{"id":1674,"date":"2015-03-05T15:15:58","date_gmt":"2015-03-05T18:15:58","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=1674"},"modified":"2023-10-12T13:20:23","modified_gmt":"2023-10-12T16:20:23","slug":"ja-te-contei-por-que-amo-copacabana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/ja-te-contei-por-que-amo-copacabana\/","title":{"rendered":"J\u00e1 te contei por que amo Copacabana?"},"content":{"rendered":"<p>Deixa eu te falar&#8230;<\/p>\n<p>A briga come\u00e7a como a maioria delas come\u00e7a. O cansa\u00e7o pesando pelo tardar da noite ou pelo despontar da madrugada; os \u00e2nimos exaltados pelo \u00e1lcool e pelos resultados do futebol de meio de semana; a depress\u00e3o inescap\u00e1vel de ter que conciliar, no dia seguinte, a ressaca iminente com um trabalho que n\u00e3o nos valoriza. Junte a isso um engano, um trope\u00e7o, uma palavra mal entendida, ou, at\u00e9 mesmo, um pequeno esbarr\u00e3o e est\u00e1 pronta a confus\u00e3o.<\/p>\n<p>Os envolvidos se estranham. Olhares tortos, palavras tortas. O primeiro empurr\u00e3o. Dessa vez, intencional. Se abre espa\u00e7o no meio do bar e, em uma dan\u00e7a orquestrada, os brig\u00f5es se afastam e se aproximam, mostrando o quanto querem lutar por sua honra e o quanto acham que o outro deve desistir.<\/p>\n<p>As tentativas de intimida\u00e7\u00e3o surgem furiosas de um lado e do outro. Os outros clientes do bar, movidos pela demonstra\u00e7\u00e3o de agressividade gratuita, come\u00e7am a se sentir obrigados a tomar partido. Primeiro os amigos e conhecidos se posicionam. Depois as lealdades. Pelo time de cora\u00e7\u00e3o. Pelas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Por afinidades que ningu\u00e9m consegue explicar. O que era uma briga entre duas pessoas vira uma inimizade ancestral entre fac\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nisso entra em jogo o terceiro time. O time do deixa disso. Desmoralizado, sem entender bem o que se passa e sem argumentos para convencer a turba enfurecida, eles tentam impedir o inevit\u00e1vel com palavras de ordem e chav\u00f5es in\u00fateis:<\/p>\n<p>&#8211; P\u00f4, pessoal!<br \/>\n&#8211; Onde j\u00e1 se viu\u2026<br \/>\n&#8211; Voc\u00eas s\u00e3o t\u00e3o amigos.<br \/>\n&#8211; Vamos l\u00e1! Vamos fazer as pazes?<br \/>\n&#8211; Vamos parar com isso? POR FAVOR?!<\/p>\n<p>Nesse bal\u00e9 desengon\u00e7ado, o dono do bar, como o tocador de pratos de uma orquestra ca\u00f3tica, espera o momento certo de chamar a pol\u00edcia. Objetivo: resguardar a integridade do seu empreendimento perdendo o m\u00ednimo de clientes. Sabe que, infelizmente, nunca agir\u00e1 no momento certo. Na confus\u00e3o, algu\u00e9m esbarra numa garrafa que cai no ch\u00e3o gongando o in\u00edcio da luta.<\/p>\n<p>Os \u00e2nimos se acirram. Os iniciadores da confus\u00e3o aproximam seus rostos e respiram bufando um na cara do outro. Falta pouco para tudo degringolar. Apenas um tapa. Um cuspe. Um olhar mais feio. Ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Olhem l\u00e1!- algu\u00e9m grita da porta do bar.