{"id":1382,"date":"2014-09-11T08:46:19","date_gmt":"2014-09-11T11:46:19","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=1382"},"modified":"2014-09-26T08:12:07","modified_gmt":"2014-09-26T11:12:07","slug":"40-anos-de-luto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/40-anos-de-luto\/","title":{"rendered":"40 anos de luto"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>&#8220;- Ent\u00e3o, doutor, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel tentar o pneumot\u00f3rax?<\/em><br \/>\n<em> &#8211; N\u00e3o. A \u00fanica coisa a fazer \u00e9 tocar um tango argentino.&#8221;<\/em><br \/>\n<strong><em> Pneumot\u00f3rax &#8211; Manuel Bandeira<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Sete e cinquenta e nooooooove&#8230;.Oito! E assim, acalentando a minha filha, cheguei aos 40 anos. Algo que sempre me pareceu, sen\u00e3o imposs\u00edvel, bastante improv\u00e1vel. Pra dizer a verdade, esse sentimento n\u00e3o \u00e9 in\u00e9dito. Sempre pensei que nunca atingiria determinadas idades. Aos quinze, sentado no Bob&#8217;s do Edif\u00edcio Avenida Central, enquanto lia Sonhos de uma Noite de Ver\u00e3o, depois de comprar uma penca de vinis, me congratulei: &#8220;OK. Voc\u00ea chegou at\u00e9 aqui, mas, s\u00e9rio, aos 18 n\u00e3o deve chegar&#8221;. Aos 18, bebendo sozinho num &#8220;piano-bar&#8221; de Copacabana enquanto assistia \u00e0 reprise de uma das \u00faltimas lutas do Mike Tyson, n\u00e3o conseguia me convencer: &#8220;Dezoito. De-zoi-to! Meu Deus. A mim n\u00e3o restam nem 3 anos de vida&#8230;&#8221;. Aos 21, deitado no sof\u00e1 de casa, assistindo a Um Dia em Nova York sem conseguir dormir, tentava me acalentar: &#8220;OK. OK. At\u00e9 aqui foi assim. N\u00e3o pode piorar. Ou pode?&#8221;. Estranhamente n\u00e3o tive crise aos 30. E, agora, aos 40, rec\u00e9m completados h\u00e1 46 minutos, a sensa\u00e7\u00e3o mista de agonia e aceita\u00e7\u00e3o \u00e9 intrigante.<\/p>\n<p>Como disse Victor Hugo, os 40 s\u00e3o a velhice da juventude, e os 50 s\u00e3o a juventude da velhice. Ou seja, sou um velho para os jovens e uma crian\u00e7a para os velhos. Essa condi\u00e7\u00e3o paradoxal de n\u00e3o pertencer a lugar nenhum \u00e9 quase um luto. Um luto bem real quando vejo que estou 40 anos mais perto da morte do que quando nasci. Mais experiente, \u00e9 verdade, mas menos envolvido. N\u00e3o h\u00e1 mais liga\u00e7\u00e3o real com os tempos passados e o futuro, ah, o futuro, esse ainda n\u00e3o chegou. O que fazer?<\/p>\n<div id=\"attachment_1386\" style=\"width: 510px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/WIN_20140801_102431.jpg\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1386\" class=\"wp-image-1386\" src=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/WIN_20140801_102431-300x225.jpg\" alt=\"WIN_20140801_102431\" width=\"500\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/WIN_20140801_102431-300x225.jpg 300w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/WIN_20140801_102431-400x300.jpg 400w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/WIN_20140801_102431.jpg 640w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1386\" class=\"wp-caption-text\">O que esperar quando n\u00e3o se est\u00e1 esperando?<\/p><\/div>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o usual \u00e9 \u00f3bvia: amadurecer. Mas o que diabos significa isso? Ter responsabilidade, cumprir seus deveres e pensar no futuro? S\u00e9rio? J\u00e1 fiz isso e n\u00e3o \u00e9 tudo o que dizem. Pare numa esquina de qualquer avenida movimentada dos grandes centros do Brasil e observe as pessoas maduras passando. Com pressa e semblantes preocupados, esbarram umas nas outras buscando agradar a figuras de poder imagin\u00e1rias sonhando com um futuro de afagos que provavelmente n\u00e3o v\u00e3o ter. Dinheiro, status e aliena\u00e7\u00e3o s\u00e3o as ordens do dia. N\u00e3o vejo nada diferente de crian\u00e7as manhosas buscando um pouco de afeto de seus pais, sejam eles reais ou figurados. Obrigado, mas os meus anos de psican\u00e1lise me obrigam a passar.