{"id":1915,"date":"2017-01-16T17:03:25","date_gmt":"2017-01-16T19:03:25","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=1915"},"modified":"2017-01-17T05:13:35","modified_gmt":"2017-01-17T07:13:35","slug":"alo-claudia-cruz-a-historia-te-chama","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/alo-claudia-cruz-a-historia-te-chama\/","title":{"rendered":"Al\u00f4, Cl\u00e1udia Cruz, a hist\u00f3ria te chama"},"content":{"rendered":"<p>Toda vez que vejo a Cl\u00e1udia Cruz lembro como a hist\u00f3ria \u00e9 fr\u00e1gil.<\/p>\n<p>No in\u00edcio dos anos 90, um amigo meu morava s\u00f3 com os irm\u00e3os depois de um acordo\/div\u00f3rcio complicado com os pais. Ele era o \u00fanico menor de idade, mas o restante n\u00e3o era muito mais velho que ele. As idades rodavam em torno de vinte e poucos anos e apenas dois eram formados e trabalhavam. Era uma esp\u00e9cie de rep\u00fablica\/n\u00facleo familiar de sitcom no qual fico muito feliz de ter feito participa\u00e7\u00f5es especiais. Se tivesse escrito sobre isso na \u00e9poca, podia ter criado o Friends.<\/p>\n<p>Cada irm\u00e3o, como n\u00e3o podia deixar de ser, atendia a um ester\u00f3tipo. O meu amigo era o s\u00e1bio, apesar de ser o mais novo; o segundo era o devasso; o terceiro era o workaholic; e o mais velho era o rom\u00e2ntico. N\u00e3o \u00e9 surpresa que o rom\u00e2ntico fosse o que passava mais tempo com a gente; era um adolescente espiritual.<\/p>\n<p>Ele costumava se apaixonar numa semana e se frustrar na pr\u00f3xima; suas paix\u00f5es eram vol\u00e1teis ao ponto de ele mesmo confundir os nomes das suas pretensas pretendentes; pra piorar, partia do amor ao \u00f3dio numa facilidade impressionante. Al\u00e9m disso ele alimentava as taras mais peculiares. Numa \u00e9poca, por exemplo, come\u00e7ou com uma paix\u00e3o por gr\u00e1vidas que quase o fez ser preso no supermercado P\u00e3o de A\u00e7\u00facar ap\u00f3s perseguir uma futura m\u00e3e por toda a loja.<\/p>\n<p>Era um sujeito complicado, mas divertido. Em geral nos envolvia em seus dramas pedindo conselho e compartilhando suas emo\u00e7\u00f5es. Era uma divertida brincadeira de psicanalista que, confesso, teve seu qu\u00ea na minha escolha de curso superior.<\/p>\n<p>Num ver\u00e3o no in\u00edcio dos anos 90, ele apresentou a tara mais louca: encasquetou que ia casar com a Cl\u00e1udia Cruz. Veja s\u00f3, ele n\u00e3o falou namorar, pegar, trepar, ou nada do g\u00eanero. Ele falou CA-SAR. Quando come\u00e7ava o RJ TV, ele mandava todo mundo se calar e ficava comentando embevecido sobre a classe da sua amada da vez:<\/p>\n<p>&#8211; Isso, sim, \u00e9 mulher pra casar. N\u00e3o \u00e9 dessas vagabundas que se encontram pela rua. Imagina s\u00f3 a satisfa\u00e7\u00e3o de chegar em casa e ter essa mulher te esperando. Que olhos, que rosto, que voz. Que VOZ!<\/p>\n<p>Foi mais ou menos nessa \u00e9poca que ela virou a voz da Telerj. O doido, na falta de uma maneira de rever o RJ TV a todo momento, vivia ligando para os servi\u00e7os de atendimento para ouvir a sua musa. O neg\u00f3cio come\u00e7ou a ficar t\u00e3o preocupante que a gente resolveu ajudar al\u00e9m do usual<\/p>\n<p>Acionamos um amigo que tinha a habilidade quase m\u00e1gica de conseguir o telefone de qualquer pessoa s\u00f3 com a lista telef\u00f4nica e acesso ao 102. Gra\u00e7as a ele t\u00ednhamos o telefone de todas as paquitas, para as quais, \u00f3bvio, nunca ligamos apesar de todas as nossas bravatas. Em dois dias de pesquisa, ele achou o telefone da Cl\u00e1udia Cruz.<\/p>\n<p>Anotamos o telefone num papelzinho e ofertamos a ele.<\/p>\n<p>&#8211; O que \u00e9 isso?<br \/>\n&#8211; Liga e v\u00ea.<\/p>\n<p>Ele ligou, esperou, disse Al\u00f4, ouviu e resposta e imediatamente bateu o telefone na cara da Cl\u00e1udia Cruz.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o acredito. N\u00e3o acredito &#8211; ficou repetindo em choque.