{"id":1824,"date":"2016-05-25T09:35:48","date_gmt":"2016-05-25T12:35:48","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=1824"},"modified":"2016-05-25T09:35:48","modified_gmt":"2016-05-25T12:35:48","slug":"sempre-o-domingos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/sempre-o-domingos\/","title":{"rendered":"Sempre o Domingos"},"content":{"rendered":"<p>Eu tive um professor de Filosofia da Arte que era fenomenal. Era o tipo de sujeito que chorava explicando o plot de Ant\u00edgona e explicitava as diferen\u00e7as entre drama e trag\u00e9dia simulando uma crise de diarreia protagonizada por Get\u00falio Vargas. Saca o tipo? Tive aula com ele no breve per\u00edodo em que, sabe se l\u00e1 por que, calhei de estudar na PUC. Preso naquele Shangri-l\u00e1 vizinho ao Baixo G\u00e1vea, onde todos eram belos e jovens, eu sempre me sentia um estrangeiro. Apesar dessa inadequa\u00e7\u00e3o, resisti bravamente por dois anos, especialmente por conta de professores como esse.<\/p>\n<p>Uma vez, falando do Asdr\u00fabal Trouxe o Trombone, o professor resumiu a sua opini\u00e3o sobre arte e universalidade:<\/p>\n<p>&#8211; Porra! Se o tro\u00e7o s\u00f3 fala com dois ter\u00e7os da zona sul do Rio, por mais engra\u00e7ado e legal que seja, n\u00e3o d\u00e1 pra chamar de arte. Arte tem que ser universal. Universal. Por exemplo, a Ant\u00edgona&#8230;- e desandava a chorar pelo destino da pobre coitada.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca concordei e assim que ouvi o coment\u00e1rio s\u00f3 me veio \u00e0 mente o Domingos de Oliveira.<\/p>\n<div id=\"attachment_1825\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1825\" class=\"wp-image-1825\" src=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/2015-846230318-2015090357848.jpg_20150927.jpg\" alt=\"2015-846230318-2015090357848.jpg_20150927\" width=\"400\" height=\"240\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/2015-846230318-2015090357848.jpg_20150927.jpg 699w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/2015-846230318-2015090357848.jpg_20150927-300x180.jpg 300w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/2015-846230318-2015090357848.jpg_20150927-320x192.jpg 320w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/2015-846230318-2015090357848.jpg_20150927-400x240.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><p id=\"caption-attachment-1825\" class=\"wp-caption-text\">N\u00e3o apenas um, mas v\u00e1rios Domingos<\/p><\/div>\n<p>\u00c9, o Domingos. N\u00e3o sabe de quem estou falando? Todo mundo conhece o Domingos de Oliveira. \u00c9&#8230; Aquele cara dos filmes de baixo or\u00e7amento sobre a zona sul-sul do Rio de Janeiro. Isso. O cara que teve a cara de pau de criar um movimento tipo Dogma 99 para justificar suas produ\u00e7\u00f5es; o B.O.A.A., Baixo Or\u00e7amento Alto Astral. \u00c9&#8230; aquele mesmo. O sujeito que inventou a Leila Diniz. O pai da Maria Mariana, mentor da pe\u00e7a e do livro que, sei l\u00e1 por que, me infernizaram tanto em 1992\/3. Sim, esse. Esse Domingos de Oliveira.<\/p>\n<p>J\u00e1 tinha visto alguns de seus filmes e claramente se encaixavam na defini\u00e7\u00e3o do professor. Eram fenomenais, mas falavam com um p\u00fablico t\u00e3o limitado geograficamente que n\u00e3o dava pra chamar de arte. Eram basicamente com\u00e9dias rom\u00e2nticas despretensiosas sobre a classe art\u00edstica que transita na zona sul do Rio de Janeiro. Cheias de piadas internas sobre a Globo, gar\u00e7ons e casos amorosos. Enfim, hist\u00f3rias locais. Onde estaria a universalidade pedida pela &#8220;arte&#8221; naqueles porres e papos em bares dos baixos G\u00e1vea e Leblon? Aparentemente em lugar nenhum.<\/p>\n<p>Os anos passaram, sa\u00ed (ufa!) da PUC, juntei, desjuntei, entrei no mercado de trabalho, casei, comecei a fazer parte da farsa do mundo adulto, mudei para Belo Horizonte e um dia, num canal qualquer, numa madruga insone, estava passando Separa\u00e7\u00f5es. \u00c9, Separa\u00e7\u00f5es do Domingos de Oliveira.<\/p>\n<p>Lembro que na primeira vez que assisti ri horrores. Mas n\u00e3o por um bom motivo. Havia no filme uma carga absurda de humor n\u00e3o proposital. Me parecia que certas cenas e situa\u00e7\u00f5es, criadas para dar carga dram\u00e1tica ao filme, tinham sido t\u00e3o exageradas que se tornaram c\u00f4micas. Voc\u00ea deve se lembrar da cena do poema Saudade. Lembra? N\u00e3o? S\u00e9rio? Voc\u00ea tem que ver.