{"id":1697,"date":"2015-04-19T07:25:56","date_gmt":"2015-04-19T10:25:56","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=1697"},"modified":"2015-04-19T07:25:56","modified_gmt":"2015-04-19T10:25:56","slug":"bom-mocismo-zona-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/bom-mocismo-zona-sul\/","title":{"rendered":"Bom mocismo Zona Sul"},"content":{"rendered":"<p>S\u00e1bado. 9 e 57 da noite. Os bares na orla de Copacabana est\u00e3o lotados. E com fila de espera. O menino que vende chiclete usa isso a seu favor, enquanto dribla os gar\u00e7ons que insistem em espant\u00e1-lo. Vende um chiclete aqui, leva um passa fora al\u00ed, consegue rodar um sal\u00e3o de restaurante inteiro sem ningu\u00e9m importun\u00e1-lo. Fatura. Devagar, mas bem. Os seus minutos s\u00e3o cheios de altos e baixos. N\u00e3o h\u00e1 tempo para lamentar nem para comemorar. S\u00f3 h\u00e1 tempo para agir.<\/p>\n<p>Entra em mais um bar. Os gar\u00e7ons ocupados com o movimento n\u00e3o o notam. Avan\u00e7a pelas mesas. N\u00e3o. N\u00e3o. N\u00e3o. N\u00e3o, muito obrigado. De nada. <em>De nada?<\/em> No outro lado do bar, uma mesa com uma mulher, um beb\u00ea e uma menina. Mais ou menos da sua idade. Mesa boa. Os beb\u00eas costumam amolecer as pessoas e os cora\u00e7\u00f5es. Usa as pilastras para se esconder dos gar\u00e7ons, enquanto caminha o mais r\u00e1pido que pode at\u00e9 a mesa. Chega ao seu destino.<\/p>\n<p>&#8211; Vai um chiclete? Uma ajudinha, por favor?<\/p>\n<p>A mulher o ignora e levanta ninando o beb\u00ea que come\u00e7a a chorar. Perdi, perdi, pensa. Mas insiste com a menina:<\/p>\n<p>&#8211; Um chiclete? Uma ajuda?<\/p>\n<p>A menina olha para ele s\u00e9ria, franze os l\u00e1bios e cruza os bra\u00e7os com uma express\u00e3o de pena.<\/p>\n<p>&#8211; Pode vir aqui mais perto, por favor?- ela convida.<\/p>\n<p>Ele atende. Ela quase encosta a boca no seu ouvido e come\u00e7a a falar:<\/p>\n<p>&#8211; Sabia que trabalho infantil \u00e9 crime?<br \/>\n&#8211; Ahn?<br \/>\n&#8211; Crime. \u00c9, crime. Eu vi na televis\u00e3o. Voc\u00ea devia estar estudando, brincando. Esses s\u00e3o os direitos das crian\u00e7as. Voc\u00ea n\u00e3o devia estar trabalhando. Olha, n\u00e3o vou comprar o chiclete mas vou te dar uma coisa melhor&#8230;<br \/>\n&#8211; O qu\u00ea?<br \/>\n&#8211; Um conselho. Fala com os teus pais que eles est\u00e3o cometendo um crime quando te colocam pra trabalhar. Fala pra eles. Se quiser, v\u00ea na internet qual \u00e9 a lei. Aposto que vai resolver o teu problema. Entendeu o que eu disse?<br \/>\n&#8211; Entendi?<br \/>\n&#8211; Bom, tomara que s\u00e1bado que vem voc\u00ea possa estar em casa brincando e n\u00e3o vendendo chiclete. T\u00e1 bom? Ent\u00e3o, \u00f3, boa sorte, t\u00e1?<br \/>\n&#8211; T\u00e1.<br \/>\n&#8211; E n\u00e3o esquece meu conselho, viu?<\/p>\n<p>O menino se afasta da mesa chocado, esfrega o ouvido para limpar os perdigotos da menina e sai do bar sem olhar pra tr\u00e1s. A menina toma um gole de coca-cola e sorri triunfante. Fez uma boa a\u00e7\u00e3o hoje. O menino entra no pr\u00f3ximo bar e continua a vender seus chicletes procurando evitar clientes malucos dessa vez. Tomara que tenha essa sorte.<\/p>\n<p>S\u00e1bado. 10 e 23 da noite. No balan\u00e7o geral, nenhum problema social foi resolvido em Copacabana. Apesar de todos os esfor\u00e7os do bom mocismo zona sul h\u00e1 alguns males que conselho sozinho n\u00e3o consegue curar. Uma pena. Uma pena.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e1bado. 9 e 57 da noite. Os bares na orla de Copacabana est\u00e3o lotados. E com fila de espera. 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