{"id":1543,"date":"2015-01-05T14:13:42","date_gmt":"2015-01-05T16:13:42","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=1543"},"modified":"2015-01-05T14:13:42","modified_gmt":"2015-01-05T16:13:42","slug":"qual-e-o-porque-de-tanto-porque","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/qual-e-o-porque-de-tanto-porque\/","title":{"rendered":"Qual \u00e9 o porqu\u00ea de tanto porqu\u00ea?"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o me ajudou muito na vida ter uma m\u00e3e existencialista que estudava filosofia, um pai galhofeiro que n\u00e3o tinha respeito por nenhuma institui\u00e7\u00e3o estabelecida e estudar num col\u00e9gio cat\u00f3lico de disciplina r\u00edgida. Para dizer a verdade, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o ajudou como complicou muito.<\/p>\n<p>Enquanto todos os alunos, desde a mais tenra idade, baixavam a cabe\u00e7a para as ordens e os dogmas, eu os questionava. At\u00e9 os 10 anos isso era considerado bonitinho. O pior que faziam era passar a m\u00e3o na minha cabe\u00e7a e dizer: \u201cQue menino revoltado, hein?\u201d. Desmereciam minhas reclama\u00e7\u00f5es e observa\u00e7\u00f5es e continuavam com a ladainha que, hoje desconfio, nem eles mesmos acreditavam.<\/p>\n<p>Quando fiz 10 anos a situa\u00e7\u00e3o complicou um pouco. Eu j\u00e1 n\u00e3o era s\u00f3 um menino revoltado. Estava me tornando um pr\u00e9 adolescente questionador e perigoso. Para complicar um pouco a situa\u00e7\u00e3o, minha educa\u00e7\u00e3o na \u00e9poca estava sob o comando do melhor exemplo do proselitismo e nepotismo: minha professora de matem\u00e1tica era a filha fan\u00e1tica religiosa e rec\u00e9m formada do diretor do col\u00e9gio.<!--more--><\/p>\n<p>Do alto da sua inexperi\u00eancia e da sua inseguran\u00e7a, ela fazia tudo o que podia para reafirmar a autoridade institucional que de fato n\u00e3o tinha. E tudo em nome de uma filosofia corporativa na qual ela ainda estava aprendendo a acreditar. Broncas, humilha\u00e7\u00f5es, excesso de dever de casa, idas \u00e0 sala do seu pai, anota\u00e7\u00f5es na caderneta. Valia de tudo para manter a ordem sem prop\u00f3sito que esconderia a sua incompet\u00eancia. N\u00e3o preciso dizer como isso foi dif\u00edcil pra mim.<\/p>\n<p>Contudo, no fim do primeiro semestre da minha quarta s\u00e9rie essa hist\u00f3ria deu uma virada. Durante um domingo tedioso, encontrei na biblioteca de casa uma c\u00f3pia comemorativa dos 20 anos dos direitos das crian\u00e7as. Fiquei fascinado com aquilo. Tinha nas m\u00e3os a arma definitiva contra a minha professora. Dos 10 artigos, dois me serviam em especial: o 1o. e o 10o.<\/p>\n<blockquote><p>1\u00b0 Todas as crian\u00e7as t\u00eam o <strong>direito \u00e0 vida e \u00e0 liberdade<\/strong>.<br \/>\n10\u00b0 Todas as crian\u00e7as tem <strong>direito de n\u00e3o serem violentadas verbalmente ou serem agredidas<\/strong> por pais, av\u00f3s, parentes, ou at\u00e9 a sociedade.<\/p><\/blockquote>\n<p>Para mim, era claro que tudo o que ela fazia violava esses dois artigos. E em prol de qu\u00ea? Para que ela pudesse fazer parte de uma institui\u00e7\u00e3o que n\u00e3o a reconhecia? Para que usasse o poder institucional e resolver quest\u00f5es pessoais? N\u00e3o, isso n\u00e3o estava certo.<\/p>\n<p>Botei o livro na mochila e fui pro col\u00e9gio esperando seu primeiro deslize. Ela entrou na sala de aula, discretamente tirei o livro da mochila e o coloquei sob a carteira como um assassino de aluguel emboscando sua v\u00edtima. Esperando. Como n\u00e3o podia deixar de ser, nessa segunda feira ela estava particularmente calma e educada. Maldita, aposto que deve ter tido um fim de semana muito bom pensando no nosso sofrimento, vociferei mentalmente. Ela deu alguns escorreg\u00f5es durante a aula mas nada que me auxiliasse a conseguir o impacto que esperava gerar. Continuei aguardando pacientemente. Quase no fim da aula, quando ela come\u00e7ou a gritar com os poucos alunos que reclamaram da lista enorme de dever de casa que ela acabara de passar, eu agi:<\/p>\n<p>&#8211; Professora, me desculpe, mas a senhora est\u00e1 indo contra dois artigos dos direitos das crian\u00e7as.