{"id":1644,"date":"2015-02-10T12:56:27","date_gmt":"2015-02-10T14:56:27","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=1644"},"modified":"2015-02-10T12:56:27","modified_gmt":"2015-02-10T14:56:27","slug":"a-fronteira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/a-fronteira\/","title":{"rendered":"A fronteira"},"content":{"rendered":"<p>Decidido a finalizar <a href=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=1629\" target=\"_blank\">o trabalho da semana anterior<\/a>\u00a0e fotografar campo e contracampo de todas as est\u00e1tuas urbanas da orla da zona sul, tomei a dif\u00edcil decis\u00e3o de atravessar a fronteira. A dificuldade da decis\u00e3o n\u00e3o se devia \u00e0 dist\u00e2ncia, qualidade de acesso ou qualquer barreira f\u00edsica. O que realmente me assustava, e assusta, quando preciso atravessar a fronteira, \u00e9 o choque cultural. A fronteira entre Copacabana e Ipanema\/Leblon, mais que uma fronteira f\u00edsica, \u00e9 uma fronteira conceitual; espiritual, quase.<\/p>\n<p>Tanto \u00e9 assim que a \u00e1rea onde um bairro come\u00e7a e o outro termina \u00e9 uma pororoca de id\u00e9ias e emo\u00e7\u00f5es. Bares tradicionais e sujos s\u00e3o, ao mesmo tempo, elegantes e\u00a0caros; pequenos locais que testemunharam momentos glamourosos vivem na inf\u00e2mia; galerias alternativas dependentes das \u00faltimas novidades nunca saem de moda; e tudo culmina numa termas na rua Cunning que, como dizem alguns conhecidos, gourmetizou a prostitui\u00e7\u00e3o. Essa\u00a0dist\u00e2ncia entre Copacabana e Ipanema,\u00a0de meras centenas de\u00a0metros f\u00edsicos, \u00e9 na verdade contada em anos luz ideol\u00f3gicos.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Armado de determina\u00e7\u00e3o e coragem, encarei o desafio. Peguei uma bicicleta na Miguel Lemos e me encaminhei em dire\u00e7\u00e3o ao Arpoador. No caminho, ainda em Copa, algumas fam\u00edlias abandonavam seus picnics noturnos e outras chegavam para o sol da manh\u00e3 no\u00a0posto 6; enquanto isso, pequenos grupos de idosos caminhavam em dire\u00e7\u00e3o a um final de vida um pouco mais saud\u00e1vel. Em breve deixaria essa fauna simp\u00e1tica por gente correndo em roupas de grife monitorados por\u00a0\u00a0gadgets de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 que estava pronto pra isso?<\/p>\n<p>Passei o Forte de Copacabana e na Francisco Otaviano um vento frio me freava, me lembrando que eu estava ultrapassando uma barreira, que al\u00ed n\u00e3o era meu lugar. Eu redobrei o esfor\u00e7o e venci o vento, mesmo sabendo que ele tinha raz\u00e3o. Ipanema n\u00e3o era meu lugar.<\/p>\n<p>Cheguei ao Arpoador e j\u00e1 encontrei Tom Jobim deixando a praia. Pl\u00e1cido ele seguia tranquilo e aparentemente sem rumo.<\/p>\n<div id=\"attachment_1646\" style=\"width: 460px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1646\" class=\"wp-image-1646 size-full\" src=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/tom.jpg\" alt=\"tom\" width=\"450\" height=\"541\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/tom.jpg 450w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/tom-250x300.jpg 250w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/tom-400x481.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><p id=\"caption-attachment-1646\" class=\"wp-caption-text\">Depois de uma noite de m\u00fasica, pra onde ele se dirigia?<\/p><\/div>\n<p>No contracampo, sua inten\u00e7\u00e3o ficou clara. Seu primeiro destino parecia ser o col\u00e9gio S\u00e3o Paulo. Como um Humboldt Humboldt ele buscava algum amor perdido da mocidade nas jovens meninas que chegavam \u00e0 escola pela manh\u00e3. Mas, como era domingo, ele estava sem sorte. A juventude pela qual ansiava estava em casa.