{"id":1905,"date":"2016-12-25T10:58:37","date_gmt":"2016-12-25T12:58:37","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=1905"},"modified":"2016-12-26T06:47:17","modified_gmt":"2016-12-26T08:47:17","slug":"o-aniversario-de-jesus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/o-aniversario-de-jesus\/","title":{"rendered":"O anivers\u00e1rio de &#8220;de Jesus&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Pai, hoje, se estivesse vivo, voc\u00ea completaria 92 anos. Ou 93. Ou 91, dependendo de quem contasse a hist\u00f3ria. Para alguns, voc\u00ea teria dito que, quando seus pais lhe deixaram \u00f3rf\u00e3o com menos de 10 anos, para que entrasse no col\u00e9gio militar como interno era importante parecer mais novo. Ou mais velho. Ningu\u00e9m chegava a uma conclus\u00e3o. Quando pressionado, voc\u00ea sempre dizia: &#8220;Faz tanto tempo que eu nem me lembro mais. Usa o que estiver na certid\u00e3o&#8221;. Ent\u00e3o, 92.<\/p>\n<p>O mesmo valia para a sua data de nascimento. Uns diziam que era 24, outros 25. At\u00e9 nesse ponto, voc\u00ea tamb\u00e9m desconversava. Dizia que anivers\u00e1rio n\u00e3o importava. &#8220;Anivers\u00e1rio \u00e9 todo dia&#8221;. Mais prov\u00e1vel que fosse 25, o que explicaria o &#8220;de Jesus&#8221; no seu nome.<\/p>\n<p>Quando voc\u00ea era vivo, seu anivers\u00e1rio tornava ainda mais pesada a minha maratona natalina. Logo eu, de fam\u00edlia crist\u00e3 nova, descendente de judeus de pai e m\u00e3e, v\u00edtima e produto da educa\u00e7\u00e3o beneditina, ateu n\u00e3o praticante, tinha uma das mais complexas rotinas para comemorar o anivers\u00e1rio de Jesus.<\/p>\n<p>No dia 23 tinha sempre um amigo oculto de tarde. De noite, a ceia antecipada da minha m\u00e3e. No 24, o almo\u00e7o de enterro dos ossos. No 24 de noite ia em alguma festa onde minha m\u00e3e estivesse para lhe dar um abra\u00e7o, para depois seguir \u00e0 casa da minha sogra que sempre rendia um estica com os amigos da minha mulher, ent\u00e3o namorada. J\u00e1 totalmente exaurido, no 25 ainda tinha o seu anivers\u00e1rio. Ia das comemora\u00e7\u00f5es de Jesus a &#8220;de Jesus&#8221; em tr\u00eas dias de intensa comilan\u00e7a.<\/p>\n<p>A festa n\u00e3o era l\u00e1 essas coisas. A sua fam\u00edlia oficial tinha, sim, suas raz\u00f5es para n\u00e3o ir com a minha cara, mas eram educados. E voc\u00ea n\u00e3o parecia aproveitar nada. Frente \u00e0quele grupo de pessoas comemorando seu anivers\u00e1rio, misturado com a festa de enterro dos ossos, voc\u00ea parecia distante. N\u00e3o era o cara que tinha me criado.<\/p>\n<p>N\u00e3o era o cara que abra\u00e7ava desconhecidos na rua, fingindo conhec\u00ea-los e puxando papos gen\u00e9ricos para constrang\u00ea-los. N\u00e3o era o cara que passava trotes comigo e meus amigos de 8 anos de idade, entre campeonatos de arroto. N\u00e3o era o cara que alegava conhecer qualquer cidade do nordeste, citando o a\u00e7ude, a igreja matriz e a corrup\u00e7\u00e3o dos pol\u00edticos como refer\u00eancias. N\u00e3o era o cara que comprou um celular de brinquedo para atender na rua e passar a quem lhe olhava dizendo &#8220;\u00c9 pra voc\u00ea&#8221;. N\u00e3o era esse cara.<\/p>\n<p>Era um cara de uma fam\u00edlia estranha. Um senhor que se presumia respons\u00e1vel. Um homem abatido pela suas pr\u00f3prias escolhas e pela sua falta de coragem de ser quem era e podia ser. Era um cara triste.<\/p>\n<p>Inevitavelmente, ap\u00f3s o seu c\u00e2ncer, foi esse papel opressivo e a depress\u00e3o que ele gerou que o levaram h\u00e1 14 anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Sei que n\u00e3o fiz tudo o que podia. Nunca fazemos. Sempre tem algo mais a fazer. Podia ter insistido nisso ou naquilo, apesar de todo o time contra. Mas n\u00e3o deu. Confesso que chegou uma hora que desisti. Pelo menos desisti depois de todo mundo que s\u00f3 fingiu que tentou. De todo mundo que n\u00e3o o conhecia de fato. N\u00e3o quero dizer &#8220;se voc\u00ea tivesse pelo menos&#8230;&#8221;, pois n\u00e3o quero culp\u00e1-lo. N\u00e3o h\u00e1 culpas a distribuir. H\u00e1 simplesmente a constata\u00e7\u00e3o que a vida muitas vezes n\u00e3o faz o menor sentido.<\/p>\n<p>Mas \u00e0s vezes faz. Olhando para a sua neta que nunca teve a oportunidade de conhec\u00ea-lo, n\u00e3o me furto a ver pequenos sinais seus nela. Boa parte disso \u00e9 proje\u00e7\u00e3o, uma parte \u00e9 desejo e outra \u00e9 fruto da cria\u00e7\u00e3o que lhe proporciono. Se puder fazer com que ela tenha pelo menos um pouco da sua criatividade e da sua alegria, considero que terei feito um bom trabalho como pai. Assim como voc\u00ea o fez, mesmo entre acertos e erros.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, nesse dia do seu anivers\u00e1rio, ou n\u00e3o, em que completaria 92,91 ou 93 anos, mesmo envolto em todas as incertezas que a sua vida e a nossa rela\u00e7\u00e3o sugerem, sinta-se abra\u00e7ado. Sinta-se abra\u00e7ado no momento em que sua neta abrir seus presentes de Natal e vier me dar um beijo enquanto faz alguma gracinha que me remete a a voc\u00ea. Sinta-se vivo nessa rela\u00e7\u00e3o e no orgulho que sinto de ser seu filho. Saiba que sempre estar\u00e1 vivo nas hist\u00f3rias que me contou mas nunca escreveu. Pois, se n\u00e3o as escreveu nem garantiu a imortalidade prometida por Leonard Cohen &#8220;when you done a line or two&#8221;, eu estou aqui as escrevendo para voc\u00ea. Elas merecem ser contadas e voc\u00ea merece que algu\u00e9m as conte. Fico feliz que seja eu a fazer isso por voc\u00ea.<\/p>\n<p>Feliz anivers\u00e1rio, &#8220;de Jesus&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pai, hoje, se estivesse vivo, voc\u00ea completaria 92 anos. Ou 93. Ou 91, dependendo de quem contasse a hist\u00f3ria. Para alguns, voc\u00ea teria dito que, quando seus pais lhe deixaram \u00f3rf\u00e3o com menos de 10 anos, para que entrasse no col\u00e9gio militar como interno era importante parecer mais novo. Ou mais velho. 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