{"id":1885,"date":"2016-08-08T09:02:08","date_gmt":"2016-08-08T12:02:08","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=1885"},"modified":"2023-10-12T13:23:55","modified_gmt":"2023-10-12T16:23:55","slug":"como-eu-larguei-o-futebol-e-voce-tambem-pode-mas-nao-precisa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/como-eu-larguei-o-futebol-e-voce-tambem-pode-mas-nao-precisa\/","title":{"rendered":"Como eu larguei o futebol (e voc\u00ea tamb\u00e9m pode, mas n\u00e3o precisa)"},"content":{"rendered":"<p>Ol\u00e1, meu nome \u00e9 Lisandro Gaertner e eu j\u00e1 torci pra time de futebol. S\u00e9rio. Quem j\u00e1 me viu nos espor\u00e1dicos encontros para assistir aos jogos da Copa do Mundo, enfurnado na cozinha comendo, bebendo e falando de assuntos aleat\u00f3rios, enquanto o povo torce na sala, pode at\u00e9 n\u00e3o acreditar, mas, sim, eu j\u00e1 fui um torcedor.<\/p>\n<p>Comecei a torcer, como a maioria, por influ\u00eancia do meu pai. Tinha uns 4 anos quando ele me deu uma camisa do Internacional. Meu pai, como todo bom ga\u00facho exilado, sentia prazer em n\u00e3o torcer para os times do Rio, apesar de secretamente ser vasca\u00edno. O esfor\u00e7o, em todo caso, foi in\u00fatil. Fiquei dizendo pra todo mundo que era Colorado por umas duas semanas, at\u00e9 que a brincadeira perdeu a gra\u00e7a e, puff, n\u00e3o era mais Internacional. S\u00f3 voltei a me interessar por futebol na Classe de Alfabetiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Influenciado por uns maus elementos de 5 anos que ficavam perto dos balan\u00e7os no recreio, comecei a torcer pro Flamengo. Minha m\u00e3e, tricolor, e meu pai, vasca\u00edno enrustido, mesmo contrariados, apoiaram. Compraram camisa pra mim e tudo. Mas n\u00e3o foi t\u00e3o dif\u00edcil. No in\u00edcio dos anos 80, o Brasil inteiro tinha um caso de amor com o Flamengo. Acompanhei inclusive no meio da madrugada a final do campeonato mundial no dia, n\u00e3o esque\u00e7o, 13 de dezembro de 1981. Imaginem que conquista prum menino de 7 anos &#8220;ser&#8221; campe\u00e3o do mundo .<\/p>\n<p>Mas\u00a0nem tudo eram flores. O Flamengo, apesar de ter o seu time mais lend\u00e1rio, tamb\u00e9m perdia. E eu sofria. De chorar. Lembro de ter ido ao Maracan\u00e3 assistir a um jogo com um amigo e seus pais e voltar aos prantos para casa. Minha m\u00e3e me acalentou e plantou a semente que quase dez anos depois ia permitir a minha liberta\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Meu filho- ela me disse-, voc\u00ea n\u00e3o pode levar o futebol t\u00e3o \u00e0 s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Voc\u00ea n\u00e3o pode levar t\u00e3o \u00e0 s\u00e9rio. Voc\u00ea n\u00e3o pode levar t\u00e3o \u00e0 s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Depois daquele dia, virei a casaca. N\u00e3o tenho vergonha de admitir. Virei a casaca mesmo. Pra agradar meu pai e me livrar do sofrimento que era torcer pro Flamengo, virei Vasco.<\/p>\n<p>Ta\u00ed uma das coisas que mais me incomoda nos esportes de clube em geral: o estigma de virar casaca. Esse tipo de press\u00e3o para se manter ao lado de algo que n\u00e3o mais lhe agrada ou d\u00e1 prazer \u00e9 uma esp\u00e9cie de treino perverso para a lealdade incondicional. Se as pessoas fossem livres para virar a casaca, talvez estivessem mais acostumados a mudar de ideia sobre tudo e a nossa conviv\u00eancia seria bem mais harmoniosa. Posso estar exagerando mas essa \u00e9 a minha opini\u00e3o. Pelo menos por enquanto.<\/p>\n<p>Me mantive Vasco, sem me ligar muito em Futebol, at\u00e9 mais ou menos os 10 anos. Novamente sob a influ\u00eancia de p\u00e9ssimos colegas de classe, voltei a acompanhar os campeonatos. O Vasco estava passando por uma boa fase na \u00e9poca e calhou que todos os meus amigos mais pr\u00f3ximos tamb\u00e9m eram vasca\u00ednos. Pra ter assunto no recreio, passei a acompanhar mais os jogos e inclusive tinha carteirinha do clube do Vasca\u00edno Doente, que era distribu\u00edda pelo radialista e, \u00f3bvio, vasca\u00edno doente \u00c1ureo Ameno.