<\/p>\n<p><iframe title=\"Separa\u00e7\u00f5es - Domingos de Oliveira\" width=\"625\" height=\"469\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/iXds8rnGF4s?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Sem muita explica\u00e7\u00e3o o filme come\u00e7ou a pipocar em diversos momentos da minha vida e, estranhamente, \u00e0 cada vez ele tomava uma conota\u00e7\u00e3o diferente. As cenas que me pareciam exageradas e histri\u00f4nicas passaram a parecer cr\u00edveis e a humanidade dos personagens cada vez mais forte.<\/p>\n<p>Algumas situa\u00e7\u00f5es eram rid\u00edculas? Sim, mas n\u00e3o o somos todos? Aos poucos, filme a filme, Domingos de Oliveira me mostrou que o meu professor estava errado. Toda arte \u00e9 local. E s\u00f3 fala ao e sobre seu autor a quem quiser escutar. Cabe ao p\u00fablico ter uma posi\u00e7\u00e3o ativa de ouvir e refletir. \u00c9 nessa reflex\u00e3o, nesse contato, que surge a arte. Na conjun\u00e7\u00e3o de duas sensibilidades \u00e9 que ocorre a m\u00e1gica cataliza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia art\u00edstica. Meu professor estava errado: a arte n\u00e3o \u00e9 atributo de um objeto. N\u00e3o h\u00e1 arte num quadro, num livro, num filme. A arte \u00e9 um encontro. Sem esse encontro, o objeto e o p\u00fablico se tornam totalmente desprovidos de sentido. O encontro, a arte, \u00e9 que lhes d\u00e1 a raz\u00e3o de ser.<\/p>\n<p>Ontem, o encontro foi com o document\u00e1rio da Maria Ribeiro sobre ele, Domingos.\u00a0E que encontro. Como os filmes do Domingos, de forma despretensiosa e pessoal, ela n\u00e3o s\u00f3 constr\u00f3i um belo personagem como revela o seu olhar amoroso sobre talvez a maior de suas influ\u00eancias. Mais um encontro. Mais um apaixonar.<\/p>\n<div id=\"attachment_1826\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1826\" class=\"wp-image-1826 size-full\" src=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/aedu1.jpg\" alt=\"Todas as mulheres do mundo\" width=\"400\" height=\"281\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/aedu1.jpg 400w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/aedu1-300x211.jpg 300w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/aedu1-320x225.jpg 320w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><p id=\"caption-attachment-1826\" class=\"wp-caption-text\">Deus inventou a mulher, mas Domingos de Oliveira inventou Leila Diniz.<\/p><\/div>\n<p>Fica claro no filme como a sua pessoalidade e as suas idiossincrasias o tornam uma avis rara. Parte do Cinema Novo e ao mesmo tempo considerado &#8220;alienado&#8221; frente aos seus contempor\u00e2neos. Na fronteira dos 80 anos, em tempos, agora minguantes, de grandes financiamentos, ainda se mantem fiel ao seu modelo minimalista de produ\u00e7\u00e3o, ao seu grupo recorrente de amigos e colaboradores, \u00e0s suas refer\u00eancias populares e \u00a0cl\u00e1ssicas, e aos seus diversos e proclamados afetos. Talvez, como ele mesmo se define, Domingos de Oliveira seja o \u00faltimo hippie. Hippie por acreditar mais no amor que na pol\u00edtica, por se cercar por e fomentar uma comunidade criativa e por acreditar mais no trabalho e na vida que na adula\u00e7\u00e3o e na posteridade. Um homem de obras em vida, um homem para dialogar com, e n\u00e3o um homem para se colocar num pedestal e se admirar. E por essa mesma raz\u00e3o ele se torna t\u00e3o admir\u00e1vel. Uma contradi\u00e7\u00e3o ambulante.\u00a0Um hippie admir\u00e1vel de fato. Um homem l\u00facido como poucos.<\/p>\n<p><iframe title=\"Separa\u00e7\u00f5es - O homem l\u00facido\" width=\"625\" height=\"469\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/213JkDhg1Fw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu tive um professor de Filosofia da Arte que era fenomenal. Era o tipo de sujeito que chorava explicando o plot de Ant\u00edgona e explicitava as diferen\u00e7as entre drama e trag\u00e9dia simulando uma crise de diarreia protagonizada por Get\u00falio Vargas. Saca o tipo? 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