<\/p>\n<div id=\"attachment_1651\" style=\"width: 460px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1651\" class=\"wp-image-1651 size-full\" src=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/tom_vista.jpg\" alt=\"tom_vista\" width=\"450\" height=\"173\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/tom_vista.jpg 450w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/tom_vista-300x115.jpg 300w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/tom_vista-400x154.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><p id=\"caption-attachment-1651\" class=\"wp-caption-text\">Volte na segunda feira, Tom.<\/p><\/div>\n<p>A ambiguidade moral de Ipanema j\u00e1 come\u00e7ava a mostrar sua cara. O que \u00e9 deplor\u00e1vel em um bairro, ganha contornos rom\u00e2nticos no outro. Enquanto em Copacabana um tarado pego com a menina de 13 anos ia ser linchado pela multid\u00e3o, o &#8220;amor&#8221; do cantor pela menina feia que estava entrando na puberdade era apenas uma curiosidade. N\u00e3o preciso dizer de quem estou falando.<\/p>\n<p>Copacabana, com toda a sua moral distorcida, n\u00e3o esconde quem \u00e9 atr\u00e1s de meias palavras. Apesar de preto e branco conviverem funcional e, muitas vezes, amistosamente, h\u00e1 pouco cinza no bairro. J\u00e1 em Ipanema tudo \u00e9 cinza. Tudo \u00e9 aceit\u00e1vel. Tudo \u00e9 explic\u00e1vel. Ningu\u00e9m est\u00e1 errado. Ningu\u00e9m est\u00e1 certo. Nada \u00e9 verdade, tudo \u00e9 permitido. Em Copa, tudo \u00e9 errado, nada \u00e9 permitido, mas n\u00e3o escondemos quem sabemos ser.<\/p>\n<p>Continuei pela orla e ao longe o hotel Marina apontava o final do Leblon como um farol. Imortalizado pela m\u00fasica da cantora hom\u00f4nima, ele sempre me pareceu o sum\u00e1rio definitivo do\u00a0Leblon. Um bairro onde \u00e9 bonito ser triste e a riqueza traz uma infelicidade da qual ningu\u00e9m quer se livrar. N\u00e3o admira que o Hotel Marina quando acende despreze a popula\u00e7\u00e3o e n\u00e3o o fa\u00e7a em nome de ningu\u00e9m. Essa indiferen\u00e7a me incomodava tanto na juventude que mais de uma vez esperei o nascer do sol na sua frente para v\u00ea-lo apagar. Sempre em v\u00e3o. Se n\u00e3o acende por mim nem por ningu\u00e9m, por que iria apagar?<\/p>\n<div id=\"attachment_1650\" style=\"width: 460px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1650\" class=\"wp-image-1650 size-full\" src=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/marina.jpg\" alt=\"marina\" width=\"450\" height=\"427\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/marina.jpg 450w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/marina-300x285.jpg 300w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/marina-400x380.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><p id=\"caption-attachment-1650\" class=\"wp-caption-text\">O hotel marina&#8230; yada&#8230;yada&#8230;yada<\/p><\/div>\n<p>Cheguei ao final do Leblon e, fechando a minha aventura, Z\u00f3zimo aproveitava\u00a0a vista me ignorando.<\/p>\n<div id=\"attachment_1649\" style=\"width: 460px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1649\" class=\"wp-image-1649 size-full\" src=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/zozimo.jpg\" alt=\"zozimo\" width=\"450\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/zozimo.jpg 450w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/zozimo-169x300.jpg 169w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/zozimo-400x711.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><p id=\"caption-attachment-1649\" class=\"wp-caption-text\">Z\u00f3zimo: nem a\u00ed pra mim ou pra voc\u00ea<\/p><\/div>\n<p>E com uma vista dessas quem pode n\u00e3o lhe dar raz\u00e3o?