{"id":1872,"date":"2016-06-28T09:42:03","date_gmt":"2016-06-28T12:42:03","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=1872"},"modified":"2016-06-28T15:25:54","modified_gmt":"2016-06-28T18:25:54","slug":"como-justificar-um-bigode","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/como-justificar-um-bigode\/","title":{"rendered":"Como justificar um bigode"},"content":{"rendered":"<p>Acho que a \u00faltima vez que fiquei sem barba, bigode, cavanhaque ou afins por mais de um m\u00eas foi em setembro de 1995. Mais precisamente no dia 10 de setembro de 1995. Era um feriad\u00e3o de sete de setembro e eu, prestes a completar 21 anos, recebi como presente a ida da minha m\u00e3e para um congresso. Nunca, em toda a minha vida, tinha ficado com a casa s\u00f3 para mim por tanto tempo.<\/p>\n<p>Estava com uma viagem marcada para a pousada de um amigo em Ita\u00fanas mas n\u00e3o resisti \u00e0 oportunidade e desmarquei. Consegui convencer alguns amigos a desistir tamb\u00e9m e tivemos 4 belos dias da mais completa devassid\u00e3o. Em todos os sentidos. Do mais filos\u00f3fico ao mais mundano.<\/p>\n<p>Foi um evento t\u00e3o catacl\u00edsmico para a vida dos envolvidos que, acredito, naqueles dias diversas linhas do tempo alternativas foram geradas. Foi quase como assistir \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de universos de camarote. Pra resumir, como no G\u00eanesis, &#8220;e viu Deus que era bom&#8221;. Nos tamb\u00e9m vimos. E foi muito bom.<\/p>\n<p>No dia 10 de setembro pela manh\u00e3, v\u00e9spera do meu anivers\u00e1rio, ap\u00f3s a longa e pesada faxina para preparar a casa para a volta da minha m\u00e3e, fui tomar banho e me olhei no espelho. Amassei a cara com uma das m\u00e3os tentando recompor o que n\u00e3o tinha mais volta. Aquele rosto n\u00e3o me servia mais. Eu era outra pessoa. Tudo o que tinha passado naqueles quatro dias n\u00e3o me permitia mais transitar entre uma cara limpa e com barba. Eu precisava fazer uma escolha. Naquele dia, decidi n\u00e3o mais me barbear e isso me mudou.<\/p>\n<p>O cavanhaque come\u00e7ou a me acompanhar e se tornou parte do meu rosto e da minha hist\u00f3ria. Sa\u00ed da faculdade, entrei no mercado de trabalho, casei; sempre de cavanhaque. Minha mulher, por exemplo, s\u00f3 me viu sem cavanhaque uns 6 anos depois de nos conhecermos. Foi num desses momentos de transi\u00e7\u00e3o na vida. Minhas duas empresas fechavam as portas e eu estava prestes a ser obrigado a assumir meu primeiro emprego de carteira assinada. Um s\u00e1bado de noite, durante uma reprise de um sitcom da vida, levantei da cama para ir ao banheiro, me olhei no espelho, amassei a cara e <em>presto!<\/em> estava sem barba.<\/p>\n<p>Voltei para a cama, minha mulher continuava assistindo a TV. Ela lan\u00e7ou uns olhares de soslaio, at\u00e9 que finalmente perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; O que houve? Voc\u00ea est\u00e1 diferente&#8230;<br \/>\n&#8211; Tirei o cavanhaque.<br \/>\n&#8211; Ah, \u00e9&#8230; estranho.<\/p>\n<p>Estranho. Fiquei recebendo esses olhares de estranheza, dela e de todos os conhecidos, por umas duas semanas e assim que a vida voltou aos eixos o cavanhaque tamb\u00e9m voltou.<\/p>\n<p>Hoje passo por mais um desses momentos. Como n\u00e3o podia deixar de ser, um dia fui ao banheiro, me olhei no espelho, amassei a cara (o que parece essencial nesse processo de mudan\u00e7a) e <em>presto!<\/em> tirei o cavanhaque. Na verdade, n\u00e3o todo. Deixei um bigode.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio da cara limpa que n\u00e3o gera muitos coment\u00e1rios, por mais estranha que possa parecer em quem usa barba h\u00e1 muito tempo, o bigode gera. Muitos mesmo. Realmente \u00e9 um estilo ultrapassado. Tirando hipsters, senhores de mais de 70 anos, av\u00f3 portuguesa de piada de sal\u00e3o e vil\u00f5es de novelas steampunk, ningu\u00e9m mais usa bigode. Por isso uma boa parte do tempo de quem usa bigode \u00e9 gasto explicando por que est\u00e1 de bigode. C\u00e1 entre n\u00f3s, n\u00e3o h\u00e1 explica\u00e7\u00e3o. Como as mulheres ficam ruivas, os adolescentes fazem piercings, e executivos em crise de meia idade resolvem tatuar o Putin na batata da perna, o bigode \u00e9 apenas uma maneira de evidenciar externamente uma mudan\u00e7a interna. N\u00e3o tem prop\u00f3sito. As pessoas n\u00e3o parecem entender isso, portanto, para satisfazer essa curiosidade que n\u00e3o tem explica\u00e7\u00e3o, inventei 10 justificativas para estar de bigode:<\/p>\n<p>1. Vou interpretar Stalin num curta metragem argentino<br \/>\n2. Descobri que fui ator porn\u00f4 nos anos 70 na \u00faltima encarna\u00e7\u00e3o<br \/>\n3. Tive um sonho em que era o Groucho Marx e acordei assim<br \/>\n4. \u00c9 obrigat\u00f3rio para o curso de amarrar donzelas em linhas de trem<br \/>\n5. Sou agente infiltrado investigando corrup\u00e7\u00e3o em fazendas de produtos org\u00e2nicos<br \/>\n6. Fa\u00e7o parte de uma banda cover do Village People<br \/>\n7. Perdi uma aposta com o barbeiro<br \/>\n8. Fiquei sabendo que o Adam Lambert vai sair do Queen e resolvi me candidatar \u00e0 vaga<br \/>\n9. \u00c9 uma homenagem ao pedido de pris\u00e3o de Jos\u00e9 Sarney<\/p>\n<p>E finalmente,<\/p>\n<p>10. \u00c9 uma coisa sexual, acho que voc\u00ea n\u00e3o quer saber os detalhes&#8230;<\/p>\n<p>Se essas justificativas forem bem divulgadas, aposto que daqui a pouco o bigode volta \u00e0 moda. Vai ver assim voc\u00eas\u00a0param de me perguntar por que estou usando bigode. Por falar nisso, querem que eu explique?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acho que a \u00faltima vez que fiquei sem barba, bigode, cavanhaque ou afins por mais de um m\u00eas foi em setembro de 1995. Mais precisamente no dia 10 de setembro de 1995. 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