{"id":1508,"date":"2014-11-16T07:59:30","date_gmt":"2014-11-16T09:59:30","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=1508"},"modified":"2014-11-24T13:57:34","modified_gmt":"2014-11-24T15:57:34","slug":"a-odisseia-carioca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/a-odisseia-carioca\/","title":{"rendered":"A Odiss\u00e9ia Carioca"},"content":{"rendered":"<p>Assim como os londrinos anseiam pelos raros dias de sol nos quais poder\u00e3o se desnudar nos parques e se deixar banhar pelos seus raios, a maioria dos cariocas anseia pelo frio. O meu primeiro dia n\u00e3o quente ap\u00f3s a minha volta \u00e0 cidade foi ontem.<\/p>\n<p>A chuva varou a noite e deixou o clima ameno pela manh\u00e3. Uma heresia para o pante\u00e3o dos deuses cariocas s\u00f3 preocupados com sol, mar, praia, chopp e futvolei. Uma ben\u00e7\u00e3o para um her\u00e9tico como eu. Gra\u00e7as ao al\u00edvio clim\u00e1tico, eu podia botar em a\u00e7\u00e3o o meu plano de ir ao trabalho de bicicleta.<!--more--><\/p>\n<p>Tomei caf\u00e9, banho e rumei a um dos postos da Bike Rio com meu capacete embaixo do bra\u00e7o. Seguindo a orienta\u00e7\u00e3o da minha mulher botei uma camiseta na mochila para alguma eventualidade que eu tinha certeza n\u00e3o ocorreria. Na esta\u00e7\u00e3o da Bike Rio apenas uma bicicleta: a 13, fato que achei auspicioso. Botei meu capacete, limpei a \u00e1gua empo\u00e7ada no banco e dei uma olhada no c\u00e9u. Ainda estava muito nublado, mas n\u00e3o haveria de chover mais. Pelo menos era o que eu esperava.<\/p>\n<p>Atravessei rapidamente a orla vazia at\u00e9 a Princesa Isabel e me congratulei por ter desafiadoo senso comum e, mesmo amea\u00e7ando chover, ter me disposto a fazer uma atividade f\u00edsica ao ar livre. Atravessei o t\u00fanel novo com cuidado desviando dos mendigos que dormiam na ciclovia. Cheguei \u00e0 bifurca\u00e7\u00e3o da Urca e desci em dire\u00e7\u00e3o ao aterro. Pelos meus c\u00e1culos tinha feito uns 4 km em 15 minutos. Nesse ritmo chegaria no trabalho em mais 30 minutos. Mais r\u00e1pido at\u00e9 do que se tivesse ido de metr\u00f4. Muito esperto, pensei. Como Ulisses, me sentia mais s\u00e1bio do que os deuses que comandam o destino da cidade do Rio do Janeiro. \u00d3bvio, como Ulisses, eu precisava ser punido.<\/p>\n<p>Ao chegar na praia de Botafogo senti os primeiros pingos. Chuva passageira, tinha certeza. Ao chegar na altura do Edif\u00edcio Argentina, meus \u00f3culos nublados e minha roupa encharcada n\u00e3o deixavam d\u00favida: aquela chuva tinha vindo pra ficar.<\/p>\n<p>Vencido, me resignei \u00e0 vontade dos deuses cariocas e embaixo de uma \u00e1rvore saquei o celular para encontrar um posto onde poderia deixar a bicicleta. A chuva jorrava por entre as folhas que deviam me proteger e meu dedo deslizava sem efeito sobre a tela. Dal\u00ed n\u00e3o teria informa\u00e7\u00e3o alguma. Decidi continuar at\u00e9 o aterro onde, mais uma vez, na minha pun\u00edvel presun\u00e7\u00e3o, tinha certeza, haveria um posto.<\/p>\n<p>A chuva apertou e as poucas pessoas que passavam por mim (nenhuma de bicicleta) corriam para se proteger. Mais pesado pela chuva e freado pelo vento, eu pedalava com esfor\u00e7o sem sinal de salva\u00e7\u00e3o. Passei por um gari e gritei:<\/p>\n<p>&#8211; Amigo! Onde encontro uma esta\u00e7\u00e3o da Bike Rio?<\/p>\n<p>Encolhido embaixo de uma \u00e1rvore e coberto por seu manto laranja, ele respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; Segue em frente e vira \u00e0 direita em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 praia. N\u00e3o tem erro.<\/p>\n<p>N\u00e3o. Tem. Erro. Famosas \u00faltimas palavras.<\/p>\n<p>Segui as orienta\u00e7\u00f5es desse falso vidente e nada encontrei. Cheguei \u00e0 praia e pra todo lado nem sinal das esta\u00e7\u00f5es laranjas da Bike Rio; mas, ao mesmo tempo, duzentas coisas similares competiam pela minha aten\u00e7\u00e3o. Aparelhos de Gin\u00e1stica. Laranjas. Latas de lixo. Laranjas. Bancos. Laranjas. Placas. Laranjas. Me questionei quando as cores oficiais da cidade deixaram de ser o azul e branco em detrimento desse laranja horroroso que representa essa velha nova gest\u00e3o. Eu estava certo de que n\u00e3o s\u00f3 os deuses mas tamb\u00e9m os poderes terrenos conspiravam contra mim.