<\/p>\n<div id=\"attachment_1648\" style=\"width: 460px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1648\" class=\"wp-image-1648 size-full\" src=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/zozimo_vista.jpg\" alt=\"zozimo_vista\" width=\"450\" height=\"253\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/zozimo_vista.jpg 450w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/zozimo_vista-300x169.jpg 300w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/zozimo_vista-400x225.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><p id=\"caption-attachment-1648\" class=\"wp-caption-text\">Realmente, a vista \u00e9 de matar<\/p><\/div>\n<p>Com a miss\u00e3o cumprida, comecei minha volta e me questionei por que tenho tanta hojeriza de Ipanema e Leblon. Lembrei dos anos em que trabalhei ou morei na \u00e1rea e como me sentia inadequado. Talvez o problema n\u00e3o fosse do bairro, mas, sim, \u00a0uma falha minha projetada neles. Talvez eu n\u00e3o estivesse pronto para essa liberdade moral. Por outro lado, sentia que n\u00f3s, os oprimidos por nossas consci\u00eancias, merec\u00edamos uma folga. Enquanto em Copa, at\u00e9 na praia, olhamos sempre para dentro, presos na nossa Ba\u00eda; em Ipanema e no Leblon, o olhar sempre era para fora reafirmando\u00a0a validade dos desejos mais esp\u00farios\u00a0de cada um. N\u00f3s, copacabanenses, \u00a0ao contr\u00e1rio, somos\u00a0for\u00e7ados a olhar uns para os outros e, consequentemente, ver e viver nossos erros. \u00a0N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que Copacabana \u00e9 o bairro com mais igrejas na cidade. Estamos continuamente em modo de expia\u00e7\u00e3o. J\u00e1 em Ipanema e Leblon, distorcendo\u00a0as palavras de Ney Matogrosso, n\u00e3o existe pecado abaixo\u00a0do Arpoador.<\/p>\n<p>Entrei na Francisco Otaviano e deixei os bairros sem olhar para tr\u00e1s. Seja por que for, n\u00e3o perten\u00e7o a eles. Nem suas est\u00e1tuas falam a mim. Elas est\u00e3o presas demais em suas subjetividades e pouco questionam quem s\u00e3o. Assim como as in\u00fameras est\u00e1tuas \u00a0que perambulam vivas pelos bairros.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o culpo os bairros.\u00a0O problema \u00e9 meu. Sou eu que n\u00e3o estou pronto para isso. Pra toda essa aceita\u00e7\u00e3o incondicional. Apesar de bela e sedutora, podem ficar com essa vista amb\u00edgua e permissiva para voc\u00eas. Como bom neur\u00f3tico de forma\u00e7\u00e3o judaico\/crist\u00e3, prefiro olhar para dentro. N\u00e3o cometerei o erro da mulher de Lot. N\u00e3o olharei pra tr\u00e1s. \u00a0Dessa \u00a0Sodoma e Gomorra, n\u00e3o tenho nada para sentir saudades.<\/p>\n<div id=\"attachment_1647\" style=\"width: 460px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1647\" class=\"wp-image-1647 size-full\" src=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/zozimo_vista2.jpg\" alt=\"zozimo_vista2\" width=\"450\" height=\"253\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/zozimo_vista2.jpg 450w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/zozimo_vista2-300x169.jpg 300w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/zozimo_vista2-400x225.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><p id=\"caption-attachment-1647\" class=\"wp-caption-text\">Armadilha perfeita para est\u00e1tuas de sal<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Decidido a finalizar o trabalho da semana anterior\u00a0e fotografar campo e contracampo de todas as est\u00e1tuas urbanas da orla da zona sul, tomei a dif\u00edcil decis\u00e3o de atravessar a fronteira. 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