345"},"modified":"2014-09-26T08:12:51","modified_gmt":"2014-09-26T11:12:51","slug":"a-arte-que-nao-se-ensina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/a-arte-que-nao-se-ensina\/","title":{"rendered":"A arte que n\u00e3o se ensina"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_1346\" style=\"width: 536px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/10390898_639776049439202_5572158384887037770_n.jpg\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1346\" class=\"size-full wp-image-1346\" src=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/10390898_639776049439202_5572158384887037770_n.jpg\" alt=\"Popular, mas repetido como farsa\" width=\"526\" height=\"394\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/10390898_639776049439202_5572158384887037770_n.jpg 526w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/10390898_639776049439202_5572158384887037770_n-300x224.jpg 300w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/10390898_639776049439202_5572158384887037770_n-400x299.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 526px) 100vw, 526px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1346\" class=\"wp-caption-text\">Popular, mas repetido at\u00e9 se tornar uma farsa<\/p><\/div>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel ir a uma exposi\u00e7\u00e3o hoje em dia sem v\u00ea-los. Al\u00ed, em frente aos quadros, falando alto, correndo entre as obras, crian\u00e7as, todas de uniforme, orbitam em volta das guias educativas dos museus.<\/p>\n<p>&#8211; Tia, o que quer dizer esse quadro?<br \/>\n&#8211; Vamos ver se voc\u00ea adivinha.<\/p>\n<p>Voc\u00ea espera. As crian\u00e7as chutam, falam diversas loucuras, algumas bastante interessantes, at\u00e9 que uma delas d\u00e1 parte da resposta que estava no livro de instru\u00e7\u00f5es da guia.<\/p>\n<p>&#8211; Bingo! Voc\u00ea acertou. Parab\u00e9ns.<br \/>\n&#8211; U-HU!- as crian\u00e7as congratulam \u00e0quela que &#8220;entendeu&#8221; a arte.<!--more--><\/p>\n<p>Com a tarefa cumprida, eles se movem para o pr\u00f3ximo quadro. Mas n\u00e3o lhe deixam em paz. Aos gritos, a guia tenta organizar o caos primordial que elas representam.<\/p>\n<p>&#8211; Ei. Ei! EI! Vamos ver se voc\u00eas descobrem o que est\u00e1 escondido nesse quadro.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as, estranhamente respeitosas, se aproximam da tela, no limite das linhas vermelhas marcadas no ch\u00e3o, e apertam os olhos como m\u00edopes tentando encontrar o que aparentemente s\u00f3 a guia v\u00ea.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos l\u00e1! \u00c9 f\u00e1cil. Al\u00ed. No canto direito. Algu\u00e9m viu?<\/p>\n<p>Seus corpos se torcem num s\u00f3 movimento como uma naja dan\u00e7ando em frente a um flautista. Nada. A guia tenta ajudar:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um biiiiii&#8230;. biiiii&#8230;.biiii&#8230;..gooo&#8230;.<br \/>\n&#8211; &#8230;gode? Bigode? &#8211; uma das crian\u00e7as chuta mesmo sem ver.<br \/>\n&#8211; Isso. Parab\u00e9ns! Um bigode. Todo muito viu?<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m viu, mas todas espremem os olhos como podem e soltam falsos suspiros de al\u00edvio como se tivessem encontrado. &#8220;AAAAh&#8221;, &#8220;AAh&#8221;, &#8220;Ah&#8221;, &#8220;Ah, t\u00e1&#8230;&#8221;. Elas continuam seu caminho educativo. N\u00f3s ficamos. Tentamos curtir o quadro, mas agora s\u00f3 vemos o maldito bigode da guia dependurado no canto direito do quadro. Ah, \u00e9, l\u00e1 est\u00e1 ele. O important\u00edssimo bigode. As crian\u00e7as continuam nos cercando. Entre um quadro e outro, elas discutem entre si:<\/p>\n<p>&#8211; Eu vi o bigode antes.