<\/p>\n<p>O que posso fazer alternativamente: surtar? Comprar uma casa no interior, mudar pra uma comunidade Hippie (ainda existem?) ou largar tudo em prol daquele velho sonho de ser marceneiro? Parece bonito, mas esse movimento requer uma f\u00e9 na imobilidade que essa minha velha caixola, acostumada a mudar de id\u00e9ia, n\u00e3o consegue aguentar. Infelizmente, por mais id\u00edlico que esse sonho seja, dispenso.<\/p>\n<p>Pelo jeito, tudo o que me resta \u00e9 simplesmente esperar. Sim, esperar. Eu sei que \u00e9 um pecado nada fazer nesse mundo hiper conectado repleto de velhas novidades, mas \u00e9 isso que vou fazer: esperar. Ver o futuro movendo suas engrenagens lentamente, observar minha filha crescer com desenvoltura e gra\u00e7a, e me mover, como numa aula de tai chi chuan, lenta, elegante e vigorosamente em dire\u00e7\u00e3o ao desejo quando ele realmente me tocar. Esperar a vida, esperar a morte, esperar e ter esperan\u00e7a que as pequenas e sinceras constru\u00e7\u00f5es que eu fizer no mundo venham a florescer e dar frutos. Esperar e, ao mesmo tempo, nada esperar. Estar aqui e s\u00f3. Sem me desesperar.\u00a0N\u00e3o existe op\u00e7\u00e3o mais sincera a escolher. Todas as outras presumem o controle de algo sobre o qual simplesmente n\u00e3o temos controle: a vida. Ou voc\u00ea achava que era dono do seu destino? N\u00e3o \u00e9 preciso fazer 40 anos pra pra descobrir que isso n\u00e3o passa de ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>E assim, depois de 40 anos de luto; depois da nega\u00e7\u00e3o, da negocia\u00e7\u00e3o e da revolta; espero, tenho esperan\u00e7a e, enfim, aceito a vida como ela quiser vir.<\/p>\n<p>Hum, pra mim parece bom. Pra voc\u00ea, n\u00e3o?<\/p>\n<p>Por isso, pe\u00e7o que levantem suas ta\u00e7as, tulipas, canecas ou copinhos pl\u00e1sticos, e se juntem a mim no \u00fanico brinde poss\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Ao futuro, o futuro!<\/strong><\/p>\n<p>Agora, com licen\u00e7a; foi s\u00f3 falar no futuro que a Al\u00edcia acabou de acordar. E ela, como o futuro, n\u00e3o pode esperar.<\/p>\n<div id=\"attachment_1387\" style=\"width: 510px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1387\" class=\"wp-image-1387\" src=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/WIN_20140831_163029-300x225.jpg\" alt=\"WIN_20140831_163029\" width=\"500\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/WIN_20140831_163029-300x225.jpg 300w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/WIN_20140831_163029-400x300.jpg 400w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/WIN_20140831_163029.jpg 640w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><p id=\"caption-attachment-1387\" class=\"wp-caption-text\">S\u00f3 h\u00e1 um futuro: o presente. E n\u00e3o h\u00e1 maior presente que o futuro.<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;- Ent\u00e3o, doutor, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel tentar o pneumot\u00f3rax? &#8211; N\u00e3o. A \u00fanica coisa a fazer \u00e9 tocar um tango argentino.&#8221; Pneumot\u00f3rax &#8211; Manuel Bandeira Sete e cinquenta e nooooooove&#8230;.Oito! E assim, acalentando a minha filha, cheguei aos 40 anos. Algo que sempre me pareceu, sen\u00e3o imposs\u00edvel, bastante improv\u00e1vel. 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