<\/p>\n<p>Atravessei metade da praia, ainda procurando por um lugar onde deixar a bicleta e nada. Minhas roupas desfaziam o mito de que \u00e9 imposs\u00edvel ficar molhado al\u00e9m da conta. N\u00e3o havia limite para a crescente sensa\u00e7\u00e3o de umidade que me dominava. Quando cheguei ao fim da praia do Flamengo, lancei um olhar para o c\u00e9u, filtrado pelas minha lentes salpicadas de gotas, e desafiei os deuses:<\/p>\n<p>&#8211; Mete bronca!<\/p>\n<p>Agora j\u00e1 era tarde demais para desistir. Eu podia ter pecado contra os deuses do sol e dos esportes ao ar livre fazendo esse trajeto de bicleta num dia nublado, mas eles n\u00e3o me venceriam. Como Ulisses chegou \u00e0 Ithaca, ap\u00f3s dez anos de trajeto, eu chegaria ao centro da cidade. Quisessem os deuses ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Minha insol\u00eancia foi punida com mais chuva. Nas subidas e descidas do aterro na altura da Marina da Gl\u00f3ria, a bicicleta gemia e derrapava, mas eu continuava firme. Eles mandavam mais \u00e1gua. Eu compensava na determina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando passei pelo monumento aos pracinhas, a chuva diminuiu. Era como se a minha cabe\u00e7a dura de alguma forma houvesse aplacado o \u00e2nimo dos deuses. Apesar de precisarem de devo\u00e7\u00e3o e obedi\u00eancia para continuarem existindo, s\u00e3o os hereges que os desafiam que d\u00e3o aos deuses sua raz\u00e3o de existir.<\/p>\n<p>Cheguei ao MAM e me dei o direto de descansar uns minutos. A chuva diminui ainda mais. Respirei fundo algumas vezes e quase ca\u00ed na asneira de me congratular. Ainda faltava um pouco para eu chegar ao meu destino. N\u00e3o cometeria esse erro novamente.<\/p>\n<p>Subi na bicicleta, atravessei a passarela e ca\u00ed na ciclovia da Gra\u00e7a Aranha. Estava no centro da cidade. Segui fielmente o seu trajeto e nada de esta\u00e7\u00f5es da Bike Rio. Ao chegar na S\u00e3o Jos\u00e9, parei numa banca de jornal e indaguei pelo fim da minha jornada:<\/p>\n<p>&#8211; T\u00e1 cego, cara? \u00c9 logo al\u00ed- o jornaleiro indicou.<\/p>\n<p>E l\u00e1, no meio da pra\u00e7a, estava a esta\u00e7\u00e3o onde terminaria a minha jornada. Um al\u00edvio. Mas durou pouco. De longe parecia que todas as esta\u00e7\u00f5es estavam ocupadas. Gelei. Ser\u00e1 que esse n\u00e3o seria o fim da minha odiss\u00e9ia? Seria obrigado a continuar at\u00e9 achar um lugar vazio para encaixar a minha bicicleta?<\/p>\n<p>Pedalei rezando. Por favor, tenha uma esta\u00e7\u00e3o livre. Por favor, uma esta\u00e7\u00e3o livre. Por favor, uma esta\u00e7\u00e3o. Por favor&#8230;<\/p>\n<p>E l\u00e1 estava ela. Livre. A \u00faltima esta\u00e7\u00e3o. A esta\u00e7\u00e3o 13. Fechei um ciclo.<\/p>\n<p>Travei a bicicleta e fiz o resto do caminho at\u00e9 o trabalho a p\u00e9. Antes de entrar no pr\u00e9dio, parei embaixo de uma marquise e troquei de camisa sob os olhares de reprova\u00e7\u00e3o dos executivos que chegavam para trabalhar. Estava cansado, molhado e prestes a come\u00e7ar uma gripe, mas estava feliz. Frente \u00e0 adversidade, na qual eu mesmo me coloquei, \u00e9 verdade, eu tinha perseverado e vencido. Os deuses cariocas tinham meu respeito, mas eu tamb\u00e9m tinha ganho o respeito deles.<\/p>\n<p>Cheguei ao trabalho e sentei na minha cadeira. As pessoas chegavam sacudindo os seus guarda-chuvas. Secas. Reclamavam do tempo e de como tinham sido incomodadas pela chuva. Elas n\u00e3o sabiam de nada. Pensei em compartilhar com elas minha aventura e botar em perspectiva sua vida. N\u00e3o, eu n\u00e3o tinha esse direito. Ningu\u00e9m podia aprender nada com aquela aventura; a n\u00e3o ser eu mesmo.<\/p>\n<p>Liguei o computador e na tela escura vi meu reflexo. Eu estava vivo. Eu estava no Rio.<\/p>\n<p>Seja bem vindo \u00e0 Ithaca, Ulisses.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Assim como os londrinos anseiam pelos raros dias de sol nos quais poder\u00e3o se desnudar nos parques e se deixar banhar pelos seus raios, a maioria dos cariocas anseia pelo frio. O meu primeiro dia n\u00e3o quente ap\u00f3s a minha volta \u00e0 cidade foi ontem. 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