{"id":1564,"date":"2015-01-09T13:26:34","date_gmt":"2015-01-09T15:26:34","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=1564"},"modified":"2015-01-09T17:02:45","modified_gmt":"2015-01-09T19:02:45","slug":"charlie-hebdo-e-a-censura-mortal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/charlie-hebdo-e-a-censura-mortal\/","title":{"rendered":"Charlie Hebdo e a Censura Mortal"},"content":{"rendered":"<p>Quando fiquei sabendo do atentado \u00e0 Charlie Hebdo, estranhamente me lembrei de um epis\u00f3dio que me aconteceu h\u00e1 uns dois anos.<\/p>\n<p>O andar onde eu trabalhava em Belo Horizonte ia ser reformado. Fomos for\u00e7ados a nos abrigar temporariamente num outro andar da empresa e a encaixotar tudo que n\u00e3o fosse de uso di\u00e1rio. Um trabalho chato e cansativo.<\/p>\n<p>No processo de encaixotamento j\u00e1 vislumbr\u00e1vamos que havia muita coisa a ser jogada fora. Em nome da presteza, o momento 5 S foi deixado para depois. Findas duas semanas de dividir mesas e esta\u00e7\u00f5es de trabalho com pessoas que n\u00e3o queriam e nem tinham a menor obriga\u00e7\u00e3o de realmente nos receber, nosso andar ficou pronto e a mudan\u00e7a de volta foi feita.<\/p>\n<p>Descemos n\u00f3s, nossos computadores, alguns itens de uso di\u00e1rio e as caixas. Muitas caixas. Al\u00e9m de abr\u00ed-las e guardar seus conte\u00fados nos seus novos esconderijos, precis\u00e1vamos separar o que seria jogado fora e o que seria doado. Nesse processo uma das maiores atribula\u00e7\u00f5es era o que fazer com materiais sigilosos que estavam encadernados com espiral. Eu, infelizmente, rapidamente peguei a manha e separava espirais e pap\u00e9is com facilidade para que o conte\u00fado realmente delicado pudesse ser triturado. As espirais, sem uso, eram jogadas numa caixa de papel\u00e3o para depois se avaliar a possibilidade de reciclagem. N\u00e3o preciso dizer que o trabalho ficou todo pra mim.<\/p>\n<p>Depois de uma tarde inteira de rasga\u00e7\u00e3o de papel e retirada de espirais, sentei na minha esta\u00e7\u00e3o de trabalho e tive uma epifania. Aquela cena, espirais emboladas numa caixa de papel\u00e3o, daria uma bela escultura.<!--more--><\/p>\n<div id=\"attachment_1565\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1565\" class=\"size-full wp-image-1565\" src=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/senhor_portal.jpg\" alt=\"O primeiro estudo conceitual de nossa escultura\" width=\"400\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/senhor_portal.jpg 400w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/senhor_portal-267x300.jpg 267w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><p id=\"caption-attachment-1565\" class=\"wp-caption-text\">O primeiro estudo conceitual de nossa escultura<\/p><\/div>\n<p>Depois de um estudo conceitual, peguei uma das caixas que estava em melhor estado, e, com a ajuda de um estilete, abri na sua lateral uma boca e dois olhos. Deles, como cobras, as espirais sa\u00edam criando liga\u00e7\u00f5es inexistentes entre o falar e o olhar. Para completar a escultura, diversas bolhas de pl\u00e1stico foram inseridas entre as espirais criando o contraste entre a delicadeza do pl\u00e1stico e do ar e a perigosa amea\u00e7a do metal. Nada mal para um fim de expediente no escrit\u00f3rio.<\/p>\n<p>Coloquei a escultura em cima de um arm\u00e1rio e a esqueci.<\/p>\n<p>Nas semanas seguintes comecei a perceber que as pessoas paravam em frente \u00e0 minha esta\u00e7\u00e3o de trabalho e, ap\u00f3s conversar um pouco, ficavam olhando de rabo de olho para a escultura. A princ\u00edpio nada falavam, mas, depois de um tempo, impactadas pela poderosa falta de prop\u00f3sito da arte, o povo n\u00e3o se continha:<\/p>\n<p>&#8211; Posso te fazer uma pergunta?<br \/>\n&#8211; Claro- eu respondia.<br \/>\n&#8211; O que quer dizer isso a\u00ed?<\/p>\n<p>Eu olhava para a escultura fazendo uma cara de contempla\u00e7\u00e3o, co\u00e7ava o queixo e provocava:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei. O que voc\u00ea acha que quer dizer?