{"id":1761,"date":"2015-12-27T11:46:30","date_gmt":"2015-12-27T13:46:30","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=1761"},"modified":"2023-10-12T13:23:55","modified_gmt":"2023-10-12T16:23:55","slug":"por-que-precisamos-acabar-com-roberto-carlos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/por-que-precisamos-acabar-com-roberto-carlos\/","title":{"rendered":"Por que precisamos acabar com Roberto Carlos"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1763\" src=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/rc_intro.jpg\" alt=\"rc_intro\" width=\"500\" height=\"226\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/rc_intro.jpg 500w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/rc_intro-300x136.jpg 300w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/rc_intro-400x181.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo natalino, \u00e9 s\u00f3 ligar a televis\u00e3o para esbarrarmos com a onipresen\u00e7a de Roberto Carlos. Quando n\u00e3o temos a sua decr\u00e9pita imagem na tela, s\u00e3o artistas da moda bajulando-o com frases feitas em forma de ora\u00e7\u00e3o; ou novas estrelas da m\u00fasica ofertando ritualmente a sua energia vital ao cantor moribundo; ou jornalistas tentando inutilmente nos convencer da import\u00e2ncia que ele nunca teve; ou subcelebridades que n\u00e3o conseguiram participar desse funeral anual lamentando estarem fora dessa festa nacional.<\/p>\n<p>A onipresen\u00e7a de Roberto Carlos, na comemora\u00e7\u00e3o do nascimento de Cristo, \u00e9 bem pertinente e serve como um belo contraponto, pois, como a comemora\u00e7\u00e3o do anivers\u00e1rio de algu\u00e9m que j\u00e1 morreu h\u00e1 dois mil\u00eanios, se trata do vel\u00f3rio eterno de uma ideia que se recusa a morrer. Uma ritual de nega\u00e7\u00e3o que nos impede de fechar o luto pela morte do tal proclamado &#8220;rei&#8221;.<\/p>\n<p>Roberto Carlos, assim como a ditadura, sua irm\u00e3 g\u00eamea espiritual, morreu em meados dos anos 80. Mas, ao contr\u00e1rio dela, se manteve em coma, sustentado por aparelhos, por mulheres gordinhas, de \u00f3culos e por caminhoneiros, at\u00e9 que voltou a uma n\u00e3o vida e vaga pelos nossos natais e transatl\u00e2nticos como um zumbi, evocando sentimentos de melancolia e saudades de controle. Cultuar o rei, assim como cultuar a ditadura, \u00e9 acreditar numa nostalgia in\u00fatil e sadomasoquista. Se a ditadura fingia que iria nos ensinar a crescer e votar, <em>apud<\/em> Pel\u00e9, Roberto Carlos fingia que ia nos ensinar a amar.<\/p>\n<p>Com sua postura pseudo sexy e sua manifesta\u00e7\u00e3o ostensiva de uma masculinidade de romance barato, ele criou o AI-5 do romantismo. Promovida por esse arauto da ditadura emocional toda uma cultura de caf\u00e9s da manh\u00e3, cavalgadas, cabelos encaracolados e met\u00e1foras sexuais de botequim se formou. Presos a essas cren\u00e7as, passadas de pai e m\u00e3e para filhos, continuamos infantilizados e sem autonomia para escolher como amar. Assim como ainda n\u00e3o entendemos a democracia e esperamos que a salva\u00e7\u00e3o venha de pol\u00edticos, ainda continuamos proferindo as m\u00fasicas do &#8220;rei&#8221; como uma ora\u00e7\u00e3o em busca do amor que acreditamos n\u00e3o merecer.<\/p>\n<div id=\"attachment_1762\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1762\" class=\"wp-image-1762 size-full\" src=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/rc_ostenta.jpg\" alt=\"rc_ostenta\" width=\"400\" height=\"453\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/rc_ostenta.jpg 400w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/rc_ostenta-265x300.jpg 265w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><p id=\"caption-attachment-1762\" class=\"wp-caption-text\">Terrorista do romance ostenta\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>Precisamos nos livrar dessas saudades do macho alfa da ditadura. Precisamos destruir esse \u00edcone psicosexual do mau caratismo bem intencionado. Precisamos saber que fomos e ainda somos v\u00edtimas de um esquema para tornar a todos n\u00f3s v\u00edtimas e canalhas. Como a ditadura n\u00e3o nos ensinou a crescer, Roberto Carlos n\u00e3o nos ensinou a amar. E, enquanto continuarmos ritualizando a sua n\u00e3o morte todos os anos, n\u00e3o seremos livres para cometer nossos pr\u00f3prios erros e continuaremos a acreditar que o amor, a liberdade e a maturidade emocional s\u00e3o coisas que est\u00e3o nos outros e n\u00e3o em n\u00f3s mesmos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesse per\u00edodo natalino, \u00e9 s\u00f3 ligar a televis\u00e3o para esbarrarmos com a onipresen\u00e7a de Roberto Carlos. 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