- N\u00e3o a-cre-di-to!<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que imaginamos o acesso \u00e0 sua paix\u00e3o n\u00e3o o tornou mais ousado; pelo contr\u00e1rio, o paralisou completamente. Seu medo era jogar a chance fora. Usar a aproxima\u00e7\u00e3o errada e perder para sempre a oportunidade de tornar a Cl\u00e1udia a m\u00e3e de seus filhos. Para tentar ajud\u00e1-lo, resolvemos criar a maneira ideal para ele utilizar essa oportunidade.<\/p>\n<p>Montamos uma for\u00e7a tarefa para produzir o telefonema. Alguns de n\u00f3s escreviam o texto, outros revisavam, outros ensaiavam com ele e com o feedback dos ensaios criamos uma \u00e1rvore de respostas que pretendia atender a qualquer situa\u00e7\u00e3o que surgisse na liga\u00e7\u00e3o. Com isso, t\u00ednhamos certeza, o destino da Cl\u00e1udia Cruz estava certo como esposa do irm\u00e3o do nosso amigo.<\/p>\n<p>Todo o processo tomou tempo. N\u00e3o era a nossa atividade principal, se \u00e9 que ir a escola e assistir \u00e0 MTV pudessem ser considerados atividade principal, e as idas e voltas do roteiro, especialmente por conta das idiossincrasias do nosso Don Juan que insistia em incluir seus dotes de bar\u00edtono no papo, atrasaram o telefonema em quase dois meses. Enfim, depois de diversos drafts e ensaios, ele estava pronto para ligar.<\/p>\n<p>\u00d3bvio que n\u00e3o foi uma liga\u00e7\u00e3o particular. Todos estavam l\u00e1 para apoi\u00e1-lo. Suas calma e confian\u00e7a animavam a todos. Ensaiamos mais algumas vezes, ele tomou uma dose de Steinhaeger para relaxar, colocou um copo d&#8217;\u00e1gua ao lado do telefone e lentamente discou: 5&#8230;4&#8230;2&#8230;X&#8230;X&#8230;X&#8230;X&#8230;<\/p>\n<p>Dois segundos depois, o seu sorriso escorreu pela face e seus olhos perderam\u00a0todo o brilho. Ele deixou o telefone cair no ch\u00e3o e escondeu o rosto entre a m\u00e3os, solu\u00e7ando. Peguei o telefone e a pr\u00f3pria Cl\u00e1udia Cruz avisava:<\/p>\n<p>&#8211; Esse n\u00famero foi cancelado. Verifique o n\u00famero e tente novamente. Muito obrigada.<\/p>\n<p>Tentamos anim\u00e1-lo, garantindo que o nosso amigo com certeza conseguiria o novo n\u00famero, mas o baque tinha sido grande demais. Ele tinha perdido a esperan\u00e7a. Mesmo que tivesse o n\u00famero n\u00e3o confiava mais que fosse conquist\u00e1-la.<\/p>\n<p>Deixamos ele curtir o luto e quando o encontramos novamente, ele estava namorando com uma mulher mais velha, vi\u00fava e com uma filha, com a qual acabou casando e, pelas \u00faltimas vezes que o vi, vive feliz at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Quando eu vejo a Cl\u00e1udia Cruz, lembro do irm\u00e3o desse meu amigo e imagino o teria acontecido com o Brasil se ele tivesse conseguido falar com ela; se ele tivesse conseguido conquist\u00e1-la. Ser\u00e1 que o Cunha teria perdido a gana de corromper tanto assim? Ser\u00e1 que isso geraria um pa\u00eds mais justo? Ser\u00e1 que a Cl\u00e1udia Cruz era a proverbial borboleta que gera Tsunamis de corrup\u00e7\u00e3o? Nunca saberemos, mas sei que a hist\u00f3ria \u00e9 fr\u00e1gil e qualquer oportunidade que temos de mudar a nossa vida e as daqueles que nos cercam tem que ser aproveitada. Afinal, quem sabe a pequena a\u00e7\u00e3o de coragem de hoje n\u00e3o torne o nosso mundo melhor amanh\u00e3? Mesmo que seja um simples telefonema a um afeto da televis\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Toda vez que vejo a Cl\u00e1udia Cruz lembro como a hist\u00f3ria \u00e9 fr\u00e1gil. No in\u00edcio dos anos 90, um amigo meu morava s\u00f3 com os irm\u00e3os depois de um acordo\/div\u00f3rcio complicado com os pais. Ele era o \u00fanico menor de idade, mas o restante n\u00e3o era muito mais velho que ele. 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