<br \/>\n&#8211; Direitos das crian\u00e7as?- ela se espantou.<br \/>\n&#8211; Isso mesmo! Direito das crian\u00e7as. O excesso de dever nos tira a liberdade e a sua postura nos violenta e agride verbalmente.<\/p>\n<p>Ela nem pensou duas vezes. Quase aos pontap\u00e9s me expulsou da sala e me botou pra falar com o pai dela.<\/p>\n<p>Depois de uma intermin\u00e1vel espera de 5 minutos na secretaria, o velho diretor, sujeito s\u00e1bio mas vendido ao sistema, me mandou entrar em sua sala. Sentei na cadeira em frente a sua mesa, enquanto ele fingia n\u00e3o me notar. Bati as m\u00e3os no uniforme, limpando a metaf\u00f3rica poeira que me cobria depois dessa queda moral. Ele abaixou os \u00f3culos, olhou pra mim cansado e sorriu amarelo:<\/p>\n<p>&#8211; O que foi dessa vez, seu Lisandro?<br \/>\n&#8211; Bom, seu diretor, eu sei que ela \u00e9 sua filha, mas, convenhamos, a maneira como ela age n\u00e3o\u2026<br \/>\n&#8211; O que est\u00e1 te incomodando de verdade?<br \/>\n&#8211; Bom, ela est\u00e1 ferindo dois artigos dos direitos\u2026<br \/>\n&#8211; Vamos parar com esse bom pra c\u00e1, bom pra l\u00e1?<br \/>\n&#8211; T\u00e1 bom. Quer dizer, bom. Quer dizer, OK.<br \/>\n&#8211; Agora que tenho a sua aten\u00e7\u00e3o, me responda, seu Lisandro: por que diabos voc\u00ea torna a vida de todos os professores um inferno?<\/p>\n<p>Sinceramente nunca tinha pensado sobre isso ou sob esse \u00e2ngulo. Na minha opini\u00e3o estava apenas exercendo meus direitos. N\u00e3o aceitava que ningu\u00e9m mandasse em mim. No meu narcisismo infantil nada fazia mais sentido do que agir assim. Mesmo sem saber o que dizer, tentei responder:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei. Talvez n\u00e3o goste que as pessoas mandem em mim. Estou apenas lutando pela liberdade de fazer o que eu quero- completei.<br \/>\n&#8211; Isso \u00e9 estranho- o diretor argumentou.- Se fosse assim mesmo, as suas notas deveriam ser ruins e n\u00e3o s\u00e3o. Afinal, o que o COL\u00c9GIO te pede \u00e9 estudar e ter boas notas. E \u00e9 exatamente o que voc\u00ea faz. Pra dizer a verdade, voc\u00ea, excetuando esse problema de com-por-ta-men-to pouco usual,\u00a0 voc\u00ea \u00e9 um dos melhores alunos da sua sala. N\u00e3o \u00e9, mesmo?<br \/>\n&#8211; Sou- n\u00e3o pude negar.<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o, por que voc\u00ea age assim?<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o tinha uma raz\u00e3o clara. Eu n\u00e3o odiava o col\u00e9gio, muito pelo contr\u00e1rio; eu amava o col\u00e9gio; n\u00e3o odiava estudar, novamente, muito pelo contr\u00e1rio; enquanto todos corriam para as quadras no recreio eu me enfurnava na biblioteca; e nem achava que a professora fosse t\u00e3o ruim assim; havia piores, isso eu sabia. Mas a maneira de ela agir, a falta de prop\u00f3sito, a falta de esclarecer o porqu\u00ea das coisas, isso tudo me corro\u00eda por dentro. Eu queria um mundo que fizesse sentido e no qual houvesse di\u00e1logo. Nada disso ocorria no meu mundo.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, seu Lisandro. Por que voc\u00ea age assim?<br \/>\n&#8211; Sei l\u00e1. S\u00f3 queria saber o porqu\u00ea das coisas.<br \/>\n&#8211; O porqu\u00ea das coisas?