{"id":1983,"date":"2017-04-13T08:40:04","date_gmt":"2017-04-13T11:40:04","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=1983"},"modified":"2023-10-12T13:58:55","modified_gmt":"2023-10-12T16:58:55","slug":"trainspotting-2-e-a-maldicao-do-filme-sobre-a-meia-idade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/trainspotting-2-e-a-maldicao-do-filme-sobre-a-meia-idade\/","title":{"rendered":"Trainspotting 2 e a maldi\u00e7\u00e3o do filme sobre a meia-idade"},"content":{"rendered":"<p>Sa\u00ed de T2: Trainspotting com um gosto amargo na boca. N\u00e3o, o filme n\u00e3o \u00e9 ruim. \u00c9 \u00f3bvio, n\u00e3o consegue captar o brilhantismo visual do primeiro, que 20 anos depois j\u00e1 ficou ultrapassado; nem a mensagem, hoje repetida \u00e0 exaust\u00e3o, surpreende, apesar de manter a sua for\u00e7a. Os problemas n\u00e3o foram esses. O principal problema que me causou esse mal estar foi perceber que ningu\u00e9m sabe fazer filmes sobre a meia-idade.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 uma coisa que me atinge diretamente. Por mais que n\u00e3o pense nisso a todo momento, estou na meia-idade. Tenho 42 anos e considerando que posso viver at\u00e9 uns 80, passei do limiar da metade da vida. Se continuar sedent\u00e1rio e obeso, essa expectativa cai e j\u00e1 posso me considerar da terceira idade, o que explicaria por que o per\u00edodo dos meus 20 e poucos anos parecia tanto uma crise de meia-idade. Mas isso n\u00e3o vem ao caso.<\/p>\n<p>A ficha que me caiu \u00e9 que somos \u00f3timos para fazer filmes sobre a juventude e sobre a terceira idade, mas os filmes sobre a meia-idade sempre s\u00e3o um lixo.<\/p>\n<p>Os filmes sobre a juventude s\u00e3o normalmente <em>coming of age stories<\/em>, hist\u00f3rias sobre amadurecimento. Guiados pelos nossos horm\u00f4nios ou por cren\u00e7as idiotas, fazemos merda atr\u00e1s de merda at\u00e9 que por for\u00e7a das circunst\u00e2ncias ou por uma revela\u00e7\u00e3o descobrimos o que \u00e9 ser adulto.<\/p>\n<p>Nos anos oitenta, essas hist\u00f3rias eram contadas com adolescentes e \u00e0 vezes at\u00e9 crian\u00e7as. Hoje nosso coming of age t\u00e1 rolando l\u00e1 pelos 30 anos. Eita, adolesc\u00eancia prolongada.<\/p>\n<p>Os filmes sobre a terceira idade j\u00e1 pegam um caminho oposto; em geral s\u00e3o filmes sobre um resgate. Um resgate de virilidade, de liberdade, de amor, de emo\u00e7\u00e3o. Coisas que ficaram perdidas pelas trevas da meia-idade e que precisamos resgatar para novamente nos sentirmos jovens.<\/p>\n<p>O filme normalmente termina com uma morte digna ou com a esperan\u00e7a que haver\u00e1 (bastante) vida pela frente. Duas mentiras.<\/p>\n<p>Quando chegamos aos filmes da meia-idade a porca torce o rabo. Primeiro, os personagens em geral s\u00e3o escrotos; gente amargurada que \u00e9 v\u00edtima das suas pr\u00f3prias manias e n\u00e3o percebe o mal que realiza ao seu redor. S\u00e3o opressores porque podem ser e n\u00e3o se importam com os outros pois sofreram demais e consideram ter esse direito. Segundo, o evento deflagrador da a\u00e7\u00e3o \u00e9 em geral uma morte. Um parente, um dos amigos de um grupo, at\u00e9 mesmo um desconhecido. Tem sempre algu\u00e9m que faz esse povo sem carisma perceber que a morte est\u00e1 chegando e que eles precisam mudar. Invariavelmente a sua resposta \u00e9 tentar ser jovens, sem a gra\u00e7a, o vigor ou a inoc\u00eancia da juventude. Ou seja, eles se mostram os idiotas que s\u00e3o. Depois de darem com os burros n&#8217;\u00e1gua e aceitarem sua mortalidade, retornam \u00e0 sua escrotid\u00e3o usual com um pouquinho mais de do\u00e7ura.<\/p>\n<p>At\u00e9 os poucos filmes legais sobre a meia-idade (o Reencontro, Para o Resto das Nossas Vidas) seguem esse modelo e nos expulsam da sala o cinema com uma sensa\u00e7\u00e3o de insuper\u00e1vel imobilidade.