{"id":1895,"date":"2016-10-02T09:59:49","date_gmt":"2016-10-02T12:59:49","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=1895"},"modified":"2016-10-03T04:53:13","modified_gmt":"2016-10-03T07:53:13","slug":"a-traicao-do-eleitor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/a-traicao-do-eleitor\/","title":{"rendered":"A trai\u00e7\u00e3o do eleitor"},"content":{"rendered":"<p>Meu pai tinha um companheiro de FEB que de 4 em 4 anos se candidatava a vereador. Como um rel\u00f3gio, tr\u00eas meses antes da elei\u00e7\u00e3o municipal, l\u00e1 vinha ele bater na nossa casa. Carregando um pacote de santinhos, ele fazia a longa jornada de Deodoro ao Flamengo sobre as pr\u00f3teses e as muletas que sustentavam seu corpo desde que perdera as duas pernas na Segunda Guerra. Seu slogan sempre mudava, mas nunca sa\u00eda da linha: &#8220;Ele lutou por n\u00f3s e vai continuar a lutar.&#8221;.<\/p>\n<p>Se vontade contasse, ele seria o vereador mais votado do Rio de Janeiro. Com a sua pens\u00e3ozinha, bancava sozinho a campanha onde prometia melhorar sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a e, \u00f3bvio, a condi\u00e7\u00e3o dos ex-combates que queria representar. Como cumpriria essas promessas? Ele n\u00e3o sabia, mas tinha certeza que lutaria e ganharia. Como fez na guerra.<\/p>\n<p>Era um analfabeto pol\u00edtico mas queria escrever seu nome na hist\u00f3ria da c\u00e2mara municipal carioca. Como, acredito, a maioria dos candidatos que fazem a festa da democracia parecer algo mais do que o convescote sinistro ao qual comparecem sempre os mesmos malandros.<\/p>\n<p>Alheio a essas maquina\u00e7\u00f5es que movem a pol\u00edtica, ele fazia a sua parte, lutando voto a voto pela cadeira a qual sentia ter direito moral. Por isso de 4 em 4 anos, ele vinha ao meu pai em busca de algo mais que um voto; em busca do apoio pol\u00edtico e da influ\u00eancia que meu pai fingia ter.<\/p>\n<p>Eles sentavam no sof\u00e1 e discutiam estrat\u00e9gia de campanha durante a tarde toda. Parecia at\u00e9 que era s\u00e9rio. Col\u00e9gios eleitorais, locais para corpo a corpo e \u00e0s usuais cr\u00edticas ao material gr\u00e1fico eram discutidas \u00e0 exaust\u00e3o, antes de avaliarem as suas chances naquela elei\u00e7\u00e3o. A cada ano meu pai aumentava a quantidade de votos que conseguiria para ele. Num ano eram 100, no outro 500, at\u00e9 que um ano chegou a prometer 10 mil.<\/p>\n<p>Quando ele ia embora, ap\u00f3s me entregar um santinho, mesmo sabendo que eu n\u00e3o tinha idade para votar, eu perguntava ao meu pai:<\/p>\n<p>&#8211; Como voc\u00ea vai conseguir esses votos todos?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o vou- meu pai respondia.- Uns foram feitos para concorrer e outros para ser eleitos. Deixa ele se divertir com o seu papel- e ia para a cozinha jogar o pacote de santinhos na lata de lixo.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca da ditadura, essas promessas nunca pareciam vazias. Os dados eleitorais n\u00e3o eram transparentes como agora e tudo podia ficar dilu\u00eddo nos votos que o candidato bem intencionado conseguia com seu pr\u00f3prio esfor\u00e7o. Mesmo assim, eu sentia que a cada visita aumentava a desconfian\u00e7a do amigo sobre as bravatas do meu pai.<\/p>\n<p>No ano dos 10 mil, para azar do meu pai, as coisas mudaram de figura. Era fim do governo Sarney e pela primeira vez os votos seriam divulgados por se\u00e7\u00e3o eleitoral. Meu pai n\u00e3o se ligou do impacto que isso teria em suas promessas at\u00e9 que o candidato bateu l\u00e1 em casa depois da apura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Cad\u00ea os 10 mil votos que voc\u00ea me prometeu? &#8211; o candidato pressionou o meu pai.<br \/>\n&#8211; U\u00e9, n\u00e3o rolou?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o rolou. Eu tive s\u00f3 2732 votos.<br \/>\n&#8211; \u00d3 l\u00e1, j\u00e1 foi um bom resultado. 2000 votos j\u00e1 um bom resultado. Eu corri atr\u00e1s, mas voc\u00ea sabe como \u00e9 eleitor: um bicho tra\u00edra pacas.<br \/>\n&#8211; Ah, \u00e9? Ah, \u00e9? \u00c9 tra\u00edra mesmo. Quer ver s\u00f3? Olha aqui na sua se\u00e7\u00e3o: nem um voto pra mim. Nem um voto. Voc\u00ea nem votou em mim!<br \/>\n&#8211; Pronto, t\u00e1 explicado!<br \/>\n&#8211; T\u00e1 explicado o qu\u00ea?<br \/>\n&#8211; Ta\u00ed, \u00f3. \u00d3bvio que votei em voc\u00ea. Logo t\u00e1 explicado. Foi fraude. Foi fraude.<\/p>\n<p>O amigo depois de um momento de surpresa, se acalmou, pediu desculpas ao meu pai pela falta de compostura e partiu sem me entregar nada. Quatro anos depois ele n\u00e3o voltou. Ou desistiu de se candidatar ou desistiu de acreditar no meu pai.<\/p>\n<p>Meu pai nunca mais falou dele. Estava esquecido como uma filipeta de elei\u00e7\u00e3o passada. Hoje votei e pensei como esquecerei rapidamente daqueles em que votei e em que n\u00e3o votei; como reclamarei daqueles que apoiei esquecendo da minha implica\u00e7\u00e3o em toda essa lamban\u00e7a. A festa da democracia sempre termina em amn\u00e9sia alco\u00f3lica e ressaca moral. Meu pai tinha raz\u00e3o: somos\u00a0tra\u00edras pacas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu pai tinha um companheiro de FEB que de 4 em 4 anos se candidatava a vereador. Como um rel\u00f3gio, tr\u00eas meses antes da elei\u00e7\u00e3o municipal, l\u00e1 vinha ele bater na nossa casa. Carregando um pacote de santinhos, ele fazia a longa jornada de Deodoro ao Flamengo sobre as pr\u00f3teses e as muletas que sustentavam [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1897,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1895","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-escritos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1895","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1895"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1895\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1901,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1895\/revisions\/1901"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1897"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1895"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1895"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1895"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}