<br \/>\n&#8211; \u00c9. N\u00e3o acho justo que mandem a gente fazer tanto dever ou estudar coisas que pare\u00e7am in\u00fateis simplesmente \u201cporque sim\u201d. As coisas devem ter uma raz\u00e3o de ser, n\u00e3o?<\/p>\n<p>O diretor riu baixinho, levantou da sua cadeira e me conduziu at\u00e9 a porta da sala:<\/p>\n<p>&#8211; Seu Lisandro, pra ser sincero com voc\u00ea nem sempre as coisas tem raz\u00e3o de ser\u2026<br \/>\n&#8211; Mas\u2026<br \/>\n&#8211; Pode ficar tranquilo. Volte pra sua sala que eu vejo o que posso fazer.<\/p>\n<p>Voltei pra sala cabisbaixo. Entrei e me encaminhei envergonhado at\u00e9 a minha cadeira sob o esc\u00e1rnio quase inaud\u00edvel dos colegas. A professora continuou a sua aula, como se nada houvesse acontecido. Resignado, abri o meu caderno e comecei a copiar a mat\u00e9ria. Um pequeno papel dobrado foi jogado por um colega inc\u00f3gnito na minha carteira. Abri e nele havia apenas uma palavra escrita em vermelho: <span style=\"color: #ff0000;\"><strong>COMUNISTA<\/strong><\/span>.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>*<\/strong><\/h3>\n<p>No dia seguinte entrei na sala e notei que o diretor conversava com a sua filha no corredor. Eles tentavam mas n\u00e3o conseguiam evitar de olhar pra mim. Se pudessem, acredito, at\u00e9 apontariam.<\/p>\n<p>Os alunos se acomodaram na sala de aula e a professora entrou. Como sempre, todos ficaram em sil\u00eancio, por conta do medo que normalmente sentiam. A professora suspirou, rodou o olhar pela sala, fazendo uma pequena e quase impercept\u00edvel pausa em mim. Olhou para seus sapatos e, franzindo os l\u00e1bios, come\u00e7ou a aula:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei exatamente como voc\u00eas se sentem a respeito disso mas achei interessante deixar claro por que estamos aprendendo determinadas mat\u00e9rias em matem\u00e1tica. Atualmente tudo pode parecer sem sentido mas voc\u00eas v\u00e3o crescer e muitas dessas coisas ser\u00e3o \u00fateis no futuro. Isso vale para os deveres que passarei tamb\u00e9m. Para os que n\u00e3o acreditam em mim, saibam que vou, agora, antes de come\u00e7ar qualquer mat\u00e9ria nova, explicar pra qu\u00ea ela serve e onde \u00e9 aplicada. OK? Vamos come\u00e7ar fazendo isso sobre a pr\u00f3xima mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>E assim ela fez. A turma ficou em sil\u00eancio sem entender o que estava acontecendo. Eu fiquei de boca aberta.<\/p>\n<p>Sa\u00ed da aula com um misto de espanto e al\u00edvio. Finalmente eu ia come\u00e7ar saber o porqu\u00ea das coisas, quer dizer, de pelo menos algumas poucas coisas. Mas, depois de explicada a raz\u00e3o de algumas delas, vou confessar, preferia ter ficado sem saber. Nem sempre a raz\u00e3o de ser \u00e9 interessante ou motivadora. Por outro lado, me senti respeitado. Descobri que tinha o direito de saber o porqu\u00ea dos outros serem como s\u00e3o e agirem como agem. Tinha chegado talvez ao m\u00e1ximo de verdade que algu\u00e9m pode chegar. O que eu podia querer mais?<\/p>\n<p>Sa\u00ed do col\u00e9gio e olhei para a janela da sala do diretor, agradecendo. Fosse isso um filme, o diretor passaria pela janela e piscaria para mim,refor\u00e7ando a minha busca ao mesmo tempo f\u00fatil e indispens\u00e1vel pelo porqu\u00ea. Mas n\u00e3o passou. Por qu\u00ea? N\u00e3o tenho id\u00e9ia. Essa devia ser mais uma dessas coisas, como o diretor disse, que existiam sem ter um porqu\u00ea na vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o me ajudou muito na vida ter uma m\u00e3e existencialista que estudava filosofia, um pai galhofeiro que n\u00e3o tinha respeito por nenhuma institui\u00e7\u00e3o estabelecida e estudar num col\u00e9gio cat\u00f3lico de disciplina r\u00edgida. 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