{"id":1775,"date":"2016-02-20T06:56:28","date_gmt":"2016-02-20T08:56:28","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=1775"},"modified":"2016-02-20T06:56:28","modified_gmt":"2016-02-20T08:56:28","slug":"ecos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/ecos\/","title":{"rendered":"Ecos"},"content":{"rendered":"<p>No meio da madrugada, o barulho da m\u00e1quina de escrever el\u00e9trica me acordou. Segui o zumbido futurista do deslizar da esfera met\u00e1lica da IBM at\u00e9 o quarto da minha m\u00e3e. Sob uma fraca lumin\u00e1ria ela se esfor\u00e7ava para escrever curvada sobre aquela grande pe\u00e7a de metal verde. Fiquei ao seu lado por pelo menos uns 5 minutos antes que ela se desse conta da minha presen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Te acordei, filholo?<\/p>\n<p>Ela me colocou no colo e me levou de volta pra cama.<\/p>\n<p>&#8211; Desculpa, filholo, mas enquanto n\u00e3o terminar de escrever essa tese vou ser obrigada a passar as noites com o Umberto Eco.<br \/>\n&#8211; Quem \u00e9 Umberto Eco?<br \/>\n&#8211; \u00c9 um homem que eu n\u00e3o sei se amo ou odeio.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>A greve da UFRJ levou as aulas mais uma vez para janeiro. Eu estava de f\u00e9rias do col\u00e9gio, mas minha m\u00e3e n\u00e3o tinha com quem me deixar. O que fazer? Leva o menino pra faculdade. Ela me sentava no final da turma e eu passava as tardes vendo o povo discutir coisas que eu n\u00e3o entendia e, confesso, ainda n\u00e3o entendo direito.<\/p>\n<p>Naquele dia foi diferente. De noite minha m\u00e3e me entregou um livro vermelho e grosso e me disse:<\/p>\n<p>&#8211; Pra voc\u00ea n\u00e3o ficar boiando amanh\u00e3, l\u00ea das p\u00e1ginas 84 \u00e0 127.<\/p>\n<p>Eu li. O livro falava dos n\u00fameros perfeitos, da arquitetura do para\u00edso, das falhas de Deus e como o homem n\u00e3o conseguia entend\u00ea-lo. Era isso que era a tal da Filosofia?<\/p>\n<p>No dia seguinte assisti ao semin\u00e1rio dela sobre O Nome da Rosa me sentindo o tal. N\u00e3o boiei tanto e lembro de at\u00e9 ter a emp\u00e1fia de fazer perguntas. Nascia em mim o verme do esnobismo intelectual.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>Fizeram o filme de O Nome da Rosa. Todos do col\u00e9gio fomos assistir. Naquela \u00e9poca ou \u00edamos ao cinema, ver o que estivesse passando, ou fic\u00e1vamos de castigo assistindo ao Chacrinha. Pra alguns, que tinham suas chacretes preferidas, nem era castigo.<\/p>\n<p>Duas horas depois de franciscanos versus beneditinos, sa\u00edmos do filme em choque. Menos pelos peitos da Valentina Vargas, mais por descobrirmos que estud\u00e1vamos no col\u00e9gio dos vil\u00f5es do filme.<\/p>\n<p>&#8211; Putz, esses beneditinos s\u00e3o filhos da puta h\u00e1 muito tempo- chegamos \u00e0 conclus\u00e3o entre um chicken mcnugget e outro.<br \/>\n&#8211; Pois, \u00e9. O filme \u00e9 medieval mas retrata igualzinho o que a gente vive hoje.<br \/>\n&#8211; Isso. Vivemos num labirinto de livros perseguidos por monges pervertidos.<br \/>\n&#8211; \u00c9.<br \/>\n&#8211; \u00c9.<br \/>\n&#8211; \u00c9.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o. N\u00e3o. N\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Como assim, n\u00e3o?<br \/>\n&#8211; Voc\u00eas n\u00e3o entenderam nada. N\u00e3o somos os franciscanos. N\u00f3s somos os beneditinos.