<br \/>\n&#8211; Viu, nada!<br \/>\n&#8211; Vi, sim! At\u00e9 ganhei dois parab\u00e9ns da Tia.<br \/>\n&#8211; Eu ganhei tr\u00eas.<br \/>\n&#8211; Hum, mas eu entendi a arte e voc\u00ea, n\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Eu entendi, sim!<br \/>\n&#8211; N\u00e3o entendeu nada.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o continua sem sinal de t\u00e9rmino e elas correm para a pr\u00f3xima parte da exposi\u00e7\u00e3o. O artista aparece em um v\u00eddeo. Todas se sentam no ch\u00e3o em rever\u00eancia \u00e0 tela que se move. Isso, elas conhecem bem. Fazem cara de entender o que se passa. M\u00e3o no queixo. Cabe\u00e7a levemente inclinada para esquerda. Olhos semi-abertos. A guia ensinou direitinho. O v\u00eddeo acaba. A algazarra volta\u00a0ao clique de um bot\u00e3o de mute.<\/p>\n<p>&#8211; Ei. Sil\u00eancio! Ent\u00e3o, o que voc\u00eas acham que o artista quis dizer?<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabe. Alguns resmungam. A guia tenta aproveitar os sons como come\u00e7os de respostas.<\/p>\n<p>&#8211; Quase. Quase. Isso! Nesse v\u00eddeo o artista mostra que era bem maluquinho.<\/p>\n<p>Todas riem. Elas correm procurando o pr\u00f3ximo teste, mas finalmente chegou o fim da exposi\u00e7\u00e3o. As crian\u00e7as dispersam e voc\u00ea percebe que n\u00e3o aproveitou nada. Entre bigodes, artistas maluquinhos e buscar o signficado racional do que deveria ser sentido e experienciado, n\u00e3o sobrou nada. Voc\u00ea pensa em voltar para tentar resgatar a beleza e as sensa\u00e7\u00f5es, mas sabe que o momento educacional da arte j\u00e1 os maculou. A arte, com tanta explica\u00e7\u00e3o e tentativas de populariza\u00e7\u00e3o, perdeu a for\u00e7a e se tornou apenas mais uma tarefa no seu curr\u00edculo anual de atividades. Mesmo sabendo que n\u00e3o vai adiantar nada, voc\u00ea d\u00e1 meia volta pra tentar o imposs\u00edvel, e quase esbarra com um casal casualmente arrumado com roupas rasgadas e \u00f3culos sem lentes de pesada arma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Eu te disse que fui no museu dele na Espanha?<br \/>\n&#8211; Sim, sim. Eu tamb\u00e9m. E fui no daquele outro cara tamb\u00e9m.<br \/>\n&#8211; Como \u00e9 o nome mesmo dele?<br \/>\n&#8211; Aquele. O que n\u00e3o tem bigode.<br \/>\n-Ah, nesse eu tamb\u00e9m fui.<br \/>\n&#8211; Droga- o outro resmunga baixinho.<\/p>\n<p>Enfim, voc\u00ea desiste. No dia em que resolveram popularizar a arte, tiraram de voc\u00ea o prazer de experi\u00eanci\u00e1-la. Se ainda eles tivessem sido bem sucedidos, eu poderia dizer que o sacrif\u00edcio foi v\u00e1lido, mas, infelizmente, foi um fracasso completo. Ou n\u00e3o. Sabe-se l\u00e1 qual era o objetivo deles com essa dessacraliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por falar nisso, voc\u00ea viu <a href=\"http:\/\/culturabancodobrasil.com.br\/portal\/salvador-dali\/\">o bigode escondido do artista maluquinho<\/a>?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 imposs\u00edvel ir a uma exposi\u00e7\u00e3o hoje em dia sem v\u00ea-los. Al\u00ed, em frente aos quadros, falando alto, correndo entre as obras, crian\u00e7as, todas de uniforme, orbitam em volta das guias educativas dos museus. &#8211; Tia, o que quer dizer esse quadro? &#8211; Vamos ver se voc\u00ea adivinha. Voc\u00ea espera. 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