{"id":1969,"date":"2017-04-06T07:58:38","date_gmt":"2017-04-06T10:58:38","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=1969"},"modified":"2017-04-06T07:58:38","modified_gmt":"2017-04-06T10:58:38","slug":"odio-rotativo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/odio-rotativo\/","title":{"rendered":"\u00d3dio rotativo"},"content":{"rendered":"<p>Nos anos 80, um dos meus programas preferidos com o meu pai era v\u00ea-lo brigar na Mesbla. Se voc\u00ea nasceu depois do fim da hiper infla\u00e7\u00e3o, deixa eu te situar. A Mesbla era uma rede lojas de departamentos assim como a Sloper e a Sears. Desculpe, refer\u00eancias tautol\u00f3gicas. Estou tentando explicar a um deficiente visual o que \u00e9 o verde dizendo que \u00e9 a mistura do azul com o amarelo. Esclarecendo melhor, Lojas de Departamentos eram shoppings primitivos. Ao inv\u00e9s de conglomerados de lojas num mesmo pr\u00e9dio, t\u00ednhamos uma s\u00f3 enorme loja com diversos departamentos, de lingerie a lanchas passando por instrumentos musicais e brinquedos. Pra quem n\u00e3o sabia exatamente o que queria comprar era ideal. Como os shoppings. Assim como para quem precisava comprar a cr\u00e9dito ou a presta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca da hiper infla\u00e7\u00e3o, cr\u00e9dito era uma coisa dif\u00edcil. Bancos s\u00f3 serviam para guardar a sua poupan\u00e7a e dobrar o seu sal\u00e1rio para ser usado no m\u00eas seguinte quando os pre\u00e7os tinham triplicado. N\u00e3o eram essas m\u00e1quinas de vender dinheiro e produtos financeiros de hoje. Viver nos anos 80 n\u00e3o era mole, mas precis\u00e1vamos consumir, e por isso apel\u00e1vamos para os carn\u00eas, que funcionavam como poupan\u00e7as exclusivas para o consumo, como o Ba\u00fa da Felicidade, e para o cr\u00e9dito das pr\u00f3prias lojas atrav\u00e9s de cart\u00f5es que s\u00f3 podiam ser usados nelas. A inadimpl\u00eancia, acredito, era alta, mas escravizar um grande n\u00famero de fregueses a sua marca devia ter l\u00e1 suas vantagens.<\/p>\n<p>Meu pai, como os demais brasileiros, n\u00e3o agiu diferente. N\u00e3o t\u00ednhamos carn\u00ea do Ba\u00fa, mas t\u00ednhamos um cart\u00e3o. Da Mesbla. No in\u00edcio foi genial. Ganhei muitos brinquedos, que eu queria, e um viol\u00e3o e roupas, que eu n\u00e3o queria. Minha m\u00e3e deve ter feito l\u00e1 suas compras e at\u00e9 o meu pai, um dedicado por\u00e9m pretenso avaro, deve ter comprado uma coisa ou outra. Mas depois do sorvete, sempre vinha o palito. Ent\u00e3o, todo m\u00eas, sempre num s\u00e1bado, meu pai me pegava em casa e nos encaminh\u00e1vamos para a Mesbla da rua do Passeio em peregrina\u00e7\u00e3o com um saco de dinheiro para pagar o cart\u00e3o nos guich\u00eas da loja. Pensando bem agora tenho a impress\u00e3o que ele achava que isso ia me ensinar algo. Se era isso, lamento, falhou.<\/p>\n<p>No primeiro m\u00eas do cart\u00e3o, meu pai entrou todo pimp\u00e3o na loja, cumprimentou todo mundo e pagou sem reclamar. No segundo, entrou calado, esperou quieto na fila e conversou baixinho com a caixa sobre op\u00e7\u00f5es de rolamento da d\u00edvida. No terceiro, entrou batendo os p\u00e9s, esperou impaciente na fila, bufou em frente a caixa e entregou o dinheiro contando nota a nota. No quarto&#8230;<\/p>\n<p>Um aparte. Se hoje os juros s\u00e3o surreais, imagine esses mesmos juros com planos econ\u00f4micos, mudan\u00e7a de moeda e pre\u00e7os corrigidos pela infla\u00e7\u00e3o. As altera\u00e7\u00f5es de valor real poderiam at\u00e9 ser pequenas mas a impress\u00e3o de mudan\u00e7a era gigantesca. N\u00e3o acredita? Ent\u00e3o deixa eu te falar. Pra eu comprar revistinha na banca era preciso consultar uma tabela. As revistas n\u00e3o tinham pre\u00e7o, tinham um c\u00f3digo que era reajustado mais de uma vez na semana. Por isso \u00edamos todo dia na banca para comprar mais barato quando elas eram lan\u00e7adas. Sentiu o drama?<\/p>\n<p>Onde estava mesmo? Ah, no quarto m\u00eas. No quarto m\u00eas meu pai surtou. Entrou na loja nervoso, suando, mas chegou num esp\u00edrito conciliador, desejando secretamente que a loja concordasse com ele. Ouviu as explica\u00e7\u00f5es do caixa, do gerente e at\u00e9 do seguran\u00e7a da loja. N\u00e3o se convenceu. Tinha algo errado. Ele sabia que tinha algo errado. Tentou argumentar. Ficou mais nervoso. Deu uma volta na loja para se acalmar. N\u00e3o adiantou. Voltou pros guich\u00eas. Falou tudo de novo esperando um resultado diferente. N\u00e3o rolou. A\u00ed o lance fedeu. Amea\u00e7ou, gritou e, depois de toda a algazarra, pagou a contragosto o valor total, chamou a aten\u00e7\u00e3o dos demais fregueses, rasgou o cart\u00e3o teatralmente na frente de todo mundo e me puxou pra fora da loja:<\/p>\n<p>&#8211; Nunca mais voltamos aqui, filho. Mesbla nunca mais! Nunca mais!