<\/p>\n<p>E no sil\u00eancio da concord\u00e2ncia nos descobrimos como os vil\u00f5es que ainda somos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>Meu s\u00f3cio estava recebendo a sobrinha da namorada australiana \u00a0para passar o R\u00e9veillon no Rio. Quando ela cansou de praia, Cristo, botequim e P\u00e3o de A\u00e7\u00facar, ele me ligou pedindo ajuda:<\/p>\n<p>&#8211; A menina diz que gosta de ler. Traz uma porra desses teus pockets em ingl\u00eas a\u00ed pra ela.<\/p>\n<p>Coisa dif\u00edcil escolher livros pros outros. Especialmente para quem n\u00e3o se conhece.<br \/>\nDepois de duas horas de considera\u00e7\u00f5es, me decidi: O P\u00eandulo de Foucault.<\/p>\n<p>Entreguei o livro pra menina. Dois dias depois, durante um almo\u00e7o no trabalho, o meu s\u00f3cio me devolve o livro.<\/p>\n<p>&#8211; Uau, ela j\u00e1 leu?<br \/>\n&#8211; Nada. Nem chegou na p\u00e1gina 10. Falou que era baboseira intelectual. Sabe como \u00e9? Australiana.<\/p>\n<p>Fui vencido pelo anti-intelectualismo anglo sax\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>Quarta de cinzas. Um dos meus amigos de col\u00e9gio me chama prum churrasco na sua casa. O resto da galera fura e sem ter muito o que fazer al\u00e9m de tomar cerveja e comer carne, acabamos passando a revista na biblioteca dele. Numa das estantes mais altas, uma c\u00f3pia de O Nome da Rosa.<\/p>\n<p>&#8211; Putz. \u00c9 teu?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o. Algu\u00e9m deixou aqui.<br \/>\n&#8211; Lembra do filme?<br \/>\n&#8211; Lembro. Lembro. Filme bom. Livro meeerda.<br \/>\n&#8211; Mas e o&#8230;<br \/>\n&#8211; Os peitos da Valentina Vargas?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o. O lance de descobrirmos que \u00e9ramos os vil\u00f5es do filme.<br \/>\n&#8211; Ah, isso. Esquece. Hoje em dia n\u00e3o d\u00e1 pra ficar assumindo esse tipo de s\u00edmbolo em p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>Umberto Eco morreu. Lembro que comprei O N\u00famero Zero e ainda n\u00e3o li. Assim que amanhecer vou procurar nas estantes. Vejo o quanto a minha casa se tornou um pequeno mosteiro beneditino. Labirintos de livros e armadilhas para os incautos em busca do saber\/prazer. O quanto disso se deve a ele? Ou o quanto disso eu atribuo a ele?<\/p>\n<p>Os s\u00edmbolos, no fim da hist\u00f3ria, n\u00e3o parecem ter sentido na medida em que eles s\u00f3 se justificam pelo poder que tem de nos tornar s\u00edmbolos para n\u00f3s mesmos. Como os monges lambemos livros envenenados em busca de algo que n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1. Vivemos em cidades cenogr\u00e1ficas que fingimos ser reais.<\/p>\n<p>Enquanto digito essas palavras numa extens\u00e3o para o Chrome que simula o som de uma m\u00e1quina de escrever, recebo um e-mail do<a href=\"http:\/\/ereaderiq.com\/\" target=\"_blank\"> EReaderIQ<\/a>\u00a0 avisando que <a href=\"http:\/\/amzn.to\/1L0zL7l\" target=\"_blank\">o Cemit\u00e9rio de Praga est\u00e1 em promo\u00e7\u00e3o na Amazon<\/a>. O e-book. Algo que Umberto Eco tanto odiava. Ser\u00e1 um sinal de que ele, como ideia, est\u00e1 finalmente morto? Ou ser\u00e1 que apenas estou transformando essa serendipidade em mais um s\u00edmbolo vazio?<\/p>\n<p>Compro o livro. Os s\u00edmbolos e os signos que cuidem dos seus pr\u00f3prios significados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No meio da madrugada, o barulho da m\u00e1quina de escrever el\u00e9trica me acordou. Segui o zumbido futurista do deslizar da esfera met\u00e1lica da IBM at\u00e9 o quarto da minha m\u00e3e. 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