<\/p>\n<p>A primeira rea\u00e7\u00e3o de todos era dizer que n\u00e3o sabiam, que eu devia responder pois era eu o respons\u00e1vel por aquilo. Achavam que eu devia saber. Mas eu n\u00e3o sabia. Ent\u00e3o, para facilitar a sua vida, e a minha, eu reformulava a pergunta:<\/p>\n<p>&#8211; OK, mas o que ela te faz sentir?<\/p>\n<p>As respostas eram as mais variadas. E interessantes. As pessoas usavam aquele momento para questionarem n\u00e3o s\u00f3 seu ambiente, mas a si mesmas. Algumas pessoas passaram a visitar a escultura e utiliz\u00e1-la como um pretexto para falar o que pensavam do trabalho e o que sentiam mas n\u00e3o tinham espa\u00e7o para dizer.<\/p>\n<p>Numa segunda feira, cheguei ao trabalho e encontrei um post it colado na escultura onde se lia &#8220;quem sou eu?&#8221;. Alguns dias depois surgiu um outro, com outra caligrafia, dizendo &#8220;quem \u00e9 voc\u00ea?&#8221;. A obra, que tinha nascido comigo, se tornara uma cria\u00e7\u00e3o coletiva. Colocamos mais bal\u00f5es. Pintamos os lados da caixa. Rearrumamos seus arames. Um dia, mostrando que o processo estava chegando ao seu \u00e1pice, apareceu uma coroa de papel\u00e3o na &#8220;cabe\u00e7a&#8221; da escultura e um post it desafiando: \u201cQue rei sou eu?\u201d.<\/p>\n<p>Ela recebeu diversos nomes, mas nenhum oficial. Como uma boa obra de arte, ela se tornou parte do seu ambiente e mais um integrante da comunidade. Ela cumpria um grande papel de liberar todo aquele povo oprimido do escrit\u00f3rio e dar-lhes uma breve mas intensa sensa\u00e7\u00e3o de liberdade. Se n\u00e3o pod\u00edamos nos rebelar contra o modelo corporativo-capitalista, ela fazia isso por n\u00f3s, silenciosa mas explicitamente. Eu devia saber que isso n\u00e3o ia dar certo.<\/p>\n<p>Um dia, o diretor mor da \u00e1rea passou na frente da minha esta\u00e7\u00e3o de trabalho. Ele passou direto, mas, tendo percebido algo estranho em cima do arm\u00e1rio, voltou. Parou em frente \u00e0 escultura, deixou seus pap\u00e9is sobre a minha mesa, olhou com aten\u00e7\u00e3o para ela por alguns momentos, co\u00e7ou o queixo, se virou pra mim e perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; O que \u00e9 isso?<br \/>\n&#8211; \u00c9 uma obra de arte coletiva que estamos fazendo. Daqui a pouco t\u00e1 pronta pra mandar pro Inhotim- esclareci.<\/p>\n<p>Ele riu e completou:<\/p>\n<p>&#8211; Se rolar dinheiro, separa um pouco pra mim.<\/p>\n<p>Para mim, essa tinha sido a maior vit\u00f3ria. O representante do poder estabelecido tinha n\u00e3o s\u00f3 aceito a cr\u00edtica que a escultura poderia estar fazendo, mas a ratificou com sua galhofa. Infelizmente nem todo mundo pensava assim.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 do dia seguinte, cheguei ao trabalho e a escultura tinha sumido. Muito burburinho. O que aconteceu? Ser\u00e1 que o diretor mandou jogar fora? Ser\u00e1 que foi pro lixo por engano? Pra onde ela foi? O n\u00edvel de ansiedade gerado pelo seu desaparecimento foi tal que uma das colegas que trabalhava na minha ger\u00eancia perguntou alto:<\/p>\n<p>&#8211; Algu\u00e9m sabe o que aconteceu com a nossa escultura?<\/p>\n<p>A princ\u00edpio, o sil\u00eancio. Olhamos para as outras baias, em busca de um olhar de culpa. N\u00e3o encontramos. Apenas olhares curiosos e igualmente preocupados com o sumi\u00e7o daquele colega de papel\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; EU JOGUEI FORA- meu gerente de ent\u00e3o respondeu levantando a cabe\u00e7a do seu laptop. Para piorar, completou- N\u00e3o agregava valor.<\/p>\n<p>Por mais besta que seja, fiquei abalado. Eu tinha sido censurado, para dizer o m\u00ednimo. N\u00e3o, eu n\u00e3o tinha sido censurado. N\u00f3s t\u00ednhamos sido censurados. A escultura n\u00e3o era s\u00f3 uma declara\u00e7\u00e3o de um indiv\u00edduo ou de um grupo, mas uma ferramenta que nos ligava e nos qualificava como membros da ra\u00e7a humana. Censur\u00e1-la era negar a nossa humanidade. Ela era uma de n\u00f3s ao mesmo tempo que era todos n\u00f3s. Ela nos dava a qualidade de sermos diferentes. De quem? Daqueles que a destru\u00edram.