<\/p>\n<p>Alertas pela adrenalina gerada nas preliminares da briga, todos se viram. Caminhando onde os carros deveriam passar, cinco mulheres, para dizer a verdade, meninas, lindas, no primor da sua juventude, tomam a rua numa passeata misteriosa. Rindo e languidamente apressadas, elas caminham pelo meio da avenida com destino e origem ignorados. Apenas um detalhe: todas est\u00e3o vestidas de havaianas. \u00c9. Havaianas. Com colares de flores de papel crepom; tops imitando cocos; arranjos exagerados nos cabelos; e saias de palha pl\u00e1stica colorida. E, para completar,\u00a0de p\u00e9s inexplicavelmente descal\u00e7os. Alheias \u00e0 briga, elas flanam faceiras, se dando empurr\u00f5es e cutucos assim como os brig\u00f5es. S\u00f3 que, no caso delas, sem agressividade, apenas com cumplicidade.<\/p>\n<p>No bar, homens e mulheres, inebriados por sua presen\u00e7a, respiram fundo tentando sentir o seu perfume. Sentem. Ou imaginam que sentem. N\u00e3o faz diferen\u00e7a. E sorriem. Verdadeiramente.<\/p>\n<p>As teorias come\u00e7am a surgir. Assim como as d\u00favidas. Quem s\u00e3o elas? De onde vem? Para onde v\u00e3o? O que diabos est\u00e3o fazendo aqui? \u00c0 essa hora?! As d\u00favidas e curiosidades s\u00e3o muitas e suficientes para distrair todos do conflito que parecia ser t\u00e3o necess\u00e1rio resolver.<\/p>\n<p>As meninas dobram a rua e somem a caminho da praia. Como um perfume marcante, seu riso ecoa nas paredes dos pr\u00e9dios nos lembrando da sua exist\u00eancia, at\u00e9 que some num sil\u00eancio ensurdecedor. De um momento para o outro, aquilo que parecia t\u00e3o real e t\u00e3o correto deixa de existir de fato.<\/p>\n<p>Todos baixam as cabe\u00e7as. N\u00e3o sabem mais o que fazer. Alguns se sentam, aturdidos. Outros aproveitam para pagar a conta e escapar \u00e0 francesa da confus\u00e3o. Alguns, magoados pelo sumi\u00e7o das meninas, lembram da briga e transformam a sua frustra\u00e7\u00e3o em agressividade, retomando o conflito. Os brig\u00f5es, mesmo sem clima, voltam \u00e0s suas posi\u00e7\u00f5es iniciais. Podem at\u00e9 apanhar mas nunca desistir\u00e3o daquilo em que acreditam. Se perguntam sem resposta: qual era mesmo a raz\u00e3o da briga? Voltamos ao come\u00e7o.<\/p>\n<p>Os envolvidos se estranham. Olhares tortos, palavras tortas. Antes do novo primeiro empurr\u00e3o, uma surpresa.<\/p>\n<p>Despontando\u00a0no in\u00edcio da rua, uma sexta havaiana, n\u00e3o t\u00e3o bonita, mas infinitamente mais charmosa, corre esbaforida atr\u00e1s de suas amigas, deixando seu colar cair pelo caminho.<\/p>\n<p>&#8211; Me esperem. ME ESPEREM!<\/p>\n<p>O bar inteiro \u00e9 obrigado a cair na gargalhada. Os brig\u00f5es, envergonhados com a sua postura, se abra\u00e7am e oferecem, mesmo sem dinheiro suficiente, pagar a conta um do outro. O dono do bar suspira por ter escapado por pouco da decis\u00e3o entre proteger a estrutura do bar e manter a clientela. Os outros clientes agora d\u00e3o raz\u00e3o \u00e0 turma do deixa disso e os parabenizam por tentar manter a paz.<\/p>\n<p>&#8211; Paz. Amor. Beleza. Assim n\u00e3o \u00e9 melhor de se viver?- sentenciam e fecham o caso.<\/p>\n<p>As saideiras s\u00e3o pedidas e o mais empolgado dos clientes, sempre h\u00e1 um deles, sai correndo pelo meio da rua atr\u00e1s das meninas com o colar abandonado na m\u00e3o. Depois da meia noite, busca por sua Cinderela havaiana.<\/p>\n<p>&#8211; Ei, espere por mim tamb\u00e9m. ESPERE POR MIM!<\/p>\n<p>J\u00e1 te contei por que amo Copacabana? Deixa eu te falar&#8230;<\/p>\n<p>A briga come\u00e7a&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Deixa eu te falar&#8230; A briga come\u00e7a como a maioria delas come\u00e7a. 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