<\/p>\n<p>Olhando por esse prisma, tanto as hist\u00f3rias de juventude como as da terceira idade s\u00e3o hist\u00f3rias de mudan\u00e7a, de rebeli\u00e3o. As da meia-idade s\u00e3o confirma\u00e7\u00f5es do status quo. Casais separados se juntam novamente, fam\u00edlias se re\u00fanem apesar de se odiarem, neg\u00f3cios falidos prosperam apenas o suficiente para n\u00e3o for\u00e7arem os protagonistas a mudarem de carreira. Enfim, hist\u00f3rias reacion\u00e1rias. Enquanto os filmes de juventude e terceira idade te dizem &#8220;Do something&#8221;, os da meia-idade dizem &#8220;\u00c9 isso o que temos pra hoje, mas relaxa&#8221;.<\/p>\n<p>T2 foi por esse caminho. Os amigos aparentemente maduros dentro das suas perversidades s\u00e3o reunidos por causa da morte da m\u00e3e de Renton e retornam as suas atividades de juventude para no final (spoiler?) descobrirem que a vida \u00e9 assim mesmo e se recolherem as suas respectivas insignific\u00e2ncias.<\/p>\n<p>N\u00e3o vou dizer que n\u00e3o me diverti. Foi como encontrar velhos amigos e ouvi-los contar aquelas hist\u00f3rias \u00e9picas dos &#8220;nossos tempos&#8221;. As homenagens visuais s\u00e3o bem usadas e, se voc\u00ea vir o primeiro filme logo depois, como eu fiz, fica patente como os personagens ainda mant\u00e9m a mesma for\u00e7a do primeiro filme, assim como o discurso &#8220;Choose Life&#8221; atualizado para os tempos atuais.<br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1985 size-full\" src=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/flat800x800075f.u1-e1492082603653.jpg\" alt=\"\" width=\"696\" height=\"520\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/flat800x800075f.u1-e1492082603653.jpg 696w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/flat800x800075f.u1-e1492082603653-300x224.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 696px) 100vw, 696px\" \/><\/p>\n<p>Mesmo assim, sa\u00ed mal do cinema. O que a fic\u00e7\u00e3o tem a dizer pra minha idade \u00e9 isso? Bom, voc\u00ea vai fazer 20 anos de carreira no ano que vem e \u00e9 por a\u00ed que voc\u00ea tem ficar mesmo. Pense nas suas responsabilidades e tente inutilmente sufocar as suas culpas que, quando e se chegar na terceira idade, voc\u00ea pode resgatar um pouco de vida para n\u00e3o dizer que foi tudo um desperd\u00edcio de tempo.<\/p>\n<p>Num mundo em que estamos vivendo cada vez mais, \u00e9 um crime que a nossa fic\u00e7\u00e3o sobre a nossa crescente meia-idade seja s\u00f3 isso. Talvez o verdadeiro crime seja pensarmos na vida como um \u00fanico ciclo de Descoberta, Decad\u00eancia e Aceita\u00e7\u00e3o da Morte.<\/p>\n<p>Talvez precisemos olhar para a vida como uma s\u00e9rie de ciclos que n\u00e3o se ligam mais a idades espec\u00edficas. Mas, enquanto a ind\u00fastria do cinema olhar para os espectadores como p\u00fablicos alvo, e n\u00e3o como pessoas, continuaremos v\u00edtimas desses contos morais divididos pelas faixas et\u00e1rias de 18 a 35, 35 a 65, 65 a morte, sobre como a vida \u00e9 boa e s\u00f3 n\u00f3s n\u00e3o percebemos.<\/p>\n<p>Segundo a ind\u00fastria do cinema, escolher a vida (choose life), e n\u00e3o simplesmente aceita-la, \u00e9 um esporte para jovens.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sa\u00ed de T2: Trainspotting com um gosto amargo na boca. N\u00e3o, o filme n\u00e3o \u00e9 ruim. \u00c9 \u00f3bvio, n\u00e3o consegue captar o brilhantismo visual do primeiro, que 20 anos depois j\u00e1 ficou ultrapassado; nem a mensagem, hoje repetida \u00e0 exaust\u00e3o, surpreende, apesar de manter a sua for\u00e7a. Os problemas n\u00e3o foram esses. 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