<\/p>\n<p>Mentira. Na semana seguinte voltamos. Minha m\u00e3e precisou de uma batedeira e meu pai foi pedir uma substitui\u00e7\u00e3o do cart\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Desculpe, perdi o meu- alegou submisso.<\/p>\n<p>Depois dessa primeira vez, o ciclo se repetiu. Muitas vezes. De quatro em quatro meses \u00edamos do desenfreado \u00eaxtase do consumo ao espet\u00e1culo da rejei\u00e7\u00e3o do sistema capitalista. As lojas mudavam, mas o ciclo sempre estava l\u00e1. Sempre encerrado com o mea culpa do &#8220;preciso de cr\u00e9dito de novo&#8221;. Como eu disse, n\u00e3o era mole viver nos anos 80.<\/p>\n<p>Depois de anos na faculdade de psicologia, agora entendo que esses rituais tinham l\u00e1 sua raz\u00e3o de ser. Meu pai precisava reafirmar seu poder no mundo pelo direito ao consumo ao mesmo tempo que precisava externar a sua insatisfa\u00e7\u00e3o em ser escravo desse mesmo processo. Neur\u00f3tico b\u00e1sico. Odeia o que deseja. E ama se odiar. Como todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Ontem, fui pegar dinheiro no banco e o caixa eletr\u00f4nico j\u00e1 informava sobre as mudan\u00e7as no cr\u00e9dito rotativo. Se usado por mais de 30 dias ele seria bloqueado e o cliente obrigado a negociar a d\u00edvida. N\u00e3o acho mal neg\u00f3cio mas vai interferir nos processos neur\u00f3ticos de muita gente.<\/p>\n<p>Infelizmente, ao contr\u00e1rio do meu pai, esse povo n\u00e3o vai ter a sua disposi\u00e7\u00e3o uma plateia para v\u00ea-lo rasgar seu cart\u00e3o para depois, em segredo, ir na semana seguinte pedir cr\u00e9dito novamente. Hoje, a dist\u00e2ncia imposta pela automatiza\u00e7\u00e3o dos sistemas de opress\u00e3o nos impede de ter esses momentos de catarse. Vamos da raiva \u00e0 resigna\u00e7\u00e3o em segundos. At\u00e9 o processo de destrui\u00e7\u00e3o do nosso ego se tornou mais eficiente.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que em alguns momentos a corda rompe e a gente surta. Me lembro de ter rasgado um tal\u00e3o de cheques novinho no meio de um carnaval de raiva do banco.<\/p>\n<p>&#8211; Nunca mais uso cheque! &#8211; uma promessa que eu cumpri.<\/p>\n<p>Mas isso foi no final dos anos 90. Na mesma \u00e9poca teve um amigo meu que, ao descobrir no meio de uma madrugada num 24 horas que n\u00e3o tinha dinheiro, mijou no banco todo. E tem aqueles casos mais atuais que a gente acha no youtube do pessoal que perde a linha com os pobres coitados dos atendentes telef\u00f4nicos, que, como as tropas nazistas em Nuremberg, repetem a exaust\u00e3o que s\u00f3 est\u00e3o cumprindo ordens.<\/p>\n<p>Apesar desses rompantes aned\u00f3ticos, com certeza, nossas possibilidades de resist\u00eancia e revolta in\u00f3cuas est\u00e3o reduzidas. Aprendemos nosso papel na m\u00e1quina e, por mais que sintamos dor ao sermos espremidos, sofremos em sil\u00eancio soltando pequenos ais nas redes sociais.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio de crise talvez isso se torne uma oportunidade para o setor banc\u00e1rio. Voc\u00ea ganha direito a dar um tapa num gerente por ano no pacote de servi\u00e7os hiper \u00f3dio master. E ao comprar nosso t\u00edtulo de capitaliza\u00e7\u00e3o &#8220;Eu te odeio&#8221; concorre a dar um chute na bunda do nosso presidente.<\/p>\n<p>E por que parar no setor banc\u00e1rio? A pol\u00edtica que nos d\u00e1 tanto \u00f3dio inextravas\u00e1vel \u00e9 ideal. Todo ano sortearemos brasileiros que escolher\u00e3o pol\u00edticos para, supremo deleite, tomar um generoso copo de chorume em rede nacional. Se somos escravos dessas ignorantes elites financeiras e pol\u00edticas e nada podemos mudar, acho importante que comecem a pensar em m\u00e9todos para lidar com o nosso \u00f3dio ou perder\u00e3o rapidamente os burros que puxam suas carro\u00e7as por loucura, doen\u00e7a ou morte.<\/p>\n<p>J\u00e1 posso escolher o meu pol\u00edtico para tomar o copo de chorume?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos anos 80, um dos meus programas preferidos com o meu pai era v\u00ea-lo brigar na Mesbla. Se voc\u00ea nasceu depois do fim da hiper infla\u00e7\u00e3o, deixa eu te situar. A Mesbla era uma rede lojas de departamentos assim como a Sloper e a Sears. Desculpe, refer\u00eancias tautol\u00f3gicas. Estou tentando explicar a um deficiente visual [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1969","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-escritos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1969","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1969"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1969\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1972,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1969\/revisions\/1972"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1969"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1969"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1969"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}