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a raiva inicial, entendi o que se deu. O tal gerente ficou incomodado pois n\u00e3o estava preparado para se sentir questionado. A sua &#8220;certeza&#8221; sobre si e sobre o mundo n\u00e3o podia ser abalada. Ele, exatamente como agiram os terroristas em Charlie, exercia o medo sobre os outros porque n\u00e3o conseguia conviver com o enorme medo que ele mesmo sentia. A escultura todo dia perguntava a ele \u201cQuem \u00e9 voc\u00ea?\u201d; fazia ele se perguntar \u201cQuem sou eu?\u201d; e finalmente questionava a sua realidade e a \u201crealeza\u201d da sua identidade com a quest\u00e3o final \u201cQue rei sou eu?\u201d. Em momento algum ela dava respostas. Nem as que ele podia concordar com, nem aquelas que podia ignorar por serem diferente das dele. Ela o questionava. Sem perd\u00e3o ou pudor. E n\u00e3o h\u00e1 maior crime do que esse.<\/p>\n<p>Quando penso no que aconteceu com o pessoal da Charlie Hebdo, penso nisso. Guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es, \u00e9 \u00f3bvio, eles tamb\u00e9m foram v\u00edtimas de censura. Uma censura mortal. Uma censura nascida de um medo t\u00e3o grande de ser questionado que s\u00f3 podia ser completa com a morte do outro que lhe fazia se questionar.<\/p>\n<p>O que fica claro pra mim frente a esses eventos \u00e9 que estamos vivendo num mundo t\u00e3o cheio de respostas f\u00e1ceis e falhas que qualquer pergunta se torna uma afronta fatal. A humanidade simplesmente n\u00e3o se mostra pronta para conviver com a ambiguidade da sua pr\u00f3pria identidade. N\u00e3o conseguimos aceitar a pergunta \u201cQuem sou eu?\u201d e sorrir por n\u00e3o ter como responder. E assim, desprovidos de autocr\u00edtica, n\u00e3o aceitamos quem nos faz pensar. E quando for\u00e7ados a isso, os censuramos. E, se n\u00e3o conseguimos censur\u00e1-los, tiramos seus bens, seus empregos, jogamos seu nome na lama, os amea\u00e7amos, os processamos, e, se nada funcionar, os matamos.<\/p>\n<p>E quando falo isso, n\u00e3o me refiro apenas aos grupos extremistas crist\u00e3os, aos terroristas e demais radicais ortodoxos. Falo de mim, de voc\u00ea e de todos n\u00f3s que agimos com tanto afinco e presteza quando procuramos nos proteger daquilo que amea\u00e7a a id\u00e9ia que temos de n\u00f3s mesmos. Como seria bom se tiv\u00e9ssemos tanta habilidade para ouvir uns aos outros sem julgamento ou defesa.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que a liberdade de express\u00e3o \u00e9 um direito t\u00e3o fundamental que tantas vezes se confunde com o pr\u00f3prio direito \u00e0 vida. Contudo, \u00e9 importante lembrar, a liberdade de express\u00e3o n\u00e3o \u00e9 simplesmente deixar o outro falar o que quiser e fazer ouvidos de mercador. Ignorar o que o outro fala n\u00e3o \u00e9 liberdade de express\u00e3o. Liberdade de express\u00e3o \u00e9 um acordo entre emissor e receptor. \u00c9 estar livre para ouvir o que o outro tem a dizer e mudar de opini\u00e3o. Ou n\u00e3o. \u00c9 estabelecer rela\u00e7\u00f5es com os outros membros da ra\u00e7a humana e se unir a eles ou decidir se diferenciar. Sem stress. \u00c9 saber que nada \u00e9 real, que tudo \u00e9 constru\u00eddo e, quando n\u00e3o concordarmos com outros, podemos seguir o conselho s\u00e1bio do Dude e dizer:<\/p>\n<p><iframe title=\"Yeah, well, that&#039;s just, like, your opinion, man.\" width=\"625\" height=\"352\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/pWdd6_ZxX8c?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Essa foi a minha opini\u00e3o. E voc\u00ea? Qual \u00e9 a sua?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando fiquei sabendo do atentado \u00e0 Charlie Hebdo, estranhamente me lembrei de um epis\u00f3dio que me aconteceu h\u00e1 uns dois anos. O andar onde eu trabalhava em Belo Horizonte ia ser reformado. Fomos for\u00e7ados a nos abrigar temporariamente num outro andar da empresa e a encaixotar tudo que n\u00e3o fosse de uso di\u00e1rio. 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