<\/p>\n<div id=\"attachment_1886\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1886\" class=\"wp-image-1886\" src=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/20090813163009cvd1.jpg\" alt=\"A carteirinha\" width=\"400\" height=\"278\" \/><p id=\"caption-attachment-1886\" class=\"wp-caption-text\">Sim, isso \u00e9 real, mas n\u00e3o \u00e9 a minha<\/p><\/div>\n<p>Essa fase durou uns 4 anos. Mesmo torcendo e acompanhando tudo o que podia, n\u00e3o me lembro de ter criado inimizade com ningu\u00e9m ou mesmo humilhado os torcedores dos nossos fregueses na \u00e9poca. Torcia, mas era uma torcida mais introspectiva. O que eu curtia mesmo era ouvir r\u00e1dio AM, bater papo e ler todos os jornais. Nenhuma vez nesse per\u00edodo fui aos est\u00e1dios ou assisti a jogos com outras pessoas. Sempre tive esse esp\u00edrito de vi\u00favo aposentado que joga damas no Largo do Machado.<\/p>\n<p>Um dia, chegou meu fundo do po\u00e7o. O Vasco ia enfrentar o Flamengo na final do Carioca pelo bicampeonato. Depois de um jogo tenso e sem gols, aos 44 minutos do segundo tempo, Cocada, sa\u00eddo do banco h\u00e1 dois minutos, em disparada, sozinho, cravou o gol que consolidou a \u00faltima vit\u00f3ria do Vasco sobre o Flamengo numa final de campeonato carioca at\u00e9 hoje. Dormi de alma lavada.<\/p>\n<p><iframe title=\"Gol de Cocada contra o Flamengo (1988)\" width=\"625\" height=\"469\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/CadQka4nIN8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>No dia seguinte, meus pais me acordaram em festa com o Jornal dos Sports e com o poster do time do Vasco. Quando me deixaram sozinho ap\u00f3s diversas felicita\u00e7\u00f5es, senti um vazio tremendo. Que diabos estava fazendo com a minha vida? Minha identidade e minha felicidade eram dependentes de algo externo a mim? Ser\u00e1 que ser Vasco era o que me definia? N\u00e3o, eu n\u00e3o queria acreditar nisso, mas as evid\u00eancias eram tremendas. Gastava uma hora por dia lendo os cadernos de esporte; mais uma hora ouvindo aos coment\u00e1rios da manh\u00e3; quando tinha jogo, mais duas horas; e pra finalizar uma hora de coment\u00e1rio esportivo noturno. Sem contar o tempo que conversava sobre futebol, mais de 20% da minha vida era devotada ao Vasco, uma entidade cujos participantes estavam pouco se lixando para salvaguardar a minha alegria e a minha sa\u00fade mental. Era muito caro para se fazer parte de algo. Escolhi ser sozinho.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, do dia pra noite, nunca mais acompanhei futebol nem outros esportes. Aos poucos esse meu desapego come\u00e7ou a se espalhar por outras \u00e1reas da minha vida e me libertou tamb\u00e9m de religi\u00e3o, ufanismo, posicionamento pol\u00edtico, s\u00e9ries de TV e todas essas outras coisas que o povo trata como s\u00e9rias mas n\u00e3o passam de clubinho.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a Deus, n\u00e3o virei estraga prazeres, nem fico fazendo campanha pros outros seguirem meu caminho. Quando um grupo de amigos assiste a um jogo, at\u00e9 acompanho respeitosamente, mas sinto que desaprendi o futebol e quase sempre me pego fazendo perguntas imbecis. \u00c9 quase como n\u00e3o ser cat\u00f3lico e rezar o Credo nos casamentos em que somos convidados. N\u00e3o cremos mas gostamos uns dos outros o suficiente para fingir.<\/p>\n<p>Compartilho essa minha hist\u00f3ria, pois ela pode ajudar quem precisa se libertar de outras id\u00e9ias ou simplesmente precisa virar a casaca. Afinal, o que descobri foi que nada que dizem de voc\u00ea \u00e9 verdade, apenas aquilo que voc\u00ea mesmo acredita que voc\u00ea \u00e9. Por isso, saiba, voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 flamengo, botafogo, vasco, fluminense, ou mesmo brasileiro. Voc\u00ea pode ser quem voc\u00ea quiser, como quiser e ningu\u00e9m tem direito de lhe criticar por isso. E voc\u00ea tamb\u00e9m pode mudar de ideia. Quantas vezes quiser. Garanto, em alguns momentos, virar a casaca\u00a0pode ser extremamente salutar. Bom, \u00e9 nisso que acredito. Pelo menos por enquanto.<\/p>\n<p>Mas, c\u00e1 entre n\u00f3s, vou te falar, esses pernas de pau que botaram pra jogar nas Olimp\u00edadas t\u00e3o desafiando at\u00e9 o meu desapego. \u00d4, gentinha mais desclassificada, meu santo Dalai Lama. N\u00e3o h\u00e1\u00a0zen budismo que nos permita\u00a0suportar essa sele\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ol\u00e1, meu nome \u00e9 Lisandro Gaertner e eu j\u00e1 torci pra time